Mulheres negras em luta pelo Brasil
Neste Julho das Pretas, mês das Mulheres Negras Latino-americanas e Caribenhas, ocupamos as redes e as ruas para reivindicar, além da sobrevivência, o direito de viver com dignidade
Publicado em: 8 de julho de 2026
Elian Almeida, 2021
"O mais importante é inventar o Brasil que nós queremos”
O fim do último ano teve como marco para a auto-organização das mulheres brasileiras a realização da II Marcha das Mulheres Negras à Brasília. Mais do que uma manifestação capaz de reunir milhares de mulheres nas ruas, este evento pode ser compreendido como um novo impulso à auto-organização das mulheres, já que em diferentes cidades e estados foram fundados núcleos e grupos regionais de base.
Como bandeira, duas ideias estiveram no centro: reparação e bem-viver. Mesmo diante de uma conjuntura desafiadora – com temas como a crescente violência contra as mulheres, o genocídio da população negra e a luta pela redução da jornada de trabalho – optou-se por trazer ao primeiro plano um recado estratégico, sobre futuro e disputa do poder, que reposiciona as mulheres negras como sujeitos políticos imprescindíveis para qualquer projeto de transformação social.
Compreendendo o recado, é justamente dele que partimos para pensar sobre em quais condições iremos às ruas e ao debate público este ano no Julho das Pretas. Acreditamos, que, especialmente no atual contexto de ameaça à soberania nacional de países latino-americanos, imposta por Trump nos EUA, e da tarefa histórica de derrota da extrema direita brasileira nas urnas, a luta das mulheres negras significa, antes de tudo, uma luta pelo presente e pelo futuro do Brasil.
Fomos e seremos ainda mais decisivas
Como uma expressão do projeto da extrema direita, no Brasil e no mundo há uma ofensiva contra as políticas de igualdade de gênero. Tentam nos impor retrocessos e nos empurrar à submissão. A fala de Paulo Figueiredo, um dos articuladores do tarifaço dos EUA contra o Brasil e aspirante a mentor intelectual do bolsonarismo, não poderia ser mais reveladora neste sentido: eles querem questionar até o nosso direito ao voto.
Ainda que Flávio Bolsonaro tente se esquivar do sincericídio de seu aliado, a realidade dentro do próprio bolsonarismo não tem deixado dúvidas sobre o seu machismo. As declarações de Michelle Bolsonaro revelam, para além da disputa pública pelo espólio político do bolsonarismo, que a misoginia é parte da prática política da extrema-direita também internamente.
Ainda que Flávio Bolsonaro tente se esquivar do sincericídio de seu aliado, a realidade dentro do próprio bolsonarismo não tem deixado dúvidas sobre o seu machismo. As declarações de Michelle Bolsonaro revelam, para além da disputa pública pelo espólio político do bolsonarismo, que a misoginia é parte da prática política da extrema-direita também internamente.
Flávio sabe que enfrenta um grande desafio com o público feminino. Pesquisas internas já apontam para um desgaste do candidato junto a essa parcela do eleitorado. É justamente por esse motivo que, no discurso público, ele tem buscado atenuar o tom e se preocupado em responder em alguma medida a temas sensíveis como a alta de casos de feminicídio e se aproximar da comunidade evangélica — por sua vez de maioria feminina e negra.
Mas fato é que, mesmo assim, as ideias bolsonaristas não têm ganhado a mesma adesão entre homens e mulheres, nem entre a população negra. Pesquisas de opinião apontam que o comportamento eleitoral do público feminino tende ao distanciamento de pautas da extrema direita e à priorização de investimentos em saúde, educação e programas sociais. E que as mulheres são, ainda, a maioria do eleitorado, cerca de 53% e o público que mais vota.
Se já fizemos a diferença para garantir a vitória de Lula em 2022 contra Bolsonaro, tudo indica que nas eleições que se avizinham isso tende a se repetir de forma ainda mais intensificada. O voto das mulheres deve ser o “fiel da balança”.
Por isso, diante da urgente tarefa de derrotar a extrema direita nas urnas e reeleger Lula, é preciso que a politização deste processo nos permita ganhar votos da maioria das mulheres trabalhadoras e ir além: ganhar terreno na disputa ideológica contra o fascismo, apresentando também um programa que se conecte com as principais demandas.
Quem são as mulheres brasileiras? Nós, mulheres negras
As mulheres negras são a maior minoria do Brasil. Sozinhas, representamos quase 30% da população. Somos a maioria das mulheres. Mas estamos concentradas na base da pirâmide, figurando entre os piores índices. Somos as maiores vítimas de feminicídio no país. Só entre 2021 e 2024, 62,6% das mulheres mortas desta forma eram negras (Fórum Brasileiro de Seg Pública). Além disso, os índices de feminicídio vem aumentando a cada ano, tendo praticamente triplicado de 2020 para 2025.
Não nos parece acidental, que, com o avanço e radicalização da extrema direita no Brasil e no mundo, tenhamos visto a explosão dos índices de violência a patamares históricos. O uso político da misoginia, como forma de avançar com uma agenda reacionária e anti-popular, é característico do projeto da extrema direita e de seus líderes masculinistas. Como efeito, temos a legitimação de discursos e práticas violentas contra as mulheres de forma geral.
Quem não se recorda do caso da PM Gisele, morta pelo ex-marido e tenente-coronel, que em trocas de mensagens antes da execução se autodenominava “macho alfa” e exigia que a esposa fosse uma “fêmea beta obediente e submissa”?
Quem não se recorda do caso da PM Gisele, morta pelo ex-marido e tenente-coronel, que em trocas de mensagens antes da execução se autodenominava “macho alfa” e exigia que a esposa fosse uma “fêmea beta obediente e submissa”?
Sem regulamentação adequada, o ambiente virtual torna-se ideal para propagação destes discursos, que, por sua vez, são monetizados em muitos casos. Quem sofre as consequências, de forma desproporcional devido à combinação entre misoginia e racismo, são novamente as mulheres negras. De acordo com um estudo publicado pela Fast Company Brasil o número crescente de violência digital contra mulheres atinge principalmente mulheres negras.
A violência do Estado é outro elemento que atravessa a vida das mulheres negras. De acordo com o relatório “Pele Alvo: entre racismo e letalidade, o amanhã”, houve um crescimento de mais de 6% na letalidade resultante de intervenções policiais e 8 em cada 10 mortos em ações policiais são negros.
São muitas vezes os filhos, maridos, irmãos, pais de mulheres negras os alvos desta violência, cometida em nome de uma suposta guerra às drogas. Ninguém mais do que essas mulheres querem o fim desta guerra e das facções criminosas que dominam territórios inteiros. Mas a classificação do CV e do PCC como organizações terroristas não só não resolve esse problema, como o intensifica. Significa, na prática, um salvo conduto para a truculência, além de uma intervenção direta dos EUA contra a soberania nacional.
somos a cara do trabalho em jornadas exaustivas em escala 6×1. De acordo com o IBGE, o rendimento médio das mulheres negras é 53% menor do que o dos homens brancos. Pegamos transporte público lotado e garantimos o cuidado com as crianças, idosos e pessoas com deficiência.
Ao mesmo tempo, somos a cara do trabalho em jornadas exaustivas em escala 6×1. De acordo com o IBGE, o rendimento médio das mulheres negras é 53% menor do que o dos homens brancos. Pegamos transporte público lotado e garantimos o cuidado com as crianças, idosos e pessoas com deficiência.
De acordo com o estudo “Trabalho invisibilizado do cuidado no Brasil: desigualdades de gênero, raça e escolaridade ao longo do curso da vida” (2026), mulheres negras são responsáveis por 44% do trabalho de cuidado no país. Se considerado apenas o trabalho de cuidados produzido por meninas e mulheres negras de 10 a 19 anos, o número de horas dedicadas ao cuidado ultrapassa toda a dedicação acumulada dentro do grupo de homens brancos entre os 30 e os 59 anos. Além disso, quase 70% das trabalhadoras domésticas são negras (IPEA) e 30% dos lares brasileiros são chefiados por mulheres negras (DIEESE).
Por isso, mais do que condições para sobreviver diante destes desafios, as mulheres negras querem o direito de viver uma vida digna. Ter tempo para o lazer, o descanso, momentos de qualidade com os filhos… queremos viver pr’além do trabalho. Acabar com a escala 6×1 é uma necessidade que caminha neste sentido. Por isso temos pressa.
Rumo ao 25 de julho, Dia das Mulheres Negras Latino-americanas e Caribenhas
Em referência ao Dia das Mulheres Negras Latino-americanas e Caribenhas e Dia Nacional de Tereza de Benguela, em diferentes cidades o movimento de mulheres negras se organiza para tomar as ruas. É o caso da cidade de São Paulo, do Rio de Janeiro e de Porto Alegre. Em outras tantas, há diferentes iniciativas de formação, aulas públicas, debates e intervenções culturais.
Que o mês de Julho seja um amplificador da denúncia de condições da vida das mulheres negras do sul global, região marcada pelo histórico de colonização e escravização negra, mas também um propulsor de debates sobre a superação das profundas desigualdades socioeconômicas que nos atingem em múltiplas dimensões.
Nos somamos a esta urgência. Que o mês de Julho seja um amplificador da denúncia de condições da vida das mulheres negras do sul global, região marcada pelo histórico de colonização e escravização negra, mas também um propulsor de debates sobre a superação das profundas desigualdades socioeconômicas que nos atingem em múltiplas dimensões.
Se, como nos ensina Angela Davis, quando a mulher negra se movimenta, toda a estrutura da sociedade se move com ela, que sejamos mais uma vez a linha de frente dos movimentos de resistência e transformação. Por nós, por todas nós.
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