Quando São Jorge sobreviveu ao inferno e ajudou a criar o rap nacional


Publicado em: 7 de agosto de 2026

Coluna Gabriel Santos

Gabriel Santos é nascido no nordeste brasileiro. Alagoano, mora em Porto Alegre. Militante do movimento negro e popular. Vascaíno e filho de Oxóssi

Coluna Gabriel Santos

Gabriel Santos

Gabriel Santos é nascido no nordeste brasileiro. Alagoano, mora em Porto Alegre. Militante do movimento negro e popular. Vascaíno e filho de Oxóssi

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Crédito Klaus Mitteldorf
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“Eu tenho uma bíblia ‘véia’, uma pistola automática e um sentimento de revolta”- Racionais MC’s
“Refrigere minha alma e guia-me pelo caminho da justiça” (Salmo 23, cap. 3).

Dia 06 de Agosto, dia do rap nacional. O hip-hop, é parte do arsenal internacional da diáspora negra na produção de sua sociabilidade em um mundo onde a raça ainda é um elemento de hierarquia social.O hip-hop, foi e é um elemento organizador de subjetividades. A partir dele jovens negros e periféricos se entendem, se colocam e se posicionam no mundo.

Podemos, portanto, falar hip-hop como um elemento que contribuiu para a massificação de ideias anti racistas e de igualdade racial no Brasil. (…). A música negra, em especial o rap, foi fundamental para o avanço da chamada Consciência Negra e afirmação da negritude na população afro-brasileira.

É impossível falar do avanço da consciência negra no Brasil e da valorização da negritude por parte da população afro-brasileira e conjunto da sociedade, sem abrir espaço para entender o papel do hip-hop nesse processo. Podemos, portanto, falar hip-hop como um elemento que contribuiu para a massificação de ideias anti racistas e de igualdade racial no Brasil.

Ao longo do século XX, o Brasil se apresentou para o mundo e para si mesmo como o país da democracia racial. Esse conceito desde sua formulação foi denunciado pelo movimento negro brasileiro como um mito. Hoje, pela primeira vez, a maior parte da população brasileira se autodeclara negra (preta ou parda) e assume a desigualdade racial e o racismo como males sociais existentes. A música negra, em especial o rap, foi fundamental para o avanço da chamada Consciência Negra e afirmação da negritude na população afro-brasileira.

Clovis Moura e outros pensadores negros do seculo XX debatiam profundamente o fato da população negra não votar em candidatos negros. Na compreensão destes pensadores a falta do voto negro era expressão de algo maior. O afro brasileiro não reivindicava uma política e nem uma identidade racial. Em outras palavras, o negro não reivinicava sua negritude. Estes intelectuais negros levantaram a hipotese deste fato se dá por uma ruptura entre a a maioria da populaçao negra e uma minoria de negros partes do movimento negro.

Assim, a grande tarefa para o movimento negro brasileiro no fim do século passado e início deste er romper e diminuir este afastamento, e ao mesmo tempo mostrar que a suposta democracia racial era um mito, e que o racismo atuava em nosso país como modelador das relações sociais. Ao movimento negro brasileiro cabia o papel de ser um educador. Nestas tarefas, o movimento negro teve um aliado que se somou na missão de diminuir a diferença entre o trabalhador negro e as ideias de luta por igualdade racial, e de retirar o véu da brancura que cobria as relações sociais no nosso país. Este aliado foi o hip hop.

Como foi dito acima, se torna impossível falar sobre os avanços da consciência negra na população brasileira sem levar em conta o papel e impacto do hip hop neste processo. Muito dos grandes rappers são intelectuais orgânicos, para além de poetas e cronistas, são pensadores que refletem o mundo que vivem e teorizam sobre ele em suas letras.

Aqui, neste texto, queremos desenvolver a importância do disco Sobrevivendo no Inferno como parte de uma leitura da situação política e social que passava nosso país nos anos 90, assim como para uma mudança de cultura dentro do rap e a constituição de um rap nacional.

Sobrevivendo no inferno, um retrato do Brasil 

Um álbum musical pode se tornar um clássico por alguns motivos. Seja por conter músicas que atravessam gerações, ter uma sonoridade bem trabalhada, por trazer inovações sonoras que passam a ser seguidas no ramo da música, ou pela capacidade de ser uma espécie de reflexo do tempo, um espelho do período que é escrito.

Olhando para qualquer uma desses motivos, e por todos eles, é inegável que o álbum Sobrevivendo no Inferno dos Racionais Mc’s, é um clássico da música brasileira. seja, tanto por fornecer samples e batidas marcantes quanto por traduzir em suas letras a brutal realidade de toda uma geração de jovens negros moradores da periferia.

Nossos rappers, os quatro negros mais perigosos do país, Mano Brown, Ice Blue, Edi Rock e KL Jay, são jovens negros da periferia de São Paulo, no meio das regiões mais violentas do país, cantando e narrando uma realidade onde a morte, a dor, a miséria, a fome atingem outros iguais a eles.

Para muitos, o disco lançado em 1997 é o melhor do grupo formado pelos rappers Mano Brown, Edi Rock, Ice Blue e pelo dj KL Jay (tenho uma outra opinião, mas fica para outro momento), porém não há dúvidas de que ele é uma linha divisória no rap em nosso país e na música brasileira como um todo. Existe um rap feito no Brasil antes e um produzido depois de Sobrevivendo no Inferno. Hoje é impossível falar da música brasileira e da produção cultural em nosso país, sem falar do rap, do hip-hop e dos Racionais Mc’s.

O álbum retrata o cotidiano das periferias nos anos 90, onde a violência que está submetida a população negra no marco da expansão das políticas neoliberais implementadas no Brasil. Esta realidade está condensada nos versos da música Fórmula Mágica da Paz: 

“A gente vive se matando irmão, por quê?/ Não me olha assim, eu sou igual a você/ Descanse o seu gatilho, descanse o seu gatilho”

Assim como aparecem nas estatísticas que abrem Capítulo 4, versículo 3 na voz de Primo Preto: “60% dos jovens de periferia sem antecedentes criminais já sofreram violência policial/ A cada quatro pessoas mortas pela polícia, três são negras/ Nas universidades brasileiras, apenas 2% dos alunos são negros/ A cada quatro horas um jovem negro morre violentamente em São Paulo”.

Sobrevivendo no Inferno, é uma expressão do país, da realidade do povo, das injustiças e violências sociais, sofridas pela negritude e periferia, e que não tinha eco ou meio de expor suas dores para o conjunto da sociedade. O disco é uma verdadeira análise de conjuntura da sociabilidade na qual a população negra das periferias paulistanas estavam inseridas. Porém, também aponta para a postura de negras e negros diante desta violência e do racismo. Uma postura de combate, confronto. Colocando o dedo na ferida e elencando aqueles que eram os adversários da população negra e periférica: a mídia, a burguesia branca, o braço armado do Estado. Como diz a letra de Capítulo 4 Versículo 3 “Violentamente pacífico, verídico”. O rap dos Racionais presente no álbum serve como organização do ódio da população negra diante da violência racial.

Todo o disco perpassa por uma batalha contra a morte para conquistar a vida. Por isto o Sobrevivendo no título. A morte e a violência naturalizada e banalizada nas periferias brasileiras, sempre a espreita e próxima. No inferno impera “a lei da selva”, e a relação entre irmãos que são iguais é mediada pelo “click, cleck, bum”.

Em Sobrevivendo no Inferno, a vida da periferia é narrada como uma transição rumo à morte. Onde no caminhar rumo ao cemitério o negro pode passar por trajetos como a vida no crime e a cadeia. Existe morte, violência, criminalidade por todos os lados nas letras, justamente porque existiam mortes por todos os cantos nos bairros de São Paulo. “Rapazes comuns” que tombaram vítimas da violência urbana e do abandono Estatal, e têm seus corpos espalhados pelos becos e vielas da capital paulistana e nas letras do álbum, assim como aqueles mesmos 111 corpos expostos nos corredores após o massacre do Carandiru. Afinal, a vida nas periferias valiam pouco, muito pouco. Como cantada em Diário de um Detento “Minha vida não tem tanto valor/ quanto seu celular, seu computador”.

De professores do gueto, á Pastores dos marginais

Quando Sobrevivendo no Inferno é lançado em 1997, os Racionais já eram um dos nomes consolidados no rap, mas o álbum modifica a forma do grupo de fazer música e do pŕoprio rap em nosso país.  Acredito que este álbum realiza uma revolução copernicana no rap e na cultura nacional.

Uma das mudanças se dá na forma e linguagem das músicas. Os Racionais não falam mais como professores do gueto, no papel de uma vanguarda a liderar e apontar o caminho, onde realizar suas críticas aos “negros limitados” sem consciência. Com Sobrevivendo no Inferno, o grupo passa a falar de igual para igual, se enxergando ns rapazens comuns, nos jovens negros que tem como destino o crime, a cadeia, e a morte. Os Racionais falam junto com os seus 50 mil manos.

O cenário se mantém, as periferias paulistas. Os personagens, são os mesmos, os moradores destas periferias. Mas a forma é totalmente diferente. Os Racionais deixam de ser professor ou militantes e se aproximam da imagem do Pastor. O foco passa a ser organizar o ódio, não apenas gritá-lo. Se tornam parte daqueles que vivem no gueto. Eles, a tiazinha, os que entraram para a vida bandida, e aqueles que tombaram, todos estão no mesmo lugar.

As referências cristãs presentes no álbum estão presentes nos elementos estéticos, como no título ou na capa, com uma cruz dourada na capa acompanhada por um Salmo, uma das mais marcantes do rap nacional. Mas também estão presentes nas faixas e construção das letras. De forma direta nas músicas Jorge da Capadócia, e Gênesis, músicas iniciais do álbum, mas que atravessam ele em sua totalidade. 

Louvor, leitura do evangelho, pregação, canção para os mortos, uma conversa direto com os ouvintes. O Carandiru como a materialização do inferno em Diário de um detento. A busca pela esperança Fórmula Mágica da Paz. O testemunho em Tô ouvindo alguém me chamar, entre outros elementos presentes em músicas como Salve, e Capítulo 4 Versículo 3, deixam para todos ver o sentido religioso no álbum.

A criminalidade é questionada com uma conversa fraterna, não com julgamentos. O jovem envolvido com o crime é parte do ecossistema da periferia do mesmo modo do jovem crente que ouve o pastor, da tiazinha do mercado, do trabalhador precarizado. São todos sobreviventes. Sobrevivendo no Inferno apresenta também uma antecipação, ou melhor uma tendência, da influência das igrejas pentecostais e neopentecostais permaneceram nas periferias. 

Os Racionais sabiam que a religião era uma das formas das periferias brasileiras sobreviverem ao inferno. 

Salve Jorge, da Capadócia, de Itaquera e do Capão Redondo

Uma das músicas que materializa o sentido religioso do disco é Jorge da Capadócia. Ela abre o álbum. Porém, mais do que o início do culto, ela é a responsável por dar início a um rap nacional e brasileiro em nosso país.

A música Jorge da Capadócia, foi lançada por Jorge Ben Jor para o álbum Solta o Pavão. No álbum, Jorge, constrói um universo particular, em uma verdadeira alquimia que unifica o Brasil com o medievo, a partir de músicas sobre amores, musas, filosofia, reis, religiosidade católica e futebol. Entre estas está Jorge da Capadócia, uma oração em homenagem ao Santo Guerreiro que tem seu culto e história nascido justamente na idade média e se populariza no Brasil com o sincretismo de Ogum, se tornando um Santo das camadas populares, presente na criminalidade, nos botecos e bares, nos times de futebol, nas esquinas e encruzilhadas de todo país.

A versão dos Racionais, a oração alegre de Jorge Ben Jor, um samba rock animado, alegre, com o violão marcando, se torna um mantra para fechar o corpo e se preparar para a guerra cotidiana. Ela vira nebulosa, misteriosa, poética. Deixa de ser uma música de homenagem ao Santo e se transforma em um pedido de ajuda para os problemas do dia a dia para sobreviver no inferno. Contra os atrasa lado, os zé povinho, a polícia, os falsos amigos, as armas de fogo, e as lanças. Afinal, sobrevivendo no inferno fala sobre morte, mas também fala sobre buscar as frestas para construir a vida. E a oração a São Jorge, e também a Ogum, é uma forma de busca a vida

Enquanto em Jorge Ben a presença da macumba se apresenta com a marcação dos instrumentos, toda a música é construída em cima de uma vassi, ritmo do candomblé para Ogum. Na versão dos Racionais do louvor foi introduzido o grito de saudação a Ogum no início da música. A primeira palavra do disco é “Ogunhê”, uma nítida afirmação da identidade negra, uma afirmação de orgulho de sua raça, e também um posicionamento diante da guerra diária que se inicia.  

No início era o verbo. Surge um rap verdadeiramente nacional

Aqui, quero defender a ideia de que ao usarem Jorge da Capadócia da forma que usaram, os Racionais não apenas construíram o elemento que organiza todo o disco Sobrevivendo no Inferno, mas eles deram início a uma revolução no rap feito no país. Ao fazerem o que fizeram, deram origem a um rap que fosse um produto nacional.

Antes do grito de Ogunhê que dá início a Jorge da Capadócia tínhamos, salvo raríssimas exceções, um rap cantado em português, com rimas feitas na nossa língua, contando as nossas histórias, mas não era um rap nacional, brasileiro da medula aos ossos. Era um rap cantado em português com estrutura e forma do rap estadunidense.

O rap era, até então, uma música vinda de fora, que não dialogava com o que havia sido produzido na arte, na música e na cultura brasileira anterior. Era um produto autóctone. Externo. Que se adaptava para sobreviver.

Com a versão de Jorge da Capadócia dos Racionais, temos a aproximação de nosso rap ao samba e ao que foi produzido em nosso país. Rompendo o rap como um produto externo e com uma linhagem vinda do estrangeiro. O rap passa a dialogar com a música brasileira, e com nossa cultura.

O rap se torna parte do arsenal de alquimias produzidas pelo nosso subdesenvolvimento e pelo povo negro brasileiro. Faz-se membro de nosso movimento antropofágico, de devorar o que vem do exterior para criar um produto nosso, diferente. Um rap herdeiro da Semana de 22. Que se torna original, não sendo decalque nem cópia, mas algo fruto de nossas terras. Em um movimento dialético de aproximação, permanência, confronto e mudança, terminando na superação e criação do novo. Um movimento de macumba, exuistico, de devorar o mundo e cuspi-lo, gerando a mudança e a novidade.

São Jorge, desceu da Lua, foi até as periferias paulistas, e lá conheceu Ogum. Ambos, como dois lados da mesma espada, sobreviveram no inferno. Encararam a violência, a guerra urbana, a cadeia e enfrentaram a morte. Foram à igreja, e ao terreiro, mas principalmente aos bailes. Lá, ajudaram a vencer demandas e abrir caminhos para toda uma geração de jovens negros e periféricos que por meio do rap ousaram moldar a identidade negra, o imaginário popular e fazer avançar a consciência racial em nosso país.

De Clóvis Moura à Mano Brown, o sonho de um Brasil para o povo negro ainda ecoa.

Salve Joge!!

Ògún yè, pàtàkòrí!


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