Nota da Semar ANDES-SN sobre casos de violência de gênero
Publicado em: 20 de abril de 2026
O presente texto foi apresentado e aprovado por unanimidade em plenária da Semear ANDES-SN, realizada no dia 15 de abril de 2026.
Nele abordamos casos recentes de violência de gênero, que atravessam nossos cenários de trabalho e atuação militante, bem como nos interpelam enquanto organização militante no âmbito do ANDES-SN e de sua corrente sindical, “ANDES de luta pela Base (ALB), exigindo nosso pronunciamento. Num primeiro momento, contextualizamos os casos e apresentamos alguns elementos que julgamos serem educativos, servindo também para fundamentar a nossa posição para o conjunto de militantes do nosso sindicato, o ANDES-SN, que, porventura, venham a ler a nota. Num segundo momento, apresentamos a Nota de nossa organização.
Camaradas,
Começamos salientando aquilo que é preciso afirmar com nitidez: não há construção de organização revolucionária sem enfrentamento radical às opressões estruturais que sustentam a ordem capitalista. E isso nos coloca diante de uma tarefa de extrema relevância.
A análise que nossa organização, a Semear, vem elaborando sobre o contexto atual nos permite compreender as violências sofridas pelas companheiras Jennifer Webb, professora da UFPA, Dayeli Ferreira, ex-professora substituta da UFG, e por outras mulheres — por parte de dois docentes da UFG, sendo um ex-dirigente do sindicato e da coordenação do ALB — não como um desvio individual ou um episódio isolado, mas como expressão concreta da materialidade da ideologia patriarcal, elemento constitutivo e estruturante da sociabilidade capitalista.
O patriarcado não é um resquício arcaico: é um mecanismo ativo de dominação que organiza a divisão sexual do trabalho, sustenta a superexploração da força de trabalho feminina e opera como engrenagem da reprodução social do capital. A violência de gênero, portanto, não é um acidente — ela é funcional à manutenção da ordem capitalista.
No atual momento, como saída para a crise do capital, a extrema direita e seu braço neofascista incrementa a radicalização do programa neoliberal do ponto de vista econômico e, sobretudo ideológico, interrompendo o ciclo anterior do chamado “neoliberalismo progressista” e passa a ganhar boa parte da classe trabalhadora para pautas reacionárias relativas às opressões. Apostando em uma ofensiva xenófoba, racista, anti-LGBTQIA+ e profundamente misógina e, tendo as redes sociais como amplificadoras com os algoritmos das big techs trabalhando ao seu favor, o neofascismo mobiliza o ressentimento masculino e fomenta discursos e práticas cada vez mais violentas contra meninas e mulheres, culpabilizando as lutas feministas pela sensação de piora nas condições de vida da nossa classe.
É nesse contexto que a violência contra mulheres se intensifica — e, de forma contraditória, também atravessa as organizações da própria classe trabalhadora, inclusive aquelas mais combativas, classistas e, até mesmo, as revolucionárias. Isso exige de nós firmeza ideológica e política!
A nota elaborada pela coordenação da Semear ANDES-SN – apresentada a seguir – tem como objetivo central afirmar a solidariedade ativa às companheiras violentadas e contribuir como subsídio à nossa reflexão coletiva nesta plenária. Para sua construção, partimos de dois fundamentos:
Primeiro, nossa Carta de Princípios, que estabelece de forma inequívoca que o combate ao machismo é um princípio inegociável de qualquer organização socialista revolucionária.
Em segundo lugar, a tradição do feminismo marxista, que compreende que a emancipação das mulheres está indissociavelmente vinculada à superação da sociedade de classes. Nesse sentido, afirmamos que a luta contra a opressão de gênero é parte constitutiva da luta de classes — não subordinada, nem secundária.
Isso implica também demarcar posição: rejeitamos tanto as concepções que deslocam a luta para um antagonismo entre homens e mulheres, quanto aquelas que reduzem a violência a uma questão individual, apostando em respostas meramente punitivistas e despolitizadas, que acabam por reforçar a lógica penal e conservadora do próprio Estado burguês. Do mesmo modo, denunciamos o uso instrumental das pautas feministas como armas de disputa política descoladas do compromisso real com a transformação social.
Dito isso, apresentamos a nossa nota:
“Diante das recentes denúncias de violência de gênero contra a companheira Jennifer Webb e outras mulheres, a Coordenação Provisória da Semear no ANDES-SN dirige-se às e aos camaradas da Organização trazendo algumas reflexões.
Iniciamos pelo mais importante: nossa irrestrita solidariedade às mulheres que sofreram violência. Solidariedade que não se limita à declaração, mas se materializa em compromisso político e organizativo.
A partir de uma perspectiva feminista classista, afirmamos como princípios inalienáveis:
- 1 O acolhimento das denúncias e das mulheres, garantindo escuta, proteção e apoio, reconhecendo que a centralidadeestá nas vítimas e em sua integridade;
- 2 A premência de apuração rigorosa, transparente e politicamente orientada, nas instâncias e espaços cabíveis, assegurando também ao processo um caráter e desdobramentos formativos/educativos;
- 3 A garantia de que todo o processo tenha como eixo a proteção das mulheres, impedindo qualquer forma de revitimização e silenciamento;
- 4 Nosso total repúdio e intolerância à violência de gênero e o que ela expressa e retroalimenta em termos de uma sociedade capitalista, patriarcal e machista, não havendo justificativas possíveis para ela, ainda mais em espaços e organizações que se põem a transformar radicalmente tal realidade.
Assim, reafirmamos que organizações que se pretendem classistas devem ser territórios de enfrentamento às opressões.
A omissão, a minimização ou a conciliação com práticas de violência significam, na prática, a reprodução da ordem que dizemos combater.
Nesse sentido, defendemos a construção de um verdadeiro cordão político de proteção às vítimas, combinado a processos de responsabilização que estejam articulados a uma perspectiva formativa do militante e que seja transformadora — não como substituição da responsabilização, mas como parte de uma estratégia de enfrentamento estrutural da violência de gênero no interior da classe trabalhadora.
Por fim, reafirmamos o ANDES-SN e, nele, a nossa corrente sindical “ANDES de Luta pela Base” (ALB), enquanto ferramentas fundamentais da luta contra a opressão e o nosso compromisso em ajudar no avanço desta pauta no interior do sindicato e da corrente.
Seguiremos firmes na luta por uma sociedade sem exploração e sem opressão.
Semear ANDES-SN
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