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20 Novembro, 2016
  • Nem todos os amigos são camaradas, nem todos os adversários são inimigos

    Por Valerio Arcary, Colunista do Esquerda Online

    Entretanto, não duvido apesar de tudo de que a minha morte hoje seja mais útil que do que a prolongação de minha vida. Caro Liev Davidovitch, estamos ligados por dez anos de trabalho comum e, ouso, esperá-lo de amizade pessoal, e isso me dá direito de lhe dizer no momento do adeus, o que em você me parece ser uma fraqueza. Nunca duvidei da justeza do caminho traçado por você, que sabe que durante mais de 20 anos marchei com você, desde a “revolução permanente”. Mas sempre pensei que faltavam a inflexibilidade, a intransigência de Lenin, sua resolução de ficar, sendo preciso, sozinho no caminho que reconheceu como certo, na previsão da maioria futura, no reconhecimento futuro, por parte de todos, da exatidão desse caminho. Você sempre teve razão politicamente, a começar por 1905, e muitas vezes lhe contei ter ouvido, com os meus próprios ouvidos, Lenin reconhecer que em 1905 não fora ele mas você que tivera razão. Defronte da morte não se mente e o repito, agora, de novo…
    Bilhete suicida de Adolf Joffe a Trotsky

    Reduzido por uma polinevrite a uma invalidez quase completa, impossibilitando-o de tomar parte ativa nas lutas políticas de então, Joffe não viu outro meio de ainda servir à causa da revolução – do que se matar, dando a sua morte uma significação precisa de protesto contra a exclusão de Trotsky do Partido e o regime de perseguição pessoal, adotado pela direção, na sua campanha contra a Oposição. A sua carta foi encontrada logo após sua morte sobre sua mesa. Não chegou, porém, às mãos de seu destinatário. Os seus funerais em Moscou, no dia 19 de Novembro, tiveram um caráter comovedor. Apesar de realizados nas horas de trabalho, compareceram milhares e milhares de operários, camaradas do Partido, delegações do Exército Vermelho. Foi a última vez que a oposição de esquerda saiu às ruas.

    Procurei inspiração nestas linhas de Adolf Joffe para Leon Trotsky antes de escrever este texto. Trata-se de uma carta política dirigida a um amigo. Eles tinham sido camaradas e amigos por décadas. A intimidade e o afeto atravessa toda a carta. Diante da morte Joffe decide alertar Trotsky para aquilo que considera serem os seus defeitos. Os russos sempre me emocionaram porque são intensos.

    Entre aqueles engajados na militância há muita confusão entre o que são as relações de amizade e as relações de camaradagem. Esta confusão gera muitas desilusões quando as diferenças políticas levam à perda das relações de amizade. Relações de amizade são um vínculo emocional poderoso. Lidar com perdas é sempre uma experiência dolorosa. Não é incomum que as decepções pessoais com camaradas se transformem em desalento ideológico no futuro da luta pelo socialismo. E o desânimo, a desesperança, o desengano são maus conselheiros, porque obscurecem a mente e diminuem a lucidez.

    Tentar definir o que é a amizade foi sempre difícil. Em uma época em que confiar nos outros é percebido como credulidade ingênua é importante lembrar que uma vida sem amizade é muito triste. A solidão parece ser uma epidemia no mundo contemporâneo. Ela é sempre mencionada como um dos fatores de depressão. A desconfiança generalizada – contra tudo e todos – só pode alimentar, evidentemente, vidas solitárias.

    Não há nenhuma dúvida de que somos seres sociais. Nossos ancestrais resistiram a todas as adversidades porque foram capazes de se unir em bandos, relativamente, numerosos, embora dificilmente maiores do que 150 membros, para garantir a sobrevivência. Seres sociais quer dizer que dependemos uns dos outros, da ajuda e solidariedade mútua, portanto, da cooperação. Somos aptos para viver em sociedade, não porque não existam conflitos, mas porque a busca de auxílio, socorro, ou assistência conviveram na história com a avidez, a rivalidade, a cobiça, a inveja e a soberba, mas prevaleceram.

    Precisamos de amigos para ter uma vida mais plena e menos solitária. Amizade é uma relação afetiva, em princípio, não erotizada, entre pessoas que se conhecem e estabelecem laços de lealdade, portanto, de confiança. Todos podemos ter dezenas, ou até mesmo centenas de conhecidos com quem mantemos relações polidas ou cordiais: pessoas com quem nossas vidas se cruzaram, mas com as quais não estabelecemos laços emocionais. Ninguém, contudo, alimenta amizades nessa escala, porque não é possível. Porque a amizade exige dedicação e lealdade e pressupõe altruísmo, ou seja, a disposição generosa de agir em benefício dos outros, e não somente em função do próprio interesse.

    Lealdade entre amigos não pode repousar somente em acordos políticos. Ela se constrói alicerçada na confiança pessoal, que vai além das ideias políticas. Existindo, inevitavelmente, diferenças de opinião, cultivar amizades exige uma disposição para a tolerância. Ninguém gosta de ser contrariado. Podemos ficar desgostosos ou até aborrecidos quando discordam de nossas opiniões. Mas romper amizades por diferenças de opinião é uma tolice infantil. Estar disposto a acolher ideias diferentes das nossas revela maturidade para aceitar graus de dissenso com que podemos conviver.

    O que são camaradas? Camaradas são aqueles que, na tradição socialista, pertencem a uma mesma organização e ou compartilham uma visão do mundo comum, o igualitarismo, ou luta pela igualdade social. Esta visão do mundo socialista se fundamenta, em primeiro lugar, no reconhecimento de que todos os seres humanos têm em comum necessidades, intensamente, sentidas que são iguais. Ser socialista significa uma ruptura ideológica com o capitalismo, uma adesão ao movimento dos trabalhadores e dos oprimidos, uma aposta no projeto de luta pela revolução, e uma aspiração internacionalista por um mundo sem dominação imperialista. Nas sociedades em que vivemos ser socialista exige, portanto, uma escolha de classe. Não importa a classe social na qual nascemos. O que importa é a qual classe unimos nosso destino.

    Acontece que nem todos os nossos amigos são camaradas, e nem todos os camaradas são amigos. Porque amigos podem ter visões do mundo diferentes. Amizades não devem ter como condição, necessariamente, uma mesma visão do mundo. Por outro lado e, talvez, mais importante, podemos ser camaradas de militantes que não conhecemos tão bem. Só em pequenas organizações, núcleos de pouco mais do que cem militantes, é que é possível conhecer todos os membros. Se a amizade pessoal for um critério de pertencimento, uma organização revolucionária estará condenada à estagnação, ou a rupturas recorrentes.

    Acontece que as tarefas da revolução brasileira e mundial exigem que nos coloquemos o desafio de querer construir grandes organizações. Seria irrealista exigir de ativistas que compartilham a defesa do mesmo programa, mas não se conhecem o bastante, um grau de confiança pessoal, um afeto intransferível semelhante ao daqueles que convivem, regularmente, entre si. Portanto, confiança em um projeto não é o mesmo que lealdade pessoal a todos os membros da mesma organização. A confiança pessoal é diferente da confiança política. A primeira se constrói como intimidade pessoal. A segunda como a defesa de um programa comum. Quando além de camaradas somos amigos de alguém se estabelece um vínculo muito forte. Mas é perigoso não saber distinguir que são dois laços diferentes. Porque a perda da confiança política não deve, necessariamente, contaminar a relação pessoal.

    O que são adversários? Adversários são aqueles contra os quais lutamos em uma disputa. Não é possível viver sem ter adversários. Porque a vida é uma sequência de lutas. Mas os conflitos têm diferentes naturezas e importância. Saber ponderar, calibrar, medir, avaliar a maior ou menor gravidade das diferenças, das polêmicas, dos debates, das rivalidades é indispensável. Porque nem todos os adversários são inimigos. Depende de qual é a natureza do conflito. Adversários podem ou não se tornar desafetos, ou seja, a disputa de ideias pode degenerar em antagonismo pessoal. Mas nem todos os nossos adversários são nossos inimigos.

    O que são inimigos? Inimigos são os adversários que enfrentamos em lutas que são incontornáveis porque correspondem a interesses de classe irreconciliáveis. As hostilidades com os inimigos são inevitáveis, porque eles são nocivos aos interesses de classe que representamos.
    Na história da esquerda ocorrem rachas, separações, divisões, em função de distintas percepções da situação política que, por sua vez, expressam diferentes pressões sociais e políticas. Diferenças sérias de projeto justificam rupturas políticas, mas não devem transformar, necessariamente, aqueles que eram camaradas em inimigos.

    A violência verbal, seja na forma ou no conteúdo, é uma maneira desonesta, intelectualmente, de tentar ganhar um debate a qualquer preço. Acusações ad hominem são aquelas que são dirigidas às pessoas, e não às ideias que elas defendem. Coloca-se o caráter do adversário em dúvida, através de ataques pessoais, para desqualificar suas ideias. Trata-se de uma tática diversionista porque tenta desviar o tema da polêmica. Aqueles que recorrem a este método retórico confessam, involuntariamente, que não têm confiança nos seus argumentos. Precisam destruir o outro porque não conseguem refutar suas ideias. Violência verbal através de acusações ad hominem é um método inaceitável, porque diminui a importância das ideias, e só serve para a desmoralização dos adversários.

    Na esquerda revolucionária para o século XXI que queremos construir devemos saber preservar amizades, apesar das diferenças políticas que nos separam em distintas organizações, e aprender a distinguir os adversários dos inimigos. Isso parece simples e elementar. Mas não é.

  • A qual classe social pertencem os soldados da PM?

    Por: Francisco da Silva, de Porto Alegre, RS.

    Desde semana passada quando os servidores públicos do Rio de Janeiro se mobilizaram contra os ataques do Governador Pezão, mas sobretudo após a quebra de disciplina de dois membros da polícia militar carioca surgiram na esquerda vários debates: qual a estratégia dos revolucionários perante as forças armadas? A estratégia é a mesma para as forças policias? As forças armadas do século 21 autorizam a vigência da estratégia clássica dos revolucionários? Qual é o sentido atual e concreto dos dois policiais terem quebrado a disciplina e se juntado aos manifestantes, mais favorável à burguesia ou mais favorável ao proletariado? Qual a política dos revolucionários perante a complexa situação do Rio de Janeiro em que os policiais lutam junto com o restante dos servidores contra os ataques do Pezão, embora cantem palavras de ordem de apoio à Bolsonaro e a intervenção militar?

    São todas questões complexas, mas decisivas para aqueles que lutam em defesa dos interesses da classe trabalhadora. Esse pequeno texto porém tem o objetivo de discutir uma outra polêmica: qual a natureza de classe dos policiais militares? Em que pese tenha visto nas distintas publicações das organizações da esquerda várias diferenças sobre os debates antes citados, me pareceu que houve uma conclusão comum: os policias não são membros da classe trabalhadora. Eu até agora formulei uma outra opinião.

    Classe social definida por função social?
    O camarada Henrique Canary defendeu recentemente em sua coluna aqui no Esquerda Online que os policiais não são membros da classe trabalhadora já que “Sua função é absolutamente específica e não está ligada ao processo produtivo, nem mesmo indiretamente: são agentes da repressão. Esta é sua função social específica. Os agentes da repressão não são parte da oposição capital-trabalho. Ou pelo menos não o são desde um ponto do vista do trabalho. Ao contrário: são agentes do capital para a opressão do trabalho. Sua condição se assemelha muito mais a de mercenários que venderam a sua alma do que trabalhadores que vendem sua força de trabalho”.

    Posição semelhante teve a companheira Simone Ishibashi do MRT em seu artigo no Esquerda Diário “A polícia não pode ser considerada parte da classe trabalhadora. O fato de serem assalariados, e pagos pelo Estado, mesmo empregador do conjunto do funcionalismo público não os igualam aos trabalhadores da Saúde e da Educação, por exemplo. Isso porque a função da polícia é proteger a propriedade privada, os capitalistas e sua ordem, através do uso da violência contra os trabalhadores, a juventude, e o povo, sobretudo os pobres e negros”.

    A primeira observação que necessita ser colocada é, se os policiais não são membros da classe trabalhadora são membros de qual classe? Burgueses? Pequeno Burgueses? A chamada nova classe média, formada por técnicos e profissionais liberais? Lúmpens-proletários? São uma nova classe social? Outra?

    Depois, há de se questionar o critério para definição de classe. Pelo que pude compreender, os camaradas que dizem que os policiais não são membros da classe trabalhadora sustentam isso pela função social que os policiais cumprem. Mas se a natureza de classe é definida pela função social, como definir os servidores do judiciário por exemplo? Sua função também é a de proteger o Estado burguês e a propriedade privada. O seu trabalho são a confecção de ordens de reintegrações de posse, encarceramento dos negros, etc. São a carne e o osso que realizam as deliberações dos magistrados que ali na frente, em último caso serão executadas pela polícia.

    E os diagramadores de grandes jornais? Sua função é facilitar graficamente as peças de propaganda da burguesia. E os agentes fiscais país afora? Sua função é recolher impostos, principalmente dos pobres e da classe trabalhadora. Também são duas funções essenciais à manutenção da ordem e a violência não modifica o caráter de classe de uma ou de outra categoria.

    Os camaradas estão corretos ao afirmar que a condição de assalariado é insuficiente para determinar a natureza de classe, mas creio que se equivocam ao determinar a natureza de classe dos polícias pela função social que exercem. Penso que as lições de Leon Trotsky, autor que compartilhamos todos, nos dão algumas pistas.

    O caráter de classe da burocracia stalinista nas ideias de Leon Trotsky
    Trotsky respondendo a pergunta sobre se a burocracia é uma classe dirigente afirma “As classes são definidas pelo seu lugar na economia nacional e, antes de mais nada, pela sua relação com os meios de produção (…) Pela sua função de reguladora e intermediária, pelo seu desejo de manter a hierarquia social, pela exploração para fins próprios do aparelho de Estado, a burocracia soviética assemelha-se a qualquer outra e sobretudo à do fascismo (…) [mas a burocracia] não criou uma base social para sua dominação, sob a forma de condições particulares de propriedade. É obrigada a defender a propriedade do Estado, fonte do seu poder e das suas receitas” (página 172, Leon Trotsky, A Revolução Traída – Global Editora).

    Nos debates com os anti defensistas do SWP norte-americano Trotsky rejeita a ideia da burocracia ser uma nova classe exploradora, apesar de representarem interesses característicos da burguesia no seio do Estado em que o proletariado é a classe dirigente (página 245 e ss, Leon Trotsky, Em Defesa do Marxismo – Editora Sundermann). Isto é, apesar de sua função social ser contra revolucionária e mesmo realizando uma enorme guerra civil preventiva contra o proletariado nos anos 20-30, ainda assim eram uma camada ultra privilegiada das classes não possuidoras. É porque as classes sociais se definem por economia e não por política.

    Porque se a definição de classe se dá por sua função social, se levamos isso até as últimas consequências deveríamos revisar a condição de classe da burocracia soviética, o que mudaria toda a estratégia dos revolucionários perante a antiga URSS. Eu não sou fetichista, tudo que a realidade nos autorizar revisar revisemos, mas não estou convencido de ser este o caso.

    O caráter de classe do exército czarista e Kerenkista
    Trotsky falando sobre a situação do exército depois de fevereiro e antes de outubro de 1917 na Rússia afirma “A disciplina repousava em sua maior parte em duas fundações: a cavalaria privilegiada, composta de camponeses ricos, e a artilharia ou no setor técnico em geral, com uma alta porcentagem de operários e intelectuais. Os cossacos donos de terra resistiram mais que todos, temendo uma revolução agrária em que a maioria deles iria perder e não ganhar” (página 247, Leon Trotsky, História da revolução Russa – Editora Sundermann). Em outro momento na mesma obra Trotsky fala que “o primeiro corpo que se desintegrou foi a infantaria camponesa. A artilharia, composta em maior parte de operários industriais, distingue-se no geral por uma capacidade muito maior de assimilação das ideias revolucionárias” (página 37).

    E teríamos uma infinidade de citações para comprovar que no pensamento de Leon Trotsky, no caso russo, em geral os soldados pertenciam às classes sociais não possuidoras, proletários e principalmente camponeses pobres. Aqui jamais ocorreu a Trotsky definir o caráter de classe dos soldados e dos comandantes por sua função social, pois isso eliminaria os antagonismos de classe no seio das próprias forças armadas já que tanto os soldados como os altos oficiais teriam a mesma função social de reprimir e ser o “cão de guarda da burguesia”. E jamais ocorreu isso a Trotsky porque afinal “um exército é sempre uma cópia da sociedade que ele serve – com a diferença que ele dá às relações sociais um caráter concentrado, levando suas características positivas e negativas ao extremo” (página 242).

    A natureza de classe do exército vermelho
    “O exército da ditadura do proletariado deve ter, segundo o programa do partido, ‘um nítido caráter de classe, compor-se exclusivamente de proletários e de camponeses pertencentes aos grupos pobres semiproletários da população dos campos'” (página 149, Leon Trotsky, A Revolução Traída – Global Editora).

    É a partir dessa noção que Trotsky criticou a política stalinista de enfraquecimento das milícias operárias bem como da elevação dos rendimentos dos soldados acima do nível médio das massas trabalhadoras, justamente preocupado em não elevar as condições de vida dos soldados acima das massas.

    Os soldados da PM são a ala mais reacionária da classe trabalhadora
    Os policiais são justamente odiados. Afinal são os genocidas do povo negro. Os braços da repressão aos movimentos sociais. E as milícias que aterrorizam a vida dos pobres. Mas não se faz política, e muito menos teoria, por vingança.

    Os soldados da PM são membros da classe trabalhadora. Me parece que à condição de assalariado é preciso equilibrar com as condições de existência. Recebem salário e tem condições de existência muito semelhantes ao do proletariado brasileiro. Vivem na periferia como os trabalhadores. Sofrem com péssimos serviços públicos como os trabalhadores. Comem e compram nos mesmos lugares que os trabalhadores e aí por diante. Sua condição de existência é a mesma que os trabalhadores. Sua condição de assalariado é a mesma que os trabalhadores. Tem o mesmo tipo de patrão que os trabalhadores do serviço público. O problema é que pertencem à instituição burguesa mais reacionária da sociedade brasileira e por ela tem sua consciência condicionada. E a própria natureza de sua atividade é reacionária, já que são a força de coerção do estado burguês sobre as massas trabalhadoras. Mas não creio que isso nos autoriza a retirá-los da esfera da classe trabalhadora.

    Diferente do que disse o camarada Henrique, não são mercenários que venderam sua alma. São trabalhadores que querem sair da iniciativa privada e ter mais estabilidade no serviço público. Se pudessem seriam bancários ou servidores do INSS, pois trabalhariam menos e ganhariam mais. Mas conseguiram apenas passar no concurso pra PM.

    Então os revolucionários devem construir trabalho entre os soldados das forças armadas e da polícia?
    Sim, evidentemente. E isso não significa se orientar por uma estratégia putchnista de infiltrar ou ganhar membros em postos chave das forças armadas como criticou Ishibashi lembrando a crítica de Trotsky à social democracia alemã, mas ganhar as massas dos soldados para romperem a disciplina e se aliarem aos trabalhadores. Só que isso só é possível quando a correlação de forças permitir, claro.

    E de qualquer forma, o centro da estratégia revolucionária se baseia em dominar no reino da indústria e sejamos sinceros a esquerda revolucionária brasileira ainda mal conseguiu sair do cubículo do movimento estudantil universitário e do servidores públicos.

    A instituição Polícia Militar, Exército, Marinha, etc não estão em disputa. Assim como as demais instituições burguesas deve ser destruída. E para destruí-las precisamos nos guiar para tentar quebrá-las por dentro e por fora.

    Defender os interesses históricos da classe trabalhadora
    Concluir que os soldados da PM são da classe trabalhadora não nos autoriza concluir que devemos sempre defender suas mobilizações. Aliás, isto serve para qualquer ala da classe trabalhadora. Muitas vezes os trabalhadores são transitoriamente ganhos pela burguesia para se mobilizarem contra seus próprios interesses. Isso já ocorreu centenas de vezes. Uma parte dos mineiros do Chile se mobilizaram contra Allende pela direita. No Brasil pré impeachmeant a maior parte da classe trabalhadora foi contra Dilma mas sendo dirigida pela FIESP. Recentemente na Ucrânia as massas estavam dispostas à uma guerra civil para entrar na zona do euro. Aliás, hoje mesmo, é bom que se saiba, uma ala considerável da classe operária embora não se mobilize ativamente para lutar pelas ideias de Bolsonaro, o defende e interage com ele nas redes sociais. Ou seja, ás vezes a pressão da burguesia é tal que consegue arrastar junto consigo enormes parcelas da classe trabalhadora.

    Esse objetivismo político de apoiar qualquer coisa que seja contra um governo burguês, característica distinta de uma corrente do trotskismo, só pode nos levar a mais erros. Apoiamos a luta dos policiais se isso ajuda na luta em defesa dos interesses históricos da classe trabalhadora. Mas saber para qual lado pende a luta dos policiais só a análise concreta da situação concreta pode nos dizer.

    Foto: Alexandre Carvalho /A2img em fotospublicas.com

  • Mortes na Cidade de Deus: a guerra às drogas no Rio de Janeiro

    Por: Bianca Andrade, do Rio de Janeiro, RJ

    A foto angustiante é o ‘saldo de baixas necessárias’ para a política de guerra às ‘drogas’. Aí acrescenta mais algumas dezenas de jovens negros e os quatro policiais. Isso com um corte de tempo e espaço de no máximo uma semana em apenas uma pequena região do Rio de Janeiro, a Cidade de Deus. Na foto, os corpos dos sete jovens encontrados mortos neste domingo (20) pelas famílias, em uma área de mata na região da Cidade de Deus, na zona oeste do Rio de Janeiro, após a queda de helicóptero da polícia no local.

    Não é preciso matutar muito para entender que alguma coisa não está dando certo. Mas, o que não está dando certo? Será que falta investimento do estado na segurança pública? Ou será que temos que rever essa lógica de combate às ‘drogas’?

    De 2008, quando foi implementada a farsa das Unidades de Política Pacificadoras (UPPs), no Rio, a 2015, o investimento do Governo do Estado do Rio de Janeiro em segurança foi de R$ 443 milhões, enquanto na educação foram R$ 210 milhões e na saúde R$ 310 milhões. Ou seja, 111% a mais do que na educação e 22% a mais do que na saúde. Portanto, não parece que o problema passe por falta de investimento na segurança.

    Para toda guerra tem que se ter condições técnicas, como armamento e toda uma logística de ‘suporte’ e também uma ideia de ‘combate’ que a população compre a sua necessidade. Nesse caso, essa ideia é justo o combate às drogas. A empresa Gaúcha Taurus, que é a maior vendedora de armas ‘leves’ para o Estado do Rio de Janeiro teve um lucro líquido de R$ 14,6 milhões só no 2° trimestre de 2016. Já as armas de ponta, que são usadas pelos ‘grupos de elite’ são importadas dos EUA, o maior exportador de armas do mundo com lucros exorbitantes. Essas são as cifras legais, imagina as ilegais.

    Em 2013, a comandante  Pricilla Azevedo, da UPP da Rocinha, declarou ao Jornal Extra que, segundo o levantamento de inteligência da Unidade, o tráfico de drogas movimentava R$ 10 milhões por mês. Mas, esse dinheiro não parece estar no bolso do Nem, ex-chefe do tráfico da Rocinha. Quem mais lucra com o tráfico de drogas, seja direta ou indiretamente, seja na venda ou no combate, não é nem o chefe da boca, quem dirá o fogueteiro, ou aviãozinho. Até aqui, parece ser um negócio bem lucrativo e sem eficiência social.

    A verdade é que a questão das drogas não pode e não vai ser resolvida como questão de segurança pública. Há uns dias, uma jovem branca universitária foi pega em flagrante com 6,5 kg de haxixe em um aeroporto em Recife e foi concedido a ela um habeas corpus por não ser considerada um risco à sociedade. Mais uma vez, parece que não são as drogas em si que apresentam um risco à sociedade. O desembargador que lhe concedeu ‘outra chance’ foi além e disse que “Mais risco a si mesma e à sociedade seria entregá-la a um sistema carcerário inapropriado à ressocialização”. Há de se concordar.

    Infelizmente, aqui no Rio, a população carcerária, em julho desse ano, era de 50 mil pessoas, enquanto a ‘capacidade’ era de atender a 27.242 ‘vagas’. Desses, 44% , que correspondem a 22 mil pessoas, estão esperando julgamento. São em maioria jovens, negros e com escolaridade até o Fundamental. O problema está aí. Para os jovens negros e pobres nenhuma outra chance, ou pior, nenhuma chance, sem direito pleno à saúde, educação e moradia.

    O Brasil é o país com a maior taxa de mortes ‘de violência’ do mundo, e mais uma vez o perfil é de jovens negros. Pagamos com nossas vidas o lucro dos peixes grandes do tráfico de drogas e armas. E isso tem que acabar. Mas, como? Não é de hoje que o Estado do Rio de Janeiro ‘resolve’ com tiro, porrada e bomba. Essa é a face do Estado que mais aparece aqui nas periferias. Quando não, é com escola caindo aos pedaços e hospitais sem infraestrutura que, para termos acesso, morremos nas filas.

    É preciso legalizar as drogas, colocar a venda e a produção no controle do estado, ou seja, tirar o lucro desses que ganham com nossas mortes, e investir em educação, saúde, inclusive com políticas para os usuários de drogas e moradia. Não só isso basta. A militarização da PM é fundamental na guerra às ‘drogas’.. É preciso falar sobre a necessidade de desmilitarizar a PM. Chega! Nossas vidas importam!

    No mais, deixo aqui a ironia dos ‘princípios e valores’ da Secretaria de Estado de Segurança do Rio de Janeiro:

    “-Preservação da vida e dignidade humana
    -Foco no cidadão
    -Valorização do profissional de segurança
    -Profissionalização e transparência da gestão
    -Atuação qualificada e integrada das polícias
    -Redução contínua da violência e criminalidade
    -Compromisso com a ética, legalidade e moralidade”

  • Brasil e o mito da ‘escravidão cordial’: ainda lutamos por nossa liberdade

    EDITORIAL 20 DE NOVEMBRO | A especificidade da formação social brasileira na questão da dominação racial fez surgir uma expressão com forte cunho ideológico de existência de uma suposta “democracia racial” no Brasil.

    O principal expoente na elaboração da democracia racial foi Gilberto Freyre com seu livro Casa Grande e Senzala, que se tornou um clássico da sociologia no Brasil e que, ao comparar a escravidão no Brasil com países como os EUA, afirmava “Híbrida desde o início, a sociedade brasileira é de todas da América a que se construiu mais harmoniosamente quanto às relações raciais”.

    A tese era de que a escravidão no Brasil era composta de senhores maleáveis e escravos conformados. Em perspectiva, no Brasil, segundo Freyre, teria ocorrido uma miscigenação entre negros e brancos que levou a uma harmonia e tolerância racial, ou seja, a construção de uma sociedade com ausência de preconceito e discriminação raciais.

    A história dos dez milhões de africanos que foram sequestrados e trazidos para o Brasil como escravos indica exatamente o contrário. Desde o início, houve resistência na forma de rebeliões. Inúmeros foram os quilombos, insurreições e guerrilhas organizados por negros e negras em resistência à escravidão.

    O mito da democracia racial está a serviço de demonstrar que a exclusão do negro de direitos e sua inserção subordinada na sociedade brasileira não está na forma como foi estruturado o capitalismo no Brasil. O determinante seria sua inferioridade racial. O mito da democracia racial está a serviço de perpetuar o racismo na sociedade brasileira através da meritocracia, afinal, para esta ideologia todos têm as mesmas oportunidades e os eventuais fracassos se devem a maus resultados individuais.

    Abaixo, vamos listar alguns dados que comprovam que o Brasil longe de ser o país da democracia racial é o país da exclusão social e do racismo em relação aos negros e negras:

    1. Genocídio da juventude negra. 30 mil jovens de 15 a 29 anos são assassinados por ano no Brasil, sendo cerca de 77% negros.
    2. O atlas racial brasileiro demonstra que os negros e negras representam 65% dos pobres brasileiros, metade da população negra no Brasil.
    3. Dados de 2015 da Pesquisa Mensal de Emprego indicam que os trabalhadores negros recebem, em média, 59,2 % do rendimento dos brancos. Essa diferença aumenta se compararmos a situação apenas das mulheres negras.

    Por isso, neste dia 20 é mais necessário do que nunca olhar a realidade brasileira através dos dados que demonstram que estamos frente a um estado racista que desde os mecanismos de repressão até os bancos escolares diferencia e exclui mais da metade da população brasileira do direito a uma vida digna. Somente ao enxergar esta realidade é que poderemos fazer uma luta consequente e sem trégua pela igualdade racial, que só pode ser compreendida com o fim deste sistema que cada vez mais necessita de prática racistas para mais explorar.

  • Polícia e (in) Justiça

    Por: Larissa Vieira e Juliana Benício, colunistas do Esquerda Online

    Em 2013 atearam fogo na lenha sob o caldeirão em que se concentra a sociedade brasileira. Passados três anos, reabasteceram a fornalha com madeira nova e passamos a vivenciar centenas de ocupações de escolas e universidades, greves de servidoras e servidores públicos, manifestações de rua contra as alterações legislativas que fazem retroagir em séculos os direitos conquistados pela classe trabalhadora desse país, muitos dos quais, é bom anotar, sequer ainda efetivados.

    Estamos retroagindo ao século XVII, quando vigorava a chamada primeira geração de direitos humanos, em que o Estado só se dedicava às prestações negativas, ou seja, destinava-se apenas a assegurar a esfera de autonomia dos indivíduos, mais especificamente, sua “liberdade”. Acontece que a história demonstrou que conceder liberdade de modo igualitário a pessoas em situação econômica profundamente desigual, só gera espaço para a injustiça, visto que as oportunidades que são oferecidas aos membros de diferentes estratos sociais colocam o caráter hereditário da riqueza e da pobreza como um preceito tão natural quanto as leis de Newton.

    Os dois parágrafos anteriores não trazem qualquer novidade. Na verdade, os que virão também não trarão. O objetivo aqui é denunciar uma realidade há muito conhecida pelo povo pobre desse país: a truculência com que o Estado, em sua face mais evidente, trata aquelas e aqueles que deveria proteger. Esse debate deve ser cotidiano, mas o invocamos episodicamente por considerá-lo especialmente importante nesse momento em que a sociedade civil se insurge contra o estado de coisas em vigor, em que a caldeira começa a se superaquecer e os conflitos sociais ultrapassam os muros das periferias.

    A intensificação das lutas nos últimos anos nada mais é do que um levante de resistência contra o modelo de organização do capital pautado pela destruição da natureza, somada à intensificação do empobrecimento daquelas e daqueles que não se inserem entre os 1% de ricos da humanidade.

    Esse movimento gera, contudo, outro de força contrária, materializado na criminalização das defensoras e defensores de direitos humanos, ou seja, na utilização de instrumentos jurídicos persecutórios contra pessoas e grupos que “atuam na luta pela eliminação efetiva de todas as violações de direitos e liberdades fundamentais dos povos e indivíduos”, bem como batalham pela ampliação dos “direitos individuais, políticos, sociais, econômicos, culturais e ambientais que ainda não assumiram forma jurídica ou definição conceitual específica”.

    Dentre esses instrumentos de criminalização, cita-se a polícia brasileira que, por força do art. 144 da Constituição de 1988, é dividida em civil e militar. Aquela tem um caráter investigativo, enquanto esta tem atribuições de policiamento ostensivo, ligadas à preservação da ordem pública. A formação e a estrutura da polícia, com características militares, fazem com que a instituição se paute pela lógica do enfrentamento a um inimigo permanente. Esse deveria ser o alvo das forças armadas e não da polícia, que teria que seguir como objetivo assegurar a cada brasileira e brasileiro o exercício de seus direitos.

    O prólogo foi feito para que as colunistas, que há alguns anos vêm sendo açoitadas em seu direito à livre manifestação do pensamento por esse instrumento de repressão de que se fala, tragam um breve desabafo. Em 01 de novembro deste ano de 2016, enquanto participávamos de uma caravana ao longo da bacia do rio Doce, que buscou chamar a atenção da opinião pública para o crime cometido pela Samarco (Vale e BHP Billinton), os 365 dias de impunidade e a subserviência do estado brasileiro ao capital econômico internacional, pudemos, mais uma vez, sentir na pele esse processo de criminalização.

    Estávamos, cerca de 200 ativistas de direitos humanos, em marcha no distrito de Belo Oriente, um pequeno povoado, com aproximadamente 10.000 habitantes, pertencente ao município de Cachoeira Escura/ MG. A ideia era denunciar as três empresas que destruíram o rio Doce, fonte de vida, de renda e de lazer para as comunidades localizadas ao longo dos cerca de 600 km afetados. Caminhamos do Centro às margens do rio, onde plantaríamos árvores como símbolos da resiliência do povo e da natureza e da esperança de dias melhores. Fomos impedidas de seguir o caminho que planejamos. A Vale parou seu trem na linha, frustrando nossa intenção de chegar ao rio pelo caminho mais curto. Além da interferência no roteiro, assustamo-nos com o aparato policial que nos acompanhou: além dos cães, enviaram o batalhão de choque, com algumas dezenas de soldados trajando armaduras e empunhando armas de grosso calibre.

    A polícia militarizada endossa a brutalidade com que o Estado trata o povo, naturalizando a violência, tornando normal que, no exercício do direito à manifestação de pensamento, quando colocamos em cheque o poder econômico, sejamos tratadas e tratados como rivais a sermos duramente combatidas e combatidos.

    Há uma grande onda, no cenário nacional e internacional, de perseguição daquelas e daqueles que se rebelam contra as injustiças. A ameaça que sofremos com a presença da polícia arregimentada para a guerra naquela manifestação que estava em total acordo com os direitos políticos assegurados aos membros de uma comunidade que se diz democrática, tinha o objetivo claro de intimidação e silenciamento. Em 05/11/2015 rompeu-se a barragem de Fundão, mas a cada dia em que o Estado coloca seu aparato repressor para calar as reivindicações populares, assistimos ao rompimento da ordem democrática, nos deparamos com a agonia de direitos básicos, como aquele que assegura a liberdade de manifestação do pensamento.

    Foto: Justiça Global.

  • O contraste na cidade: a Batalha da Galeria

    Por: Elber Almeida, do ABC paulista, SP.

    Quarta matéria da série sobre as batalhas de RAP no Grande ABC Paulista. Desta vez a parada é em São Caetano.

    São Caetano do Sul é a cidade com o Índice de Desenvolvimento Humano mais alto do grande ABC paulista e um dos mais altos do país. A cidade tem uma população com renda média mais elevada que a do restante da região, basta atravessar suas fronteiras para perceber que há uma qualidade maior em seus equipamentos públicos.

    Poderia ser o cenário perfeito para a juventude desenvolver suas potencialidades artísticas e culturais. Mas não o é. A cidade que carrega a fama de ser a mais desenvolvida do ABC, também tem a de ser a mais conservadora. A desigualdade social existe como em todo o país, o desemprego e o trabalho precário também e a repressão policial é uma constante. Uma das saídas encontradas por parte dos que sofrem nesta realidade foi a fundação da Batalha da Galeria, que já está em sua 151ª edição.

    Uma das batalhas mais tradicionais do ABC, ela chega a ter mais de 50 envolvidos. A concentração começa às 20:00 horas e a ameaça de chuva não a impede. Próxima ao terminal rodoviário da cidade, está em estado de ocupação permanente segundo um de seus organizadores, Kbeça.

    A repressão policial, que tem como uma das autoras a Guarda Civil Municipal, é constante. Na edição anterior a GCM tentou impedir a batalha, utilizando gás de pimenta, porém, os presentes resistiram deslocando-se e fizeram acontecer até o final. Um dos organizadores conta que naquela noite um jovem MC que acabava de começar na batalha se sentiu acuado e não voltou a batalhar, o que mostra que tal tipo de repressão também tem como serventia impedir o desenvolvimento de talentos.

    O direito ao uso da praça pública é reivindicado pelos participantes que vem de diversas vilas do ABC e Grande São Paulo. Nessa cena cultural, muita coisa está em debate. Por exemplo, Kbeça coloca como necessidade o Hip Hop se movimentar para dar mais liberdade para as minas, que possam rimar, deixando o lado patriarcal que ainda marca a cultura.

    Após as eliminatórias o vencedor foi Rusty Room, já conhecido nas rinhas do ABC e vencedor da edição anterior em que garantiu vaga na disputa do II° Festival de Resistência da Matrix, no próximo sábado. Em sua final com o MC Sajo, utilizou trocadilhos relacionados à política, no caso à operação Lava Jato, além de elementos do repente nordestino, o que contribuiu para sua vitória e mostrou que o Hip Hop é uma arte que dialoga com as outras.

    A batalha já deu frutos, como o lançamento de alguns MC’s que começam a lançar trabalhos na região, inclusive o grupo Lábia Sapiens MC’s que tem como um de seus membros Kbeça. Além disso, há a vitória de manter por muito tempo a luta pelo direito do público usar o espaço público. Costuma atrair MC’s e público de outras cidades do ABC e Região Metropolitana, disseminando a cultura periférica no centro da cidade que fingir não ter periferia.

    Agradecimentos a todos MC’s e à organização pelas entrevistas concedidas, pela ótima recepção e paciência!

    1# Batalha da Pistinha
    2# Batalha da Praça
    3# Batalha da Vila Luzita

    Confira aqui o mapa das batalhas de rap no ABC.

  • O papel das heroínas negras em nossa história

    Por: Hilda Dobal , de Porto Alegre, RS

    Comemoramos em ‪20 de novembro‬ ,o dia da consciência negra, pois neste dia, em 1695 , Zumbi  morreu assassinado por soldados da Coroa Portuguesa, teve a cabeça cortada e conservada para ser exposta em praça pública na cidade de Recife. O propósito era desacreditar as pessoas que diziam que Zumbi era imortal.

    Zumbi era neto de Aqualtune, princesa do Congo que foi trazida em situação de escrava para o Brasil . Aqualtune foi obrigada a ter relações sexuais com um escravizado para fins de reprodução, uma prática de abuso comum na época praticada pelos senhores, no final de sua gestação organizou sua fuga e de alguns escravos para o quilombo na Serra da Barriga. Neste local deu a luz a Gamba Zumba e ao lado dele começou a organização do Estado negro de Palmares. Depois ela deu a luz a Ganga Zona que também ajudou a chefiar Palmares e também a Sabina, a mãe de Zumbi dos Palmares, o principal líder e guerreiro do Quilombo Palmares. Aqualtune foi fundamental para a consolidação da república, pois possuía conhecimentos políticos, organizacionais e de estratégia de guerra.

    Dandara era a companheira de Zumbi com quem teve três filhos, dominava técnicas de capoeira, lutou ao lado de homens e mulheres e participava na elaboração das estratégias de defesa de Palmares. Foi uma mulher de ação, opinião e forte resistência. Caçadora, lutadora, trabalhadora, mãe e companheira.

    As mulheres estiveram sempre presentes nas lutas do Quilombo dos Palmares, no século XVII e hoje,  as mulheres negras continuam presentes na luta. Em especial na luta pela vida. De nossas ancestrais heroínas na libertação do povo negro em nosso país, nos fazemos na atualidade guerreiras frente ao aumento de 54,2% no feminicídio de mulheres negras entre 2004 e 2014. .

    Nossas Dandaras, Sabinas, Aqualtunes, Winnies, Marias , Terezas estão nas periferias de nossas cidades são a maioria das chefes de família, trabalhadoras exploradas pela terceirização, mães que choram pela morte de seus filhos, pois cerca de 30 mil jovens de 15 a 29 anos são assassinados por ano no Brasil, sendo cerca de 77% negros. É urgente resgartar e dar visibilidade ao nosso papel histórico de protagonistas na luta pela sobrevivência e liberdade. Devemos não só comemorar no Dia 20 de Novembro, mas sim nos 365 dias em que lutamos por liberdade e igualdade dos negros e negras da classe trabalhadora brasileira.