2, 5 ou 27 sexos?
Ciência, corpo e sociedade: o caráter social do sexo
Publicado em: 3 de junho de 2026
Louvre, Paris
"Sleeping Hermaphroditus"*
Introdução
A ideia de que o sexo é uma realidade puramente natural, anterior à sociedade e independente da história, ocupa lugar central no senso comum moderno. Masculino e feminino costumam ser apresentados como categorias biológicas evidentes, estáveis e universais. No entanto, autores como Thomas Laqueur e Anne Fausto-Sterling demonstram que a forma como interpretamos os corpos sexuados é historicamente construída e atravessada por relações sociais, políticas e culturais.
Este artigo discute o caráter social do sexo. Isso não significa negar a existência material dos corpos, dos cromossomos, dos hormônios ou dos órgãos reprodutivos. Significa, antes, compreender que esses elementos não falam por si mesmos. Eles são selecionados, interpretados, hierarquizados e organizados por discursos científicos e normas sociais. Assim, o sexo deve ser entendido como uma categoria situada na fronteira entre natureza e sociedade.
A partir de Laqueur, Fausto-Sterling, Löwy e Moschkovich, argumenta-se que o sexo moderno não é apenas uma descrição objetiva da natureza, mas uma forma histórica de classificar corpos e organizar relações sociais. A intersexualidade, nesse sentido, revela de maneira particularmente evidente os limites do dimorfismo sexual rígido e expõe o caráter político da separação entre masculino e feminino.
A historicidade do sexo
Em Inventando o sexo, Thomas Laqueur demonstra que a concepção contemporânea de dois sexos opostos e incomensuráveis não existiu da mesma forma em todos os períodos históricos. Durante grande parte da Antiguidade e da Idade Média predominou, no pensamento ocidental, o chamado modelo do sexo único. Nesse paradigma, homens e mulheres não eram compreendidos como pertencentes a naturezas radicalmente distintas, mas como variações hierarquizadas de uma mesma estrutura corporal. O corpo feminino era interpretado como uma versão interna e menos perfeita do masculino.
A diferença sexual existia, mas era pensada em termos de grau e não de oposição absoluta. Assim, o sexo não organizava a sociedade da mesma maneira que no mundo moderno. Segundo Laqueur, a consolidação do paradigma dos dois sexos ocorreu entre os séculos XVII e XVIII e se aprofundou junto às transformações que culminariam na modernidade capitalista e na Revolução Industrial.
O desenvolvimento do capitalismo industrial reorganizou a divisão social do trabalho, deslocando progressivamente a família de sua posição de unidade produtiva fundamental.
Essa mudança não pode ser explicada apenas por avanços anatômicos ou descobertas empíricas. Ela está relacionada a profundas transformações econômicas, políticas e epistemológicas. O desenvolvimento do capitalismo industrial reorganizou a divisão social do trabalho, deslocando progressivamente a família de sua posição de unidade produtiva fundamental. Ao mesmo tempo, consolidou-se uma separação mais rígida entre esfera pública e esfera privada, entre trabalho produtivo e reprodução doméstica, atribuindo às mulheres um papel social específico ligado à maternidade, ao cuidado e à reprodução da força de trabalho.
Nesse contexto, tornou-se politicamente necessário fundamentar biologicamente a diferença entre homens e mulheres. A ciência moderna passou então a desempenhar papel central na naturalização dessas distinções. A diferença sexual deixou de ser concebida como continuidade hierárquica e passou a ser tratada como oposição absoluta entre dois sexos naturalmente distintos.
Essa necessidade não foi abstrata nem apenas ideológica. Com a separação entre local de trabalho e domicílio familiar característica da produção industrial, a reprodução da força de trabalho precisou ser organizada de maneira estável e previsível. A família nuclear heterossexual emergiu como instituição central nesse processo: cabia à mulher a gestão do espaço doméstico, o cuidado com filhos e a manutenção cotidiana do trabalhador assalariado. Para que essa divisão parecesse natural e não arbitrária, era necessário que os próprios corpos a justificassem. A ciência anatômica e fisiológica do século XIX respondeu a essa demanda ao produzir descrições dos corpos feminino e masculino como naturalmente complementares e funcionalmente distintos: a mulher definida pela capacidade reprodutiva e pela sensibilidade, o homem pela força produtiva e pela razão. O dimorfismo sexual rígido não foi apenas descoberto pela ciência moderna: foi também solicitado por ela, no sentido de que as perguntas formuladas, os órgãos considerados relevantes e as diferenças consideradas essenciais correspondiam às necessidades de uma ordem social em constituição.
Como argumenta Laqueur, a ciência não apenas descobriu dois sexos; ela participou ativamente da construção histórica dessa forma de interpretar os corpos. O modelo binário moderno surge articulado às necessidades sociais da modernidade capitalista, à constituição da família burguesa e à organização das relações de gênero na sociedade industrial.
Ciência, objetividade e construção social
Afirmar o caráter social do sexo não implica rejeitar a ciência ou negar a existência objetiva da natureza. A questão é mais precisa: trata-se de compreender que a ciência também é uma prática social. Ela possui métodos, critérios e formas de validação próprios, mas não está fora da história.
Michael Löwy contribui para essa discussão mobilizando a reflexão de Max Weber sobre a racionalização moderna. Segundo Weber, o desenvolvimento do capitalismo ocidental produz uma forma específica de racionalidade baseada no cálculo, na previsibilidade, na classificação e na organização técnica da realidade. Esse processo de racionalização, associado ao avanço da burocracia, da técnica e da ciência moderna, transforma progressivamente o mundo em algo mensurável e administrável racionalmente. O que Weber chama de “desencantamento do mundo” corresponde justamente à substituição de explicações mágicas, religiosas ou tradicionais por formas técnico-científicas de interpretação da realidade. Nesse contexto, a ciência moderna passa a ocupar posição privilegiada como forma legítima de conhecimento objetivo.
Entretanto, Löwy ressalta que, mesmo nas ciências naturais, essa racionalidade científica nunca é completamente neutra ou independente das relações sociais. A influência ideológica pode ser relativamente menor no interior do procedimento técnico imediato, mas permanece presente em níveis mais amplos da produção científica. A escolha dos objetos considerados relevantes, as perguntas formuladas pelos pesquisadores, os critérios classificatórios utilizados e as aplicações sociais do conhecimento científico são historicamente condicionados. Dessa forma, a ciência moderna produz conhecimento objetivo sobre o mundo material, mas o faz através de categorias e formas de racionalidade construídas social e historicamente.
Isso é especialmente importante quando se trata do sexo humano. A biologia do sexo não é uma área puramente natural nem puramente social. Ela se situa em uma zona intermediária, pois envolve corpos materiais, mas também normas, instituições, classificações jurídicas, expectativas familiares, práticas médicas e hierarquias sociais.
Nesse sentido, a objetividade científica não elimina o problema da interpretação. Cromossomos, hormônios, gônadas, genitais e características sexuais secundárias são elementos materiais, mas a decisão de qual deles define “verdadeiramente” o sexo de uma pessoa não é puramente biológica. Trata-se de uma decisão social mediada pela ciência.
A ciência, portanto, não apenas descreve o sexo: ela participa da produção social do sexo como categoria. Ao selecionar determinados critérios como fundamentais e descartar outros como secundários, ela contribui para estabilizar uma determinada visão de normalidade corporal.
O sexo como norma social
Anne Fausto-Sterling aprofunda essa crítica ao demonstrar que as ideias sociais sobre gênero influenciam a própria biologia. Em Dualismos em duelo, a autora afirma que as verdades científicas sobre o sexo são produzidas em contextos sociais específicos e, depois, retornam à sociedade como se fossem verdades naturais.
O caso de Maria Patiño ilustra de maneira particularmente clara como o sexo não pode ser reduzido a um único marcador biológico. A atleta espanhola foi submetida aos testes de verificação sexual realizados pelo Comitê Olímpico Internacional e impedida de competir após a identificação de cromossomos Y em seu organismo.
O caso de Maria Patiño ilustra de maneira particularmente clara como o sexo não pode ser reduzido a um único marcador biológico. A atleta espanhola foi submetida aos testes de verificação sexual realizados pelo Comitê Olímpico Internacional e impedida de competir após a identificação de cromossomos Y em seu organismo.
Entretanto, Maria havia sido criada socialmente como mulher e possuía aparência corporal feminina. Seu desenvolvimento sexual externo era considerado feminino: ela possuía seios, quadris alargados e genitália externa feminina. Posteriormente descobriu-se que ela apresentava síndrome de insensibilidade ao andrógeno. Isso significa que, embora possuísse cromossomos XY e testículos internos produtores de testosterona, as células de seu corpo eram incapazes de responder adequadamente aos hormônios androgênicos responsáveis pela masculinização fetal e puberal.
Como consequência, seu organismo desenvolveu predominantemente características sexuais femininas. Durante a puberdade, parte da testosterona produzida por seus testículos foi convertida em estrógeno, contribuindo para o desenvolvimento de traços corporais tidos como femininos. Apesar da presença do cromossomo Y, Maria não apresentava as características corporais normalmente associadas ao padrão masculino.
O caso evidencia que cromossomos, hormônios, genitais, gônadas e aparência corporal não necessariamente convergem de maneira simples em um único “sexo biológico”. A própria dificuldade institucional em classificá-la revela que o sexo não é um dado puramente natural e autoevidente, mas uma categoria produzida por critérios sociais e científicos historicamente determinados.
A diversidade corporal humana também evidencia os limites de definir o sexo a partir de um único critério biológico fixo. Mulheres que realizam mastectomia por câncer de mama não deixam de ser socialmente reconhecidas como mulheres; da mesma forma, mulheres que retiram os ovários ou o útero continuam pertencendo à categoria feminina, apesar de perderem estruturas frequentemente apresentadas como “essenciais” ao sexo biológico. O mesmo ocorre com homens submetidos à vasectomia, homens que perdem os testículos em acidentes, guerras ou tratamentos médicos, ou indivíduos que apresentam alterações hormonais significativas ao longo da vida. Esses exemplos demonstram que o reconhecimento social do sexo não depende mecanicamente de um órgão específico, da capacidade reprodutiva ou de uma única característica anatômica. O próprio corpo humano atravessa transformações permanentes ao longo da vida, seja por envelhecimento, doença, intervenção médica ou variações naturais do desenvolvimento. Isso revela que aquilo que chamamos de “sexo biológico” não é uma essência estática localizada em uma parte específica do corpo, mas uma construção complexa que articula elementos biológicos, sociais, históricos e culturais.
Intersexualidade e os limites do binarismo
os corpos humanos não se distribuem perfeitamente entre dois polos absolutos chamados masculino e feminino. Há inúmeras combinações possíveis entre cromossomos, hormônios, gônadas, genitais e características sexuais secundárias.
A existência de pessoas intersexo torna visível aquilo que o sistema binário tenta ocultar: os corpos humanos não se distribuem perfeitamente entre dois polos absolutos chamados masculino e feminino. Há inúmeras combinações possíveis entre cromossomos, hormônios, gônadas, genitais e características sexuais secundárias.
Foi nesse contexto que Anne Fausto-Sterling publicou, em 1993, o artigo The Five Sexes. Seu objetivo não era criar literalmente apenas cinco categorias fixas, mas demonstrar o caráter artificial da divisão rígida entre dois sexos naturais. A autora propõe, de maneira provocativa, a existência de pelo menos cinco grandes categorias sexuais:
Machos — indivíduos classificados no padrão masculino convencional, geralmente associados à combinação entre cromossomos XY, testículos, produção predominante de testosterona e genitália considerada masculina;
Fêmeas — indivíduos classificados no padrão feminino convencional, geralmente associados à combinação entre cromossomos XX, ovários, produção predominante de estrógeno e genitália considerada feminina;
“Herms” — chamados pela autora de “verdadeiros hermafroditas”, indivíduos que possuem simultaneamente tecido ovariano e testicular. Em alguns casos, podem apresentar características corporais tradicionalmente associadas aos dois sexos;
“Merms” — pessoas que possuem testículos e cromossomos normalmente associados ao padrão masculino, mas que apresentam genitália externa, características corporais ou desenvolvimento sexual parcialmente femininos;
“Ferms” — pessoas que possuem ovários e elementos geralmente associados ao padrão feminino, mas que apresentam genitália externa, características hormonais ou desenvolvimento corporal parcialmente masculinos.
Posteriormente, a própria Fausto-Sterling revisou sua formulação, argumentando que mesmo cinco categorias ainda seriam insuficientes para descrever a diversidade corporal humana. Em textos posteriores, a autora afirma que sexo e gênero seriam melhor compreendidos como posições em um espectro multidimensional do que como categorias fixas e mutuamente excludentes.
O debate contemporâneo radicalizou ainda mais essa crítica ao dimorfismo sexual. Em ambientes acadêmicos, ativistas e de divulgação científica, tornou-se relativamente comum a referência à existência de “27 sexos”. Embora esse número não corresponda a uma classificação biomédica oficial consolidada, ele busca expressar a multiplicidade de combinações possíveis entre fatores cromossômicos, hormonais, gonadais e anatômicos.
A literatura biomédica contemporânea tende a trabalhar com a noção de dezenas de variações intersexo ou “diferenças do desenvolvimento sexual” (DSD). Algumas referências apontam mais de quarenta tipos de intersexualidade, enquanto outras mencionam aproximadamente cinquenta variações reconhecidas. Essas condições incluem síndromes de insensibilidade androgênica, hiperplasia adrenal congênita, mosaicos cromossômicos XX/XY, quimerismo, síndrome ovotesticular, entre outras.
Dessa forma, a discussão contemporânea afasta-se progressivamente da ideia de um sexo biológico rigidamente binário. O problema central deixa de ser a existência de corpos considerados “anômalos” e passa a ser a tentativa social de enquadrar toda a diversidade corporal humana em apenas duas categorias naturais e universais.
A medicina moderna frequentemente respondeu à intersexualidade por meio da normalização compulsória. Crianças e bebês (!!!) intersexo foram historicamente submetidas a cirurgias corretivas, tratamentos hormonais e processos de redesignação sexual destinados a adequar seus corpos às expectativas sociais de masculinidade ou feminilidade. Essas intervenções coercitivas e violentas revelam que o sexo não funciona apenas como descrição biológica, mas também como norma social.
A intersexualidade expõe, portanto, o caráter político da classificação sexual. Ela demonstra que aquilo que entendemos como “sexo biológico” depende de escolhas culturais sobre quais características corporais devem ser consideradas essenciais, normais ou legítimas.
Estimar a quantidade de pessoas intersexo é uma tarefa particularmente complexa porque a incidência das diferentes variações intersexo não é uniforme entre as populações humanas. Anne Fausto-Sterling aponta que existe importante variabilidade numérica associada a fatores genéticos, ambientais e populacionais. Em regiões marcadas por isolamento geográfico, baixa diversidade genética e altos índices de endogamia, determinadas variações intersexo podem aparecer com frequência significativamente maior do que a média global. Um dos exemplos mais conhecidos é o da deficiência da enzima 5-alfa-redutase em comunidades isoladas da República Dominicana, onde a baixa variabilidade genética contribuiu para uma incidência incomumente elevada dessa condição. Além disso, a própria definição do que é considerado intersexual varia entre estudos médicos e biológicos, dificultando a consolidação de estatísticas precisas. Fausto-Sterling chegou a sugerir que até aproximadamente 4% da população poderia apresentar algum tipo de variação intersexo, enquanto estimativas mais conservadoras frequentemente trabalham com números entre 1% e 2%. Ainda assim, mesmo os cálculos mais baixos representam dezenas de milhões de pessoas no mundo. Considerando apenas a estimativa de 1,7%, isso significaria mais de 130 milhões de pessoas intersexo globalmente e cerca de 3,4 milhões de pessoas no Brasil. A subnotificação, entretanto, permanece enorme: muitas variações não são identificadas ao nascimento, diversos casos são medicalizados e apagados por cirurgias corretivas precoces, e o estigma social associado aos corpos intersexo dificulta tanto a produção de dados quanto o reconhecimento público dessas pessoas enquanto tal.
Sexo, gênero e reprodução social
Antes de avançar, é necessário distinguir analiticamente sexo e gênero, não para separá-los como domínios estanques, mas para precisar o que está em jogo em cada nível. Por sexo entende-se o conjunto de características corporais que uma sociedade seleciona como biologicamente relevantes para classificar os indivíduos: cromossomos, gônadas, hormônios, genitália, características secundárias. Por gênero entende-se o sistema de normas, identidades, papéis e expectativas sociais construído sobre essa classificação. A distinção importa porque os dois níveis não se movem no mesmo ritmo nem pela mesma lógica: uma pessoa pode ter seu sexo reclassificado por um critério biomédico sem que sua identidade de gênero ou seu reconhecimento social se alterem, como o caso de Maria Patiño ilustra. O argumento deste artigo é que o sexo, frequentemente tratado como o nível mais natural dos dois, é ele próprio atravessado por escolhas sociais sobre quais marcadores corporais importam e por quê. Sexo não é o dado bruto sobre o qual o gênero seria construído: é já uma interpretação.
A construção social do sexo está ligada à organização mais ampla das relações de gênero.
A construção social do sexo está ligada à organização mais ampla das relações de gênero. Como aponta Marília Moschkovich, o chamado Gênero ocidental opera por meio de uma matriz heterossexual que articula três dimensões: classificação genital dos corpos, identidade e expressão de gênero e orientação heteronormativa do desejo.
Essa matriz pressupõe uma continuidade obrigatória entre nascer com determinado corpo, identificar-se com determinado gênero e desejar o sexo oposto. O sexo funciona, nesse esquema, como fundamento naturalizado da ordem de gênero. Ele aparece como ponto de partida biológico que justificaria papéis sociais, divisão sexual do trabalho, organização familiar e normas de sexualidade.
Essa relação também pode ser pensada a partir da crítica marxista da reprodução social. Com o desenvolvimento do capitalismo, a família deixa de ser a unidade produtiva central, mas permanece fundamental para a reprodução da força de trabalho. A família heterocisnormativa cumpre papel econômico, ideológico e afetivo na manutenção da ordem social.
Nesse contexto, o sexo binário não é uma simples descrição da natureza. Ele aparece como base para organizar a reprodução, o parentesco, a herança, a divisão do trabalho doméstico, a maternidade, a paternidade e a sexualidade legítima. A naturalização do sexo sustenta a naturalização da família e das relações de gênero.
Assim, o caráter social do sexo aparece com toda força: classificar corpos como masculinos ou femininos não é apenas uma operação médica ou biológica, mas uma prática social com efeitos jurídicos, econômicos e políticos.
O caráter social do sexo
O ponto central, portanto, é que o sexo não pode ser reduzido à natureza nem separado dela. Há uma materialidade corporal real, mas essa materialidade é sempre interpretada socialmente. O que uma sociedade reconhece como sexo depende de seus sistemas de classificação, de suas instituições e de suas necessidades históricas.
O sexo é social porque define lugares, expectativas e direitos. Ele determina documentos, banheiros, esportes, maternidade, casamento, filiação, acesso a tratamentos médicos e reconhecimento social. Também é social porque sua definição muda historicamente. O que foi considerado prova definitiva do sexo em uma época pode ser relativizado em outra.
A contribuição de Laqueur permite compreender que o modelo dos dois sexos é histórico. Fausto-Sterling demonstra que a própria biologia é atravessada por concepções culturais de gênero. Löwy ajuda a pensar a ciência como prática social situada. Moschkovich mostra que a classificação sexual é parte de uma matriz normativa mais ampla.
o sexo não é uma essência natural anterior à sociedade. Ele é uma forma social de organizar a materialidade dos corpos. O corpo existe, mas seu significado é produzido historicamente.
Dessa forma, o sexo não é uma essência natural anterior à sociedade. Ele é uma forma social de organizar a materialidade dos corpos. O corpo existe, mas seu significado é produzido historicamente.
Conclusão
A análise do sexo como categoria social permite superar tanto o biologicismo quanto um construtivismo simplista. Não se trata de negar a natureza, mas de recusar a ideia de que a natureza se apresenta à sociedade de maneira imediata, neutra e autoevidente.
O sexo é produzido na relação entre corpos, saberes científicos, instituições médicas, normas jurídicas e formas históricas de organização social. A diferença sexual moderna é, portanto, uma construção histórica que transforma determinados traços corporais em fundamentos de identidade, hierarquia e poder.
A intersexualidade evidencia de maneira decisiva essa construção. Ao desafiar o binarismo sexual, ela mostra que a realidade dos corpos é mais complexa do que as categorias sociais disponíveis para classificá-los.
A intersexualidade evidencia de maneira decisiva essa construção. Ao desafiar o binarismo sexual, ela mostra que a realidade dos corpos é mais complexa do que as categorias sociais disponíveis para classificá-los. Por isso, a luta por direitos intersexo não é apenas uma demanda por inclusão, mas uma crítica profunda ao modo como a sociedade moderna produz o próprio sexo.
Assim, compreender o caráter social do sexo é compreender que aquilo que chamamos de natureza também é disputado historicamente. O sexo não é uma verdade simples revelada pela biologia, mas uma categoria política, científica e socialmente construída.
Referências
FAUSTO-STERLING, Anne. Dualismos em duelo. Cadernos Pagu, Campinas, n. 17-18, p. 9-79, 2002.
FAUSTO-STERLING, Anne. The five sexes: why male and female are not enough. The Sciences, New York, v. 33, n. 2, p. 20-24, 1993.
LAQUEUR, Thomas. Inventando o sexo: corpo e gênero dos gregos a Freud. Tradução de Vera Whately. Rio de Janeiro: Relume-Dumará, 2001.
LÖWY, Michael. As aventuras de Karl Marx contra o Barão de Münchhausen: marxismo e positivismo na sociologia do conhecimento. 5. ed. São Paulo: Cortez, 2000.
LÖWY, Michael. A jaula de aço: Max Weber e o marxismo weberiano. São Paulo: Boitempo, 2014.
MOSCHKOVICH, Marília. Notas para um materialismo bi-alético. Revista Brasileira de Estudos da Homocultura, v. 3, n. 10, p. 109-127, 2020.
SANTOS, Ana Lúcia. Para lá do binarismo? O intersexo como desafio epistemológico e político. Revista Crítica de Ciências Sociais, Coimbra, n. 102, p. 3-20, 2013.
WEBER, Max. Ciência e política: duas vocações. São Paulo: Cultrix, 2011.
* Hermafrodita Dormindo é uma antiga escultura de mármore retratando Hermafrodito em tamanho natural deitado num colchão esculpido pelo artista italiano Gian Lorenzo Bernini em 1620. A forma é derivada em parte de antigos retratos de Vênus e de outros nus femininos e parte de retratos feminizadores contemporâneos de Dionísio/Baco. É um tema muitas vezes repetido no período helenístico e na Roma Antiga a julgar pelo número de versões que sobreviveram. Descoberta em Santa Maria della Vittoria, em Roma, o “Hermafrodita Dormindo” foi imediatamente reivindicado pelo cardeal Scipione Borghese e passou para a famosa Coleção Borghese. Conhecido a partir daí como Hermafrodita Borghese, a estátua foi depois vendida para o exército invasor francês e acabou no Louvre, onde está em exposição atualmente.
Lucas Marques é homem trans, Cientista Social marxista formado pela Unicamp, dev de esquerda e militante da Semear-PSOL









