Como Gaza desapareceu dos noticiários
Publicado em: 30 de junho de 2026
Shareef Sarhan. CC BY-SA 3.0 igo
Crianças caminhando perto de uma mesquita destruída na Faixa de Gaza. © 2009 UNRWA (Agência das Nações Unidas de Assistência aos Refugiados da Palestina).
Mais um mês se passa e Gaza mal aparece nos noticiários: o inerte Conselho da Paz continua fazendo seu trabalho. Alguém poderia pensar que esse trabalho envolvia a reconstrução do local para que seus habitantes pudessem usar a água, as estradas, os mercados de alimentos, os hospitais e as escolas, coisas que tornam a vida suportável; entretanto, se assim fosse, este alguém estaria enganado. O Conselho da Paz – um nome digno de Orwell – (ou Conselho do Império, ou também Conselho do Genocídio, o que for mais adequado) tinha como objetivo neutralizar a opinião pública, fazendo Gaza desaparecer, enquanto o plano de longo prazo permanece tão horrível quanto sempre foi: a terrível Riviera de Gaza de Donald Trump, que conta com a partida dos palestinos, culturalmente conservadores, e sua substituição por casas noturnas, cassinos, bares, resorts, arranha-céus e turistas ocidentais – um novo playground para os ricos e para os israelenses, erguendo-se sobre uma necrópole silenciosa de habitantes de Gaza mortos.
Outro motivo para o desaparecimento dos assassinatos israelenses em Gaza dos noticiários é algo bem simples: as Forças de Defesa de Israel assassinaram quase todos os jornalistas palestinos que cobriam as atrocidades cometidas por elas no enclave
Outro motivo para o desaparecimento dos assassinatos israelenses em Gaza dos noticiários é algo bem simples: as Forças de Defesa de Israel assassinaram quase todos os jornalistas palestinos que cobriam as atrocidades cometidas por elas no enclave. Por fim, houve a violenta repressão à liberdade de expressão sobre a Palestina nos campi universitários estadunidenses, promovida pelo governo Trump a partir da primavera de 2024. Isso também o ajudou.
Enquanto isso, milhares de palestinos definham em prisões israelenses, reféns entre os quais, especialmente, o Dr. Abu Safiya, um pediatra muito íntegro, torturado tão cruelmente por Israel que agora se encontra à beira da morte. Em 5 de junho, o Conselho de Relações Americano-Islâmicas (CAIR) instou o Congresso Estadunidense a exigir a libertação imediata do médico, que atualmente está em “confinamento solitário”, segundo o CAIR, “apesar de estar detido sem acusações, especialistas da ONU afirmam que o Dr. Abu Safiya foi submetido a tortura sob custódia israelense”, e cita a organização Médicos pelos Direitos Humanos de Israel: “ele está detido na Prisão de Negev em condições severas, sem acesso a medicamentos ou cuidados médicos, enquanto seu estado de saúde continua a piorar”. De acordo com detalhes chocantes relatados pela Anistia Internacional, o médico foi terrivelmente torturado, com o objetivo claro, e talvez até bem-sucedido, de destruí-lo. Mas o sofrimento do Dr. Safiya, assim como o de seu país, Gaza, praticamente desapareceu das manchetes.
Ao moderar o genocídio em Gaza, Trump conseguiu o que Joe Biden, o Genocida, não conseguiu: o silêncio. Com sua recusa irritante de sequer levantar um dedo pelos palestinos (nem mesmo de forma simbólica ou enganosa, como fez Trump), Biden foi incapaz de obtê-lo. O silêncio que Israel queria, o silêncio que seus apoiadores estadunidenses exigiam, o silêncio que nossa mídia corporativa, controlada por bilionários, clamava – um silêncio semelhante ao silêncio de um túmulo.
Resumindo: atrocidades israelenses em Gaza e contra palestinos em prisões israelenses. Tudo isso levanta a questão: será que realmente queremos fundir as forças armadas dos EUA com as de Israel? Essa é a questão que está sendo debatida no Congresso Estadunidense, e surge, não por coincidência, em um momento em que a maioria dos estadunidenses (60%) e metade dos judeus estadunidenses veem as ações de Israel desde 7 de outubro de 2023 com extrema desaprovação. Mas, a esse respeito, vale a pena considerar a observação do comentarista Brian Berletic, especialista em aventuras imperialistas, de que a coordenação militar dos EUA e da OTAN, bem como a dos EUA e seus aliados no Pacífico, ou melhor, esta fusão, se assemelha bastante à proposta para os EUA e para Israel. Berletic chega a afirmar no X (antigo Twitter) que Israel, o cão de guarda dos EUA, é um bode expiatório conveniente para o Império Estadunidense. Isso pode muito bem ser verdade, mas não creio que torne essa fusão proposta nada além de uma péssima ideia.
Afinal, essa fusão das forças armadas dos EUA e de Israel basicamente permitiria ao Congresso Estadunidense ignorar seu povo, ao mesmo tempo que ajudaria Israel a escapar da fúria da opinião pública. As pessoas consideram os feitos de Israel em Gaza uma sucessão de atrocidades, e milhões concordam que se trata de um genocídio. Portanto, Israel perdeu o apoio da opinião pública estadunidense. Qual seria a solução para essa perda? O que Israel deveria fazer para não precisar mais se preocupar com a opinião dos estadunidenses? Fundir as forças armadas dos dois países. Isso removeria permanentemente o teor criminoso do exército israelense do alcance da opinião pública estadunidense. É uma ideia doentia e brilhante.
Segundo o jornal The Guardian, em 5 de junho, os defensores de Israel ficaram “estarrecidos com o colapso do apoio público às políticas israelenses em Gaza, Líbano e Cisjordânia, bem como em relação ao Irã”. Assim, “os defensores de Israel estão buscando freneticamente aumentar o apoio dos EUA ao Estado judeu de maneiras que não dependam da defesa de suas políticas; isso significaria evitar discussões públicas sobre as políticas israelenses em Gaza, Líbano, Cisjordânia ou Irã”. A lei proposta comprometeria “a pesquisa e o desenvolvimento bilaterais, a coprodução de armas, joint ventures, acordos de licenciamento e uma integração sem precedentes das indústrias bélicas dos EUA e de Israel”. Tudo isso mantido debaixo dos panos.
É evidente que o AIPAC (Comitê de Assuntos Públicos Israelo-Americano) apoia esta legislação e fez lobby por ela durante todo o primeiro trimestre deste ano. “Embora os projetos de lei da Câmara dos Deputados e do Senado não tenham sido aprovados pelas respectivas comissões, a mesma estrutura legislativa – e grande parte da mesma redação – reapareceu na seção 224 da NDAA [Lei de Autorização da Defesa Nacional], discretamente inserida em meio ao texto do projeto de lei.” Portanto, esta lei para encobrir o genocídio israelense em Gaza tem uma chance real de chegar à mesa de Trump. O jornal The Guardian se refere a ela como a estrutura do Sionismo 2.0. Seja qual for o nome que se dê, é repugnante. Ela atrela o complexo industrial-militar estadunidense, já profundamente envolvido em derramamentos de sangue e em graves atrocidades ao redor do mundo, ao exército israelense, acusado de genocídio e de tantas outras atrocidades que soldados das Forças de Defesa de Israel mal conseguem aparecer nas redes sociais sem acabar, de maneira evidente, produzindo provas contra si mesmos.
Uma tentativa intrépida de remover essa adição abominável da Lei de Autorização de Defesa Nacional (NDAA), liderada pelos congressistas Thomas Massie e Ro Khanna, foi derrotada, conforme relatado por Kelley Beaucar Vlahos em 4 de junho na revista Responsible Statecraft. A matéria, publicada inicialmente por Ben Freeman na mesma revista na semana anterior, descrevia os defensores da disposição que visava a fusão das duas forças armadas como disseminadores de “meias verdades e imprecisões flagrantes sobre o alcance desta disposição na integração dos setores de defesa dos EUA e de Israel”. “Os EUA e Israel já trabalham intensamente juntos em defesas antimísseis”, escreveu Freeman, “mas essa disposição expandiria de forma alarmante a coordenação para praticamente todas as áreas da tecnologia de defesa, incluindo inteligência artificial, computação quântica, sistemas autônomos, energia direcionada, cibersegurança, biotecnologia e muitas outras… Em outras palavras, os dados das forças armadas dos EUA poderiam em breve se tornar dados das forças armadas israelenses”. Inclusive, o senador Bernie Sanders emitiu uma declaração expressando sua profunda oposição a essa fusão militar.
A propósito, vale ressaltar que, em 5 de junho, o Pentágono avaliou que Israel representa uma séria ameaça de espionagem aos EUA. E isso diz muito. (Este vazamento sugere que algumas pessoas no Pentágono consideram a proposta dessa fusão algo alarmante. Ótimo. Deveriam mesmo). E há a questão financeira. Como observou Vlahos, essa legislação “transferiria os US$3,8 bilhões anuais que os EUA atualmente repassam a Israel… para esses programas… onde a transparência é rara e muitas vezes momentânea. É uma solução perfeita (que é apoiada inclusive pelo primeiro-ministro Benjamin Netanyahu) dado o apoio estadunidense cada vez menor às guerras de Israel e à ajuda militar dos EUA a elas”. Assim, Israel espera que não haja mais protestos incômodos nos EUA sobre o financiamento dos crimes de Jerusalém.
Graças ao chamado Conselho da Paz, Gaza desapareceu da mídia. E, à medida que os noticiários corporativos se voltaram para o massacre israelense no sul do Líbano e como isso envolveu os EUA na Guerra do Irã, os holofotes também se desviaram das atrocidades que Israel comete em suas prisões. No entanto, o mundo não se esqueceu do genocídio em Gaza, mesmo que o Conselho do Império e uma mídia submissa, controlada por bilionários, tenham tentado fazer com que isso acontecesse. Nem se esqueceu do Dr. Safiya. E, como essas coisas não foram esquecidas, agora temos esse plano horrível de fundir as forças armadas israelenses e estadunidenses.
É difícil imaginar Trump tendo a coragem necessária para se opor a isso, como qualquer presidente estadunidense que se preze deveria ter. No que diz respeito a Israel, sua espinha dorsal é de gelatina, e a pergunta feita pela extrema direita MAGA é pertinente (na medida em que esse termo pode ser aplicado a tal movimento), que é “Trump é o presidente do America First ou do Israel First? Se ele assinar uma Lei de Autorização de Defesa Nacional (NDAA) com essa redação sobre Israel, teremos a resposta, conforme já nos alertou Marjorie Taylor Greene (uma política, como já vimos, com muita coragem). Ela diria que o primeiro item da lista de Trump, se ele cair nessa, NÃO é os Estados Unidos. Eu faria uma ressalva. O primeiro item da lista de Trump é incorporar todos os aliados, vassalos e cães de guarda dos EUA, de Israel à Ucrânia e às Filipinas, em uma máquina imperial, amedrontadora e letal. Ele já está bem inclinado a fazer isso.
Eve Ottenberg é romancista e jornalista. Seu romance mais recente é Old Man Alone. Ela pode ser contatada através de seu site. Traduzido por Anderson Santana, do Esquerda Online
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