Irã: Resistência ao Imperialismo


Publicado em: 6 de abril de 2026

Bruno Alves, da Secretaria Internacional do Semear

Esse post foi criado pelo Esquerda Online.

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Crédito Tehran Times
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Passado um mês do início da agressão dos EUA, e do Sionismo, o povo iraniano segue resistindo bravamente. O Irã tem uma história grandiosa, que remete aos tempos de Dário, Xerxes e Ciro II. Que enfrentaram Alexandre o Grande e a Guerra do Peloponeso. A própria história do Xadrez passa pelo Irã onde, no século VII, é criada a expressão Xeque-Mate (“Shah Mat”), do persa, que significa “O Rei não tem salvação”. A guerra atual poderá ser um Xeque-Mate contra o imperialismo dos EUA?

Irã

Em meados do século XX o Irã teve um governo eleito que nacionalizou o petróleo, nos marcos do nacionalismo burguês. Entretanto, os EUA organizaram um golpe, impondo uma monarquia subserviente ao imperialismo. O Shah Reza Pahlavi foi um período extremamente autoritário e violento contra o próprio povo. Impondo um governo que entregou as riquezas do país às potências estrangeiras.

Em 1979 houve um processo revolucionário. A Revolução teve uma marca anti-imperialista desde o primeiro momento. No início da revolução dois setores disputaram a direção do processo, de um lado os setores da classe trabalhadora, com diversas correntes comunistas, mas de outro os Xiitas. O Ayatollah Khomeini estava no exílio na França, de onde enviava clandestinamente fitas K-7 (forma de gravação de áudio) com seus discursos gravados. Tais fitas eram copiadas e reproduzidas nas mesquitas. Os religiosos conseguiram uma maior implantação popular desta forma. De modo que a revolução, embora tenha sido uma revolução anti-imperialista, esbarrou nos limites de uma revolução burguesa. De modo que aquilo que não avança termina retrocedendo. Sendo uma expressão de muita dialética. Formando-se um Estado que, ao mesmo tempo, é uma República, é uma Teocracia. Forma-se um Estado Burguês, mas que mantém a independência perante o imperialismo. Após a consolidação do caráter religioso da revolução houve uma brutal perseguição aos comunistas e socialistas.

Os socialistas não devem oferecer qualquer suporte político ao regime iraniano. Entretanto, diante do ataque imperialista, cabe o apoio militar. Está é uma diferenciação fundamental. O apoio político é um tipo de apoio, o apoio militar é outra forma de apoio.

Os socialistas não devem oferecer qualquer suporte político ao regime iraniano. Entretanto, diante do ataque imperialista, cabe o apoio militar. Está é uma diferenciação fundamental. O apoio político é um tipo de apoio, o apoio militar é outra forma de apoio. Ou seja, diante de um ataque imperialista contra uma nação oprimida os comunistas devem apoiar militarmente a nação oprimida, incondicionalmente. Mas tal apoio militar não se confunde com o apoio político ao governo burguês.

O Estado Iraniano é um Estado complexo e estruturado. Não sendo aqueles governos em torno de um único caudilho. Ao contrário, existe uma linha de sucessão. Sendo uma população de mais de 90 milhões de pessoas. Mesmo com os limites de um Estado Burguês, o Irã apresenta lições de como defender a sua soberania nacional. Há a nacionalização do Petróleo. Um exército formado por amplas massas populares. Uma forte capacidade de produção de mísseis.
Israel

Ao longo dos últimos anos a entidade sionista, denominada Israel, tem expandido seu projeto de exterminio étnico e religioso. Aprofundando um Estado de segregação racial. Tendo praticado sistematicamente um genocídio contra o povo palestino, matando cerca de 200 mil pessoas. Os crimes perpetrados pelo sionismo hoje equiparam-se aos crimes do nazismo. O projeto Sionista, dito de forma cada vez mais expressa é a chamada “Grande Israel”, cujas fronteiras iriam do Rio Eufrates ao Rio Nilo. Segundo uma suposta leitura das escrituras sagradas, o Torah.

O governo de Netanyahu precisa manter a guerra de modo permanente. Há uma necessidade de expansão permanente do projeto imperialista. Qualquer interrupção nas suas sucessivas guerras poderá significar uma derrota estratégica. A destruição do Irã como nação independente do imperialismo é uma condição necessária para o projeto imperialista do Sionismo.

Tática Militar

A Guerra é a Política por outros meios, já diriam tanto Carl von Clausewitz quanto Lenin. Destaca-se como elementos essenciais em uma guerra de um lado a coesão social dos atores envolvidos. Ou seja, o nível de sacrifício que cada população está disposta a enfrentar para manter-se em guerra. De outro lado a capacidade produtiva de cada um dos atores. E por capacidade produtiva existem as relações de infra-estrutura, da humanidade com a natureza, por meio da tecnologia. Mas também das relações estruturais entre os próprios seres humanos. As forças produtivas são as pessoas, a tecnologia e a natureza.

Para impor uma derrota militar o custo de continuar a guerra deverá ser mais elevado do que o custo da rendição. Tal raciocínio aplica-se tanto aos generais quanto ao conjunto da população. Na Guerra do Iraque, de 2003, os EUA rapidamente conseguiram derrotar Saddam Hussein, entretanto, o povo irquiano seguiu combatendo por muitos anos. Tanto que a infantaria dos EUA foi derrotada na cidade de Fallujah, em março de 2004. O que está em jogo para o povo iraniano é o fim do seu país. Não existe uma rendição possível.

As chamadas “Armas” clássicas na essência seguem existindo. A estrutura militar é formada por Infantaria, Cavalaria e Artilharia. Nos clássicos, como o livro “A Arte da Guerra”, de Maquiavel (não confundir com o de Sun Tzu) há uma longa e detalhada explicação da formação militar na Idade Média.

Qualquer guerra, por mais tecnologia que exista hoje, segue dependendo do fator determinante que é soldados com os pés no solo. A infantaria, formada por pessoas que combatem, arriscando suas vidas, é um elemento decisivo em qualquer guerra.

Qualquer guerra, por mais tecnologia que exista hoje, segue dependendo do fator determinante que é soldados com os pés no solo. A infantaria, formada por pessoas que combatem, arriscando suas vidas, é um elemento decisivo em qualquer guerra.

O que seria a antiga cavalaria hoje é exercida por meio de tanques de guerra ou helicópteros. Mas o resultado é similar. Em que existe um meio que transporta tropas de modo veloz, que pode infligir danos. Mas para que haja a ocupação de uma cidade segue sendo necessária a infantaria.

Bem como a artilharia hoje conta com mísseis, drones e até mesmo aviões e caças. Mas a essência de um ataque a distância que inflige danos mas não ocupa o espaço, segue sendo a mesma.

A guerra no primeiro mês tem sido marcada majoritariamente por uma guerra de artilharia.O Irã tem conseguido proezas incríveis, que devem animar toda classe trabalhadora do mundo. Entretanto, a análise da guerra também deve ser feita com base no maior realismo possível. Nossa leitura não pode ser turvada nem pela névoa da guerra nem por uma torcida facilista. Quando se cria a idéia de que os EUA já teriam perdido a guerra na verdade tal discurso diminui a grande dificuldade e sacrifício.

A Guerra travada pelo Irã é uma guerra assimétrica. Os EUA e Israel possuem uma capacidade aérea muito superior ao Irã. Tem sido uma proeza incrível que o Irã tenha atingido e até mesmo derrubado algumas aeronaves dos EUA. Tendo atingido em solo, nas bases dos EUA na região, bem como até mesmo abatido outras. Entretanto, tanto as forças aéreas Sionistas quanto dos EUA estão operando vôos diariamente nos céus do Irã. Proporcionalmente o número de aeronaves abatidas não impede tais operações.

Foram atacadas usinas nucleares do Irã. Está havendo um forte ataque contra a infra-estrutura energética do país. Como uso de requintes de crueldade por parte do Sionismo, como foi o caso do massacre na escola de crianças e o cometimento de crimes de guerra, com o ataque duplo. Pois 40 minutos após o primeiro bombardeio ocorreu um segundo bombardeio, cujo objetivo foi atingir os socorristas.

O Irã tem resistido bravamente. Conseguiu atacar várias bases dos EUA na região. Bombardeou as proximidades da instalação nuclear de Dimona, no que pode ser interpretado como um aviso de que caso necessário bombardearia o reator nuclear em Israel. Alvos em Israel têm sido atingidos, mesmo com o uso da barreira anti-mísseis, denominada “Domo de Ferro”. O Irã tem usado um elevado número de drones, que são mecanismos de baixo custo, mas que surtem um efeito de saturação nos equipamentos defensivos de Israel. O que resulta em que alguns drones, que custam algumas centenas de dólares fazem com que Israel dispare um elevado contra-ataque, que são pequenos foguetes direcionados, no sentido de abater tais drones. Tal sistema defensivo custa milhões de dólares a cada vez que é usado. Ao mesmo tempo o Irã, aproveita a saturação do sistema defensivo para disparar mísseis, inclusive supersônicos.

O Irã possui minas sub-aquáticas, bem como torpedos submarinos velozes.Não é verdade que o Estreito de Hormuz tenha sido fechado. O Irã está bloqueando a passagem de petroleiros dos EUA e ligados a Israel. Mas por exemplo os petroleiros do Iraque estão podendo passar. Está sendo cobrado um pedágio por tal passagem.

Por outro lado, os enfrentamentos por terra já tiveram início no Líbano. As notícias dão conta de que o Sionismo tem enfrentado uma dura resistência por parte do Hezbollah. O objetivo sionista é de avançar as fronteiras até o rio Litania. A operação de resgate dos pilotos do F-15E, caça dos EUA, que foi abatido no Irã, envolveram também enfrentamentos. Existem notícias de enfrentamentos no Iraque contra soldados dos EUA. Há o risco real de uma conflagração de guerras civis tanto no Iraque quanto no Líbano.

Uma eventual invasão por solo por parte dos EUA no Irã poderá ser demasiadamente custosa para o imperialismo. O povo em armas é a melhor forma de resistência. O Irã tem uma população de 90 milhões de pessoas, uma topografia montanhosa. Sendo um cenário de guerra muito difícil para os invasores.

Sobre o risco do uso de artefatos nucleares, segue válido o que Nahuel Moreno já alertava em 1986:
Desde sua origem, o capitalismo tem sido agressivo, belicoso e gastou enormes somas de dinheiro em armamentos. O ato de apertar o botão está relacionado a essa tendência profundamente enraizada do capitalismo: expandir seu domínio, esmagar a classe trabalhadora e os países subdesenvolvidos para controlá-los e explorá-los. É a sua lei. (…) Voltemos ao exemplo de Hitler, que também representa a tendência extrema do capitalismo nesse aspecto. Não tenho dúvidas de que Hitler teria começado a lançar bombas atômicas por toda parte. Sorte de ele não tê-las.

O Irã não está sendo atacado por pretender ter bombas nucleares, mas ao contrário, está sendo atacado por não ter. Mas mesmo que o Sionismo e os EUA usem tais artefatos, ainda assim o Irã poderá ter condições de reação. Entretanto, tal cenário entraria em uma dinâmica imponderável.

Outras Potências

Os EUA estão rompendo definitivamente a ordem mundial estabelecida após 1945. O imperialismo dos EUA tem optado por esvaziar a ONU cada vez mais. Atualmente existem quatro principais polos imperialistas, cada qual com seus interesses próprios. Além dos EUA, a China, a Rússia e um bloco Europeu. Dentro da Europa existem as subdivisões internas de cada burguesia nacional.

A Guerra dos EUA contra o Irã tem como pano de fundo este redesenho de poder no mundo. A Europa demonstrou que está não é uma guerra sua.

A Guerra dos EUA contra o Irã tem como pano de fundo este redesenho de poder no mundo. A Europa demonstrou que está não é uma guerra sua. O bloco imperialista europeu tem priorizado se contrapor ao imperialismo russo, em especial na Ucrânia. Vários países europeus fecharam o espaço aéreo para o transporte de equipamentos militares dos EUA. Existe um risco real de a OTAN terminar se dividindo. A Inglaterra, com os reformistas, segue muito vacilante.

A Rússia, por sua vez, tem lucrado muito com a guerra. Pois além de ser uma exportadora de petróleo, os EUA retiraram as sanções econômicas contra a Rússia. As boas relações entre Putin e Trump, bem como as relações econômicas entre a Rússia e Israel, podem ser o suficiente para evitar um envolvimento russo no conflito.

A China por um lado tem uma forte relação econômica com Israel, tendo investimentos no metrô de Tel-Aviv e no porto de Haifa. Mas por outro lado, a China teria interesse em um desgaste dos EUA neste conflito. Portanto, existe uma forte possibilidade de a China estar garantindo informações e infraestrutura ao Irã.

Efeitos Econômicos

O prolongamento da guerra poderá ter um profundo impacto no preço do petróleo. Mas também uma elevação da inflação mundial, portanto, uma perda de poder aquisitivo da classe trabalhadora. Como também há uma redução do mercado de fertilizantes. Atingindo assim a produção agrícola mundial.

A resistência dentro dos EUA

Muitos acreditam que Trump não teria se preparado para está guerra. Tal leitura está equivocada. Tanto se preparou que realizou a operação contra a Venezuela antes. De modo que garantiu uma grande quantidade de petróleo próximo dos EUA antes de iniciar a guerra contra o Irã.

Dentro dos EUA surgem movimentos como o “No Kings” (Sem Reis). Protestos massivos contra o governo Trump. Há uma divisão da própria extrema direita, que parte dela se coloca contra a guerra. Houve a renúncia do chefe de inteligência interna dos EUA. De modo simbólico em Nova York foi eleito, recentemente, um prefeito que se define como socialista, Zohran Mamdani. Entretanto, Trump tende ao fechamento de um regime cada vez mais autoritário. Há uma dinâmica de acirramento da luta interna nos EUA. Surgem setores defendendo a auto-defesa popular, diante das ofensivas do ICE (departamento que expulsão de imigrantes). Como também surge a possibilidade de uma greve geral. De modo que o destino da luta de classes dentro do império é determinante para definir o destino da humanidade.

O Governo Brasileiro

Os governos que se pretendam ser progressistas devem romper imediatamente com a entidade genocida Sionista, denominada Israel. Devendo ser interrompida a exportação de armas do Brasil para os EUA. A indústria bélica deve ser nacionalizada, o que incluí a indústria aero-espacial, como EMBRAER e Avibrás. Bem como a nacionalização de todo o setor petroleiro, em que o STF permitiu o desmonte da Petrobrás.

Uma Guerra pela Soberania

A guerra que o povo iraniano enfrenta não será vencida por uma macabra “contagem de corpos”. Atualmente, em 6 de abril de 2026, morreram mais de 2 mil pessoas no Irã; quase 1500 no Líbano; por outro lado, menos que 30 em Israel; nem duas dezenas de soldados americanos. Então a “assimetria” da guerra também se expressa neste aspecto.

Entretanto, o povo iraniano tem diante de si uma batalha existencial. A derrota seria uma catástrofe. Para o projeto do imperialismo sionista a batalha também é decisiva. O Irã não pode de nenhuma forma confiar em Trump, que já atacou o país duas vezes durante as negociações. O Irã já sinalizou suas condições, exige a retirada dos EUA da região, um pedágio permanente no Estreito de Hormuz, e a reparação pelos danos sofridos. Os EUA, na prática querem a rendição total do Irã. Ainda que Trump faça um grande jogo quando exige a abertura do Estreito de Hormuz, pois o estreito não estava fechado antes da guerra. Como efetivamente ainda não foi fechado de fato.

Os destinos desta guerra podem sinalizar os destinos da classe trabalhadora mundial. Uma derrota do imperialismo abriria um grande precedente. Mostra o caminho de como enfrentar os EUA. O armamento das massas populares é parte essencial da resistência.

Os destinos desta guerra podem sinalizar os destinos da classe trabalhadora mundial. Uma derrota do imperialismo abriria um grande precedente. Mostra o caminho de como enfrentar os EUA. O armamento das massas populares é parte essencial da resistência. Mas uma boa capacidade de mísseis também se mostra necessária. A Revolução Iraniana foi capaz de construir um exército que enfrenta um inimigo imperialista. Entretanto, a insuficiência das revoluções burguesas fica demonstrada na falta de liberdade para a classe trabalhadora, em especial para as mulheres. Existem diversas tarefas do socialismo que precisam avançar, reflexo dos limites da própria revolução. Portanto, o apoio que os socialistas devem dar ao Irã é o apoio militar, sem qualquer ilusão ou qualquer apoio político ao regime teocrático.

A solidariedade internacional dos povos deve somar forças ao povo irnaiano em sua luta. A derrota do Sionismo e dos EUA poderá trazer uma nova esperança aos povos do mundo. Existe hoje um relativo equilíbrio, mas a resistência do povo em luta poderá impor uma derrota ao imperialismo.


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