Porque os Houthis do Iêmen começaram uma nova frente na Guerra do Irã
Impulsionados por Teerã e por pressões internas, os houthis do Iêmen atacaram Israel e se juntaram ao conflito regional. Mas continuam relutantes em reacender sua custosa guerra com a Arábia Saudita
Publicado em: 6 de abril de 2026
Em seu discurso de posse em 12 de março, o novo líder supremo do Irã, Mojtaba Khamenei, anunciou que “novas frentes” seriam abertas na guerra de Teerã contra os Estados Unidos e Israel. Khamenei destacou o “corajoso e leal” movimento houthi do Iêmen, que faz parte de uma coalizão de resistência agora mais enfraquecida de milícias iraquianas e libanesas que lutam para “encurtar o caminho para eliminar a sedição sionista”.
Em 26 de março, os houthis entraram na guerra, lançando dois ataques com mísseis balísticos a mais de 2.000 quilômetros de distância, atingindo Israel. A data foi escolhida por coincidir com o 11º aniversário do início da campanha de bombardeios mal-sucedida da Arábia Saudita, iniciada em 2015, que buscava reverter o controle houthi sobre a capital, Sanaa, e grande parte do norte do Iêmen, território onde vive cerca de dois terços da população.
Em um discurso no “Dia Nacional da Resistência”, o líder do movimento, Abdul-Malik al-Houthi, fez uma diferenciação entre a intervenção houthi e os países árabes na “submissão à tirania” dos “judeus sionistas e seus apoiadores sionistas ocidentais”.
“Infelizmente”, afirmou al-Houthi, “alguns regimes nesta região se envolveram em servi-los. Eles abriram seus territórios e mobilizaram seus recursos, meios de comunicação e posições políticas para apoiar a agressão contra a República Islâmica do Irã”.
No dia seguinte, as forças armadas houthis expuseram seus argumentos e estabeleceram limites. Seu porta-voz, Yahya Saree, afirmou que sua luta foi contra o “projeto sionista” e em defesa de um cessar-fogo em Gaza, ao invés de se basear apenas em sua aliança com o Irã. Crucialmente, também destacou que os houthis não atacariam países muçulmanos, a menos que estes integrem uma coalizão com os Estados Unidos e Israel.
Os houthis surgiram na década de 1990 a partir da população xiita zaidita do Iêmen, uma grande minoria religiosa cujo reduto é a cidade de Saada, no norte. Foi formado para combater a corrupção que, eles diziam, empobrecia seus territórios e passou a atacar o governo central liderado pelo governante militar Ali Abdullah Saleh e seu patrocinador, a Arábia Saudita.
Saleh governava, como se sabe, “dançando sobre as cabeças das cobras”, canalizando os recursos do petróleo e os fundos sauditas por meio de redes tribais leais, evitando a fragmentação do Estado. Os houthis viviam em um estado de guerra de baixa intensidade controlada até 2014, quando, após o fracasso da Primavera Árabe, marcharam sobre Sanaa. Isso desencadeou uma guerra com a Arábia Saudita e seu parceiro de coalizão, os Emirados Árabes Unidos, que devastou profundamente o tecido social do Iêmen.
A Arábia Saudita instituiu um bloqueio altamente destrutivo ao país e apoiou um governo fantoche, que passou grande parte do tempo no exílio dentro do reino. Em 2017, os houthis mataram Saleh e o Estado se fragmentou. O país enfrentou uma catástrofe humanitária devido à escassez de alimentos e medicamentos, além das campanhas de bombardeios sauditas, sustentados pelos Estados Unidos e pelo Reino Unido, matando dezenas de milhares, incluindo civis. Teerã ajudou os houthis a desenvolver um programa de mísseis balísticos, uma versão mais rudimentar de seu próprio, que foi utilizado contra infraestruturas petrolíferas sauditas. Isso contribuiu para criar um equilíbrio de dissuasão que ajudou a encerrar o conflito.
Após o cessar-fogo de 2022, os houthis consolidaram seu poder, que se estende do noroeste até o porto de Hudaydah e partes da província de Taiz. O grupo se sustenta por meio de uma economia de guerra, baseada, em parte, em contrabando de petróleo, cobrança de pedágios e cultivo de khat. Eles também atacaram portos usados pelo governo rival — apoiado pela Arábia Saudita — para exportar petróleo, o que praticamente interrompeu as exportações do país, agravando a situação de uma das nações mais pobres do mundo.
Após os ataques de 7 de outubro de 2023 e a ofensiva israelense em Gaza, os houthis passaram a atacar Israel e navios associados ao país no Mar Vermelho. Isso provocou retaliações de Israel e dos Estados Unidos, tanto sob o governo de Joe Biden quanto sob o de Donald Trump. Em 2025, essas tensões culminaram em uma grande ofensiva militar norte-americana contra infraestruturas controladas pelos houthis, incluindo portos e bases de lançamento de mísseis.
A relação entre o Irã e os houthis é caracterizada pelo alinhamento estratégico combinado com frequentes divergências sobre as táticas e que interesses priorizar. Os zaiditas do Iêmen são xiitas zaiditas, que divergem dos xiitas duodecimanos iranianos quanto à sucessão do quinto imã. Os xiitas iranianos reconhecem o meio-irmão mais velho de Zaid, al-Baqir, como o sucessor legítimo do Profeta Maomé. Os houthis estão tão preocupados em consolidar seu poder interno quanto em combater os Estados Unidos e Israel, que representam uma ameaça existencial imediata ao Irã.
Ao longo do ataque de um mês dos EUA e de Israel contra o Irã, os houthis estiveram sob forte pressão para entrar na guerra. O Irã apoiou os houthis em sua longa guerra contra a Arábia Saudita (de 2015 a 2022) e continua a exercer uma pressão institucional significativa sobre o grupo.
“Mas a pressão não vem apenas do Irã”, afirma Farea al-Muslimi, pesquisador do Chatham House. “Ela também vem de seus próprios eleitores e até mesmo de seus inimigos, que os acusam de não levarem as coisas a sério e de serem incapazes de desempenhar um papel regional”. A causa palestina é fundamental para a identidade própria dos houthis e para a reprodução de sua ideologia.
“[Os houthis] decidiram que era o momento de se envolverem”, disse Helen Lackner, especialista em política tribal iemenita. “É muito difícil para eles não se envolverem… por causa de sua propaganda e, obviamente, por causa do envolvimento israelense. Se fossem apenas os estadunidenses, talvez pudessem ficar à margem. Ser anti-Israel é realmente uma posição fundamental.”
A decisão dos houthis de abrir um novo fronte é um delicado cálculo estratégico. Por um lado, eles não podem evitar entrar em uma guerra no qual estão ideologicamente envolvidos e que enfraquece seus inimigos. “Eles também sabem com certeza que serão os próximos depois do Irã e que Israel irá atacá-los de forma muito brutal”, explica al-Muslimi. “Por isso, tentaram, como se diz em árabe, comê-los no almoço antes que eles os comessem no jantar.”
Por outro lado, os houthis estão tentando agir com cautela para não comprometer o processo do “roteiro” com a Arábia Saudita, que estabeleceria um modus vivendi com seu gigantesco vizinho do norte. De acordo com o roteiro, Riade poderia financiar os gastos públicos no território houthi, especialmente os salários dos funcionários públicos, e reconstruir a infraestrutura civil, grande parte da qual foi destruída pela Força Aérea Real Saudita durante a guerra.
Desde 2022, a guerra civil no Iêmen está praticamente congelada. A rivalidade entre a Arábia Saudita e os Emirados Árabes Unidos no Iêmen foi decidida em janeiro em favor de Riade, quando esta derrubou o Conselho Transitório do Sul, um grupo separatista apoiado pelos Emirados Árabes Unidos que já estava sobrecarregado, no sul. A Arábia Saudita agora desfruta de um quase monopólio de influência sobre o novo governo oficial do Iêmen (os ministros chegaram a tomar posse este ano em Riade) assim como sobre as milícias que o apoiam, tais como as Brigadas Gigantes do Sul.
Riade busca desenvolver o Estado iemenita em torno de parceiros sunitas favorecidos, mas também mantém negociações de longa data com os houthis para neutralizá-los como ameaça. “Os houthis ficariam muito felizes se a guerra terminasse amanhã”, explica Luca Nevola, um analista sênior especializado no Iêmen e no Golfo no Armed Conflict Location and Event Data Project, que passou vários anos vivendo em território controlado pelos houthis. “Isso é especialmente verdadeiro porque as negociações com a Arábia Saudita são essenciais para o movimento deles.” Nevola afirma que Israel foi muito eficaz em enfraquecer os houthis em 2025 com ataques de decapitação após os houthis terem atacado Israel por seu genocídio em Gaza.
Os houthis agora enfrentam um dilema de segurança: ingressar na guerra e arriscar perder seus potenciais patronos sauditas ou ficar de fora e perder credibilidade no país e em Teerã. Ao atacar apenas Israel, os houthis tentam evitar as duas facetas do dilema. “Há muita ilusão na ideia deles de equilíbrio. Acho que isso vai transbordar”, diz al-Muslimi. “Eles estão pensando: ‘Podemos fazer um movimento calculado, trinta dias após o início da guerra, entrar e sair com baixo custo.’ Acham que podem chegar à festa no final, aproveitar o happy hour e ir pra casa sem ressaca”.
Uma guerra tão imprevisível e aberta quanto a que agora é travada por Trump e pelo primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu cria o risco de escalada gradual para todos os beligerantes. Exceto para os Estados Unidos, todos os atores nessa guerra a consideram uma questão de sobrevivência. Se Israel escalar, como quase certamente fará, os houthis correm o risco de serem arrastados para uma lógica de tudo ou nada em uma guerra pela sobrevivência.
Traduzido de Jacobin, por Paulo Duque, do Esquerda Online









