De “Nunca Mais” aos “Portões do Inferno” de Israel em Gaza e no Líbano
Publicado em: 4 de julho de 2026
Traduzido por Anderson Santana, do Esquerda Online
Os políticos e generais de Israel têm uma estratégia. Não é segurança. Não é coexistência. É a fórmula colonial mais antiga da história: tomar a terra, expulsar a população local e depois chamar os defensores destas terras de terroristas.
No dia 16 de março, Israel invadiu o sul do Líbano sob o pretexto de proteger suas colônias exclusivamente judaicas ao norte do de seu território. Inicialmente, tratava-se de uma chamada zona de segurança que abrangia de seis a dez quilômetros dentro do Líbano. Em seguida, ordenou a evacuação de cidades e vilarejos em uma área de aproximadamente 2.000 quilômetros quadrados, cerca de um quinto de todo o Líbano. Agora, o objetivo era proteger seu exército de ocupação na “zona de segurança” criada semanas antes para proteger as colônias exclusivamente judaicas do outro lado das fronteiras.
Mais de um milhão de libaneses foram expulsos de suas casas por meio desta limpeza étnica, não como consequência da guerra, mas como um plano de Israel. O Ministro da Defesa israelense, Israel Katz, ordenou que seu exército demolisse aldeias libanesas na fronteira e ocupasse permanentemente o território libanês até o rio Litani. Ele não poupou palavras sobre o significado dessas ordens: os libaneses que vivem na chamada zona de segurança “não retornarão”, afirmou. “Nenhum deles retornará.” Katz reiterou a posição israelense em 24 de junho de 2026: “Duzentos mil residentes não retornarão”, e que Israel não se retirará do sul do Líbano, mesmo que os EUA o exijam.
A resistência libanesa continua sendo o único obstáculo à ocupação israelense. Em desvantagem numérica e de armamento, além de enfrentarem um dos exércitos mais fortemente armados do mundo, os combatentes libaneses, ainda assim, travam uma campanha de guerrilha contra os militares ocupantes – e não contra civis israelenses. Em uma batalha feroz antes do cessar-fogo anunciado, os combatentes da resistência atacaram um posto militar israelense fortemente fortificado, invadindo o local, destruindo tanques e matando quatro soldados, incluindo um comandante de um dos batalhões.
A resposta israelense, violando o cessar-fogo recém-anunciado, foi assimétrica, visando civis e infraestrutura libaneses para causar o máximo de danos. Um ato de vingança, não de guerra, revelando a corrupção moral no âmago de Israel. O Ministro da Segurança Nacional, Itamar Ben Gvir, recorreu às redes sociais e declarou que “para cada lágrima de uma mãe israelense, mil mães libanesas deveriam chorar”, escreveu ele. “Todo o Líbano deveria queimar.” O Ministro das Finanças israelense, Bezalel Smotrich, pediu para que “abrissem os portões do inferno”, repetindo quase que literalmente o que o primeiro-ministro israelense declarou, ao lado do Secretário de Estado dos EUA, em 16 de fevereiro de 2025, contra Gaza. O mesmo apelo genocida foi reiterado pela ameaça do seu ministro da Guerra em março de 2025.
O mesmo ódio, o mesmo culto genocida da morte, outro alvo.
Os “portões do inferno” se abriram. Pela lágrima de cada mãe judia de cada soldado ocupante morto no campo de batalha, centenas de crianças góis (não judias) perderam seus pais quando aviões a jato israelenses, fabricados nos EUA e pagos por seus contribuintes, violaram o cessar-fogo anunciado, lançando mais de 200 ataques aéreos contra casas e infraestrutura civil em todo o Líbano. As dezenas de mortos e as centenas de feridos eram os góis que, nos cálculos de Ben Gvir, existem apenas como sacrifícios para o altar de ódio sionista.
Mais uma vez, como já foi feito em Gaza antes, o número de mortos não é apenas um número abstrato. Desta vez, as notícias incluíam a do meu próprio primo, Mohamed Fandi, do campo de refugiados palestinos de al Rashidia, no sul do Líbano. Marido e pai de sete filhos, foi assassinado por um drone israelense enquanto descansava à sombra, no final de um longo e escaldante dia cuidando de citrinos¹ e colhendo-os.
Para Israel, a morte de um de seus soldados é justificativa para eles se vingarem de sua morte assassinando um trabalhador, uma mãe, uma criança — qualquer um que sacie sua insaciável cultura de ódio. A mídia controlada pelo Ocidente jamais destaca que a resistência libanesa ataca o exército de ocupação em solo libanês, enquanto a resposta de Israel atinge casas, hospitais e infraestrutura civil. A assimetria é deliberada, e o silêncio da mídia sobre ela é igualmente escandaloso. Se os papéis fossem invertidos, nenhum veículo de comunicação ocidental deixaria de noticiar o fato, e os “civis israelenses” seriam nomeados, fotografados, lamentados repetidamente, e seus rostos seriam gravados na consciência coletiva de um mundo atento. Porém, aos civis libaneses e palestinos assassinados por pura vingança israelense, esta dignidade não é concedida. Suas mortes são esquecidas, apenas um número em um parágrafo, uma frase no final de uma matéria, uma linha que ninguém percebe.
Israel classifica todos os ataques terroristas como “operações direcionadas”. Já o número de civis assassinados e os escombros de casas e de hospitais em Gaza e no Líbano contam uma história diferente. E isso está chamando a atenção do mundo todo.
Na verdade, não se trata apenas de críticas vindas de vozes tradicionalmente contrárias a Israel. Elas vêm de figuras e instituições que há muito normalizaram ou justificaram os crimes de guerra israelenses, escondendo-se todos atrás do Holocausto alemão. Nota-se isso quando figuras como Jake Tapper, da CNN – um apologista de Israel de longa data, descrevem as declarações de Ben Gvir como “hediondas” e que tem como alvo quase seis milhões de pessoas. Ou quando a Secretária de Relações Exteriores britânica, Yvette Cooper, condena as declarações chamando-as de “abomináveis”.
Ainda assim, o problema mais profundo é que mesmo essas vozes não reconhecem essas declarações genocidas pelo que elas realmente são. Elas não são provocações ou manobras políticas, mas uma política de Estado inerente a este país. A responsabilidade é frequentemente reduzida a culpar um único ministro ou até mesmo o primeiro-ministro indiciado internacionalmente, evitando-se uma análise mais ampla do projeto político que viabiliza tais políticas. O resultado é familiar: manifestações de preocupação, condenações de praxe e expressões de indignação desprovidas de quaisquer medidas significativas para deterem as próprias ações israelenses que estão censurando.
O Líbano não é uma exceção. A mesma fórmula israelense se repetiu em Gaza, na Síria e na Cisjordânia: ocupar o território, demolir as casas, expulsar a população e, em seguida, conceder ao exército israelense “total liberdade de ação”, sem “nenhuma restrição…”, para atacar à vontade, esperando que os ocupados permaneçam sem ação alguma.
“Portões do inferno” e “todo o Líbano deve queimar” fazem parte de uma linguagem de punição coletiva que nem mesmo os arquitetos do Holocausto ousariam articular em público. Esse discurso, importado da ideologia sionista política europeia, não é mera retórica política. É a política declarada daqueles que se dizem descendentes dos sobreviventes do “inferno” europeu, defendendo agora o inferno em Gaza e no Líbano, diante de uma audiência global paralisada demais, ou covarde demais, para impedi-los.
Jamal Kanj (jamalkanj.com) é autor de “Children of Catastrophe: Journey from a Palestinian Refugee Camp to America” e outros livros. Ele escreve frequentemente sobre questões palestinas e do mundo árabe para diversas publicações nacionais e internacionais.
¹ Nota do Tradutor: É provável que o autor se refira aos frutos do Cedro-do-Líbano, árvore símbolo do país e que faz parte inclusive da bandeira nacional. Como não é especificado se são os frutos deste cedro, foi mantido o termo “citrinos” por ser o mais abrangente para este tipo de frutos.
Ver essa foto no Instagram
Mais lidas
mundo
De “Nunca Mais” aos “Portões do Inferno” de Israel em Gaza e no Líbano
brasil
Senadores bolsonaristas querem urgência para votar projeto que libera ensino domiciliar
mundo
A Copa do Mundo entre a resistência do futebol e os interesses que tentam dominá-lo
mundo
Como Gaza desapareceu dos noticiários
brasil









