Neste 8M, dizemos basta! Queremos viver

Por que defender a vida das mulheres exige derrotar a extrema direita? E vice-versa?


Publicado em: 8 de março de 2026

Esse post foi criado pelo Esquerda Online.

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Foto Pablo Henrique

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É impossível dizer que 2026 começou, de fato, apenas depois do carnaval… Se terminamos 2025 com uma escalada de feminicídios, vivenciamos logo no início do ano mais uma série de casos bárbaros. Só em janeiro, foram registrados 947 novos feminicídios no judiciário brasileiro. O índice vem aumentando a cada ano, tendo praticamente triplicado de 2020 para 2025, saindo de 4.210 para 12.012. Recentemente, tomamos contato com o caso chocante de estupro coletivo de uma menina de 17 anos por 5 jovens, um menor de idade, num apartamento em Copacabana, que deixou a vítima sangrando, com ferimentos nas genitais, pernas e costelas. 

Sabemos que o ato final de matar uma mulher pelo fato dela ser mulher começa muito antes do assassinato em si. São piadinhas, hipersexualização, subjugação, assédios, controle psicológico, financeiro, pressão estética, ciúmes doentio, estupros, falta de políticas públicas efetivas, etc. Precisamos, de uma vez por todas, encarar de frente essa aberração de nossa sociedade, em todos os seus níveis.

Neste Editorial, mais que denunciar a situação alarmante que nós, mulheres, vivemos, queremos destrinchar como tal condição de violência cruel se relaciona com a situação política do Brasil e do mundo diante da ascensão da extrema direita. E, mais que isso, o que seria preciso para que nós pudéssemos viver sob outras condições. Para que pudéssemos primeiro sobreviver, para enfim viver sem medo.

A misoginia é parte do projeto político da extrema direita

Já sabemos que estamos em uma situação política internacional de profunda ofensiva imperialista e neofascista, que tem como centro o presidente dos EUA, Donald Trump, contando com o apoio de aliados na América Latina, Europa e no resto do mundo. Vivenciamos, ainda em janeiro, a criminosa invasão da Venezuela e o sequestro do presidente Nicolás Maduro e sua companheira, Cilia Flores. Há uma semana, começaram os ataques ao Irã liderados pelos EUA e Israel, assassinando o líder supremo Ali Khamenei e mais de 1.300 civis, incluindo crianças. A polícia política do ICE segue perseguindo e prendendo imigrantes, e tudo isso acompanhado da ampliação do bloqueio e ameaças a Cuba. 

Mas a verdade é que não estamos no início dessa escalada da extrema direita. Ao longo da última década presenciamos diversas vitórias eleitorais de lideranças neofascistas, organização de grupos masculinistas nas redes sociais disseminando discursos e práticas misóginas, avanço da violência racista, xenófoba e LGBTI+fóbica, seja pelo Estado, seja por grupos para-militares, e todas as demais consequências que um projeto político que atenta contra a democracia, arma a população e dissemina o negacionismo climático pode trazer.

Também na última década, temos dito que o movimento de mulheres é o principal obstáculo para a ascensão da extrema direita em todo o mundo. Foi assim em 2022 no Brasil, em nossas últimas eleições presidenciais, quando uma maioria de mulheres votou em Lula para presidente contra o governo reacionário e genocida de Bolsonaro. De lá pra cá, estivemos nas redes e nas ruas resistindo às ameaças contra as nossas vidas, impedimos a votação do “PL do estuprador” reafirmando que “Criança não é mãe”, e pressionamos pelo fim da epidemia de estupros e feminicídios. Esse ano teremos novas eleições, e tudo indica que a disputa será feroz. Apesar de, por um lado, Bolsonaro ter sido julgado e estar preso, de termos concluído o julgamento dos mandantes e assassinos de Marielle e Anderson e de Lula possuir uma leve vantagem em relação ao segundo colocado nas pesquisas, a campanha será duríssima. 

As ideias que representam o legado do bolsonarismo se espalharam e se enraizaram na política e na consciência da população. Novas lideranças surgiram. Eles disputam através do parlamento, das redes sociais, das Igrejas, do controle territorial das milícias. E vêm investindo, particularmente, em ganhar as mulheres para ideias conservadoras e anti-feministas. Mas suas tentativas de defender que “durante o governo Bolsonaro as mulheres estavam protegidas”, como afirmou Flávio Bolsonaro no domingo passado em ato na Av. Paulista, e oferecendo como saída apenas a escalada do punitivismo aos agressores, não se sustenta quando observamos a relação que a misoginia e a violência doméstica sistemática tem com o seu projeto político. 

Se a misoginia é projeto, os feminicídios são a consequência inevitável

É indissociável ao projeto em curso da extrema direita, particularmente de correntes neofascistas com seus líderes masculinistas, a utilização da misoginia como legitimação para avançar em uma agenda reacionária e anti-povo. O golpe contra a Dilma é um importante exemplo disso. Os golpistas não justificaram o golpe anunciando que com o governo Temer iriam implementar um teto de gastos por 20 anos das áreas sociais ou aprovar contrareformas da previdência e trabalhista, mas o fizeram desmoralizando a primeira presidenta mulher do Brasil… por ser mulher. O “tchau, querida” ou o aceno ao coronel que torturou a presidenta durante a ditadura militar eram claros recados que disputavam ali não apenas os rumos da democracia brasileira, mas buscavam colocar todas as mulheres “em seu lugar”, ou seja: fora da política e do espaço público.  

O combate ao feminismo e à chamada “ideologia de gênero”, a disseminação do pânico moral e do projeto “Escola sem partido”, junto com a milicianização da política e a violência como prática cotidiana, fez escalar a naturalização dos discursos de ódio, misóginos, racistas, transfóbicos, e o controle das condutas de vida das ditas “minorias”. Quem ousasse sair do papel a si destinado era tratado com violência implacável, justificada em nome de um objetivo maior, de valores morais conservadores e da preservação da família tradicional. E nisso, muitas vezes, estão mulheres que simplesmente querem terminar um relacionamento, que querem ter um trabalho, uma carreira, lutar por autonomia financeira, ter condições de sustentar sua família. Que querem proteger seus filhos de maridos violentos e/ou pedófilos, que temem se enfrentar com seus agressores porque são julgadas pela vizinhança ou família, porque não encontram o apoio necessário no Estado. E que, quando tentam, muitas vezes, ficam sozinhas e vulneráveis. Nesse sentido, a violência misógina tem papel altamente moralizador e disciplinador dos nossos corpos.

A cada 10 feminicídios, 8 acontecem por “parceiros” ou ex-“parceiros” e uma grande maioria dentro de casa. Entre 2021 e 2024, 62,6% dos feminicídios foram de mulheres negras. As agressões e assassinatos a mulheres lésbicas e os transfeminicídios também cresceram exponencialmente nesse período. Portanto, é preciso dizer com todas as letras: a extrema direita avançando em sua força social significa mais misoginia, racismo e LGBTI+fobia; logo, mais feminicídio de mulheres em toda a sua diversidade.

Defender a vida das mulheres significa derrotar a extrema direita

Ainda que os bolsonaristas disputem cada vez mais as mulheres para suas ideias, está claro que só é possível defender as nossas vidas no combate frontal à extrema direita e seu projeto de país. Mas como enfrentá-los? 

Há uma dimensão óbvia que é não permitir que cheguem novamente ao poder. Em um ano eleitoral como este em que estamos, precisamos de uma ampla unidade para derrotar a candidatura de Flávio Bolsonaro e reeleger Lula presidente. A decisão que tomou o PSOL de apoiar a candidatura de Lula desde o primeiro turno é fundamental para que saiamos vitoriosos. Precisamos, ainda, nos preparar para a eleição de governadoras/es, senadoras/es e deputadas/os progressistas em todos os estados do país. A pré-campanha ao Senado de Manuela d’Ávila no Rio Grande do Sul, de Áurea Carolina em Minas e de Benedita da Silva no Rio de Janeiro tem, particularmente, gerado esperanças. Eleger mulheres feministas, negras, LBTI+s, é determinante para essa guerra que estamos travando. 

Ainda assim, precisamos apresentar um programa que possa superar a condição de violência, precarização do trabalho e sobrecarga de tarefas domésticas e de cuidados que vivem as mulheres trabalhadoras brasileiras. Muitas vezes a dificuldade de sair de uma condição de violência é a falta de autonomia financeira e de políticas que socializem os cuidados com crianças e idosos, que sempre recaem sobre os ombros femininos. 

Por isso, é imperativo acabar com a Jornada 6×1. Ninguém melhor que as mulheres negras e pobres de nosso país para compreender a necessidade de mais tempo, descanso, lazer: de vida além do trabalho. É fundamental que haja controle dos preços dos alimentos e aluguéis, política de moradia popular e que se avance no projeto de Tarifa Zero nos transportes. Na atual situação de endividamento, o governo deve estabelecer mais políticas que desonerem a renda mensal das famílias trabalhadoras. 

Vemos com muito bons olhos o Pacto Brasil contra o Feminicídio, recém anunciado pelos três poderes, o ECA digital ou, ainda, a proposta do governo federal que vem sendo desenvolvida com o Ministério das Mulheres da Política Nacional de Cuidados. A declaração de Lula para este 8 de março demonstra um claro compromisso em responsabilizar o Estado e avançar na defesa da vida das mulheres. É, de fato, muito importante que os objetivos das políticas não fiquem apenas nas intenções. Além de tudo que foi anunciado, é importante que o governo se atente às medidas de prevenção à violência também no terreno da infância, como a inclusão da educação sexual nas escolas públicas conscientizando crianças e adolescentes sobre contraceptivos, assédio, ajudando na identificação de pedófilos e constrangendo práticas violentas. Além de avaçar em políticas de reparação, tanto às vítimas de violência sexual e tentativas de feminicídio, quanto aos filhos e familiares das mulheres assassinadas. 

Precisamos de mudanças na lógica orçamentária, com mais investimento nas áreas sociais e recomposição das políticas sociais que foram privatizadas e desmontadas no último período. Estamos falando de direitos previstos na Constituição de 1988 que muitos sequer chegaram a ser efetivados diante do avanço do neoliberalismo em nosso país, como um sistema de creches em horário integral para bebês e crianças e escolas públicas de qualidade com espaços infantis de contraturno; a retomada do controle estatal e do caráter público de todos os hospitais, unidades de saúde e maternidades vinculados ao SUS, com a garantia plena do serviço de aborto legal; investimento nos projetos assistenciais comunitários organizados nos CRAS e CREAS para além dos programas de transferência de renda; avanço nos direitos previdenciários para servidores públicos e os trabalhadores vinculados ao INSS, levando em conta tipos diferenciados de trabalho, incluindo o de cuidados;  além da construção e abertura de equipamentos públicos em bairros populares que diminuam a sobrecarga de trabalho doméstico das mulheres como lavanderias, restaurantes populares, centros-dia para idosos, etc. 

Para que as medidas anunciadas sejam efetivas e possam incidir sobre mudanças estruturais, precisamos avançar na recomposição dos direitos sociais revogando as últimas reformas da previdência e trabalhista, impedindo que a administrativa avance, e inaugurando outra política orçamentária que rompa com a lógica do arcabouço fiscal/teto de gastos. Lula deve governar com o povo, com as mulheres trabalhadoras, e enfrentar a agenda reacionária da extrema direita que faz de tudo para retroceder ainda mais nos nossos direitos.  

As mulheres devem encabeçar uma profunda mobilização social

Sabemos que essa agenda positiva não é passível de avançar no Congresso ultra reacionário que temos hoje, e reafirmamos a necessidade de eleger candidaturas de esquerda, populares, feministas, antirracistas, LGBTI+, mas precisamos ao mesmo tempo construir uma mobilização social à altura do desafio do nosso tempo. Com isso queremos dizer que é preciso uma profunda disputa de hegemonia política e ideológica, que paute valores, dispute a opinião pública sobre a definição do que é certo e errado, ético e imoral. Em tempos de enormes desastres ambientais, decadência social e crise sistêmica, em que a “ordem mundial” está em profunda transformação, há profunda desconfiança sobre instituições e as saídas passam longe de políticas que buscam, apenas, estabilizar índices econômicos ou negociar acordos com distintos partidos. A “pauta econômica” não define sozinha nada, sequer as eleições. É preciso reconstruir uma nova noção de futuro e de esperança. 

São as mulheres trabalhadoras que movem as estruturas sociais de reprodução da vida. Que acumulam os cuidados com a casa, com as crianças, com idosos e pessoas com deficiência. Que são, por isso, mais capazes de construir pontes de solidariedade, arranjos comunitários, acolher a diversidade, amar para além de laços sanguíneos, enxergar a natureza como parte de nós. A capacidade de projetar um futuro em que meninas cresçam sem medo e meninos não sejam ensinados a violentar só virá de uma profunda mobilização social que dispute a consciência da classe trabalhadora, que provoque transformações, que constranja publicamente homens e adolescentes que disseminam ideologias misóginas como redpills e incels, que produza regulamentação das redes sociais e desmonte esquemas de pedofilia e tráfico de mulheres. 

Portanto, a defesa da vida das mulheres está absolutamente intrincada com a derrota da extrema direita. Assim como qualquer projeto de esquerda que queira derrotar o fascismo sem ser profundamente feminista, antirracista e LGBTI+, não será vitorioso. Precisamos, mais que nunca, de coragem e criatividade para construir um novo tempo. Das novas gerações de meninas, dos coletivos feministas antirracistas estudantis, do chacoalho das mulheres sindicalistas em seus sindicatos corporativos, das influencers e comediantes disputando força nas redes, das parlamentares eleitas afrontando a violência política de gênero e raça, das artistas mulheres e LBTI+ construindo novos paradigmas culturais, da liderança de dirigentes mulheres nas organizações de esquerda incorporando a fundo as lições político-programáticas das resistências feministas antifascistas da última década. 

Que o 8M de 2026 no Brasil seja uma retomada massiva das ruas, disputando as mulheres para uma grande mobilização social que arraste consigo um grande basta ao fortalecimento da extrema direita em nosso país, que rompa com o projeto de morte neofascista e aponte para um projeto de futuro ecossocialista, em que a vida e a dignidade da classe trabalhadora sejam inegociáveis. 


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