Macaé, dez anos de crises: quem conseguiu se reerguer?
Entre a crise internacional do petróleo, a crise da Petrobras, o impeachment de 2016 e a pandemia, os custos não foram igualmente distribuídos.
Publicado em: 21 de setembro de 2026
Prefeitura de Macaé
Em 31 de agosto de 2026, completou-se uma década desde que o Senado Federal deliberou o afastamento definitivo de Dilma Rousseff da Presidência da República. Muito se discutiu sobre o significado político daquele processo, mas, dez anos depois, talvez seja importante olhar para além de Brasília e perguntar: o que aconteceu nos territórios que sentiram diretamente os efeitos daquela década de crises?
Falar desses territórios é falar principalmente de Macaé, no Norte Fluminense. Conhecida como a capital do petróleo, a cidade construiu sua economia em torno da indústria petrolífera e de uma extensa cadeia de fornecedores, comércio e serviços.
Os números mostram a dimensão do impacto. Em 2014, Macaé registrava 147.840 empregos formais. Dois anos depois, eram 126.871. Na indústria de extração mineral, os postos formais caíram de 28.932 para 21.366 no mesmo período. Serviços, construção civil e comércio também sentiram a retração.
Mas não houve uma única crise.
A queda internacional dos preços do petróleo se encontrou com a crise da Petrobrás e os efeitos da Operação Lava Jato sobre contratos, fornecedores, investimentos. Ao mesmo tempo, o país atravessava uma crise econômica e política que culminaria no impeachment de 2016.
Em Macaé, essas crises chegaram de maneira concreta: empregos desapareceram, contratos foram interrompidos, empresas reduziram ou encerraram atividades, a renda deixou de circular e famílias precisaram reorganizar suas estratégias de sobrevivência. O impeachment não criou sozinho a crise de Macaé, mas alterou o caminho que o país passou a seguir.
E uma crise nunca atinge todo mundo da mesma maneira.
Quem foi demitido? Quem tinha dinheiro guardado para atravessar alguns meses sem renda? Quem podia trabalhar de casa? Quem precisou aceitar qualquer trabalho que aparecesse? Quem era a multidão de homens trabalhadores embarcados demitidos do dia para a noite? Quem ficou responsável pelo cuidado das crianças, idosos e pessoas doentes?
Essas perguntas nos levam a três dimensões inseparáveis: classe, raça e gênero.
Em Macaé, em 2020, as mulheres representavam 49,6% da população economicamente ativa, mas quase três em cada quatro postos formais de trabalho eram ocupados por homens, que recebiam, em média, 66% a mais que elas.
Foi nesse cenário que chegou a pandemia.
Entre janeiro e maio daquele ano, o município registrou redução de 20.586 vínculos de trabalho e saldo negativo de 9.067 postos formais. Ao mesmo tempo, o trabalho doméstico e de cuidado, realizado majoritariamente por mulheres, tornou-se ainda mais central. Para muitas famílias, a informalidade passou a ser uma das poucas alternativas de geração de renda. Trabalhadores negros apresentavam maior participação em ocupações informais e rendimentos médios inferiores aos dos trabalhadores brancos.
Dez anos depois, Macaé voltou a crescer.
Segundo dados divulgados pela prefeitura, o município chegou a 143.525 empregos formais em junho de 2026. Há novas oportunidades em diferentes setores, mas o petróleo e o gás continuam ocupando lugar central na economia local.
A cidade mudou, mas não deixou de depender de uma estrutura que já demonstrou sua vulnerabilidade em momentos de crise.
E talvez o presente esteja nos dando uma pista importante sobre essa retomada.
Enquanto escrevemos este texto, trabalhadores terceirizados de manutenção e montagem industrial da Bacia de Campos estão em greve por tempo indeterminado. O movimento começou em 18 de setembro, depois a categoria rejeitou a proposta patronal durante as negociações da Convenção Coletiva de Trabalho 2026/2027, e envolve profissionais que atuam em bases terrestres e em plataformas offshore da região.
Entre as reivindicações estão reajuste salarial de 15%, aumento do vale-alimentação para R$ 1 mil e mudança da escala dos trabalhadores embarcados, de 14 dias de trabalho por 14 de folga para 14 dias de trabalho para 21 de descanso. A categoria também reivindica mudanças relacionadas às condições de trabalho e à valorização dos profissionais terceirizados.
A Petrobras afirma que acompanha as negociações e que, até o momento, as paralisações não provocaram impactos na produção das plataformas.
Mas talvez seja justamente essa situação que nos ajude a compreender a pergunta que atravessa estes dez anos: crescimento para quem?
Porque falar da economia do petróleo não é falar apenas de plataformas, barris produzidos, royalties, empresas e empregos. É falar também das pessoas que trabalham para que toda essa estrutura funcione. Quando trabalhadores precisam parar para reivindicar salário, descanso, condições de trabalho e valorização, a retomada econômica ganha outro significado.
Dez anos depois, Macaé não é a mesma cidade de 2016. Mas também não rompeu completamente com a estrutura que a colocou diante de tantas vulnerabilidades. Por isso, a questão não é simplesmente como voltar a crescer. É que desenvolvimento queremos construir e para quem?
Uma cidade pode recuperar empregos sem necessariamente distribuir igualmente as oportunidades. Pode aumentar sua arrecadação sem reduzir desigualdades. Pode diversificar sua economia sem democratizar a riqueza.
Quando Macaé olha para os dez anos que separam 2016 de 2026, talvez a pergunta mais importante não seja apenas se a cidade se recuperou.
Recuperou-se quem?
E, mais ainda: quem pagou o preço das crises e quem conseguiu participar dos ganhos das retomadas?
A greve que acontece hoje na Bacia de Campos mostra que essa não é apenas uma pergunta sobre o passado. É uma pergunta sobre o presente e, principalmente, sobre o futuro que Macaé pretende construir.
Mais lidas
brasil
Duda Salabert e Iza Lourença: os votos do PSOL para combater a extrema direita
brasil
As eleições brasileiras serão um momento decisivo para o imperialismo dos EUA na América Latina
brasil
Macaé, dez anos de crises: quem conseguiu se reerguer?
colunistas
Campanha Lula deve manter a iniciativa
brasil










Por que é um erro explorar petróleo na Bacia da Foz do Amazonas?