O Império em reconfiguração turbulenta
Publicado em: 2 de março de 2026
“Nem rir nem chorar compreender”
Baruchi Spinoza, filósofo holandês (1632-1677)
Os acontecimentos na luta de classes mundial desde a crise de 2007/2008, em especial nos EUA gerou da erupção de uma “nova ordem mundial”, em especial após a eleição de Donald Trump para seu segundo mandato.
Logo no primeiro dia do seu mandato foram dezenas de “ordens executivas” (decretos presidenciais), declarações que aparentemente parecem caóticas, depois tarifaços protecionistas, ataque as instituições da democracia (burguesa) nos EUA, uma verdadeira metralhadora de ataques aos direitos e liberdades democráticos nos EUA e no mundo. Não é uma coincidência que palavra imperialismo volte a ser utilizada no Brasil pelos âncoras da mídia corporativa.
Este artigo foi escrito entre o final do ano passado e começo deste ano fruto de vários diálogos sobre a situação econômica e o fundo das necessidades inerentes ao capitalismo imperialista com amigos residentes nos EUA. Foram várias “charlas” recheadas de perguntas e análises dos acontecimentos, algumas características da economia, sociedade estadunidense e o programa político do segundo mandato de Donald Trump, a saber o projeto político “MAGA” (sigla em inglês Fazer a América (EUA) Grande Novamente) e o slogan “America First” (EUA em primeiro Lugar) as implicações na economia e na sociedade que diferentemente do censo comum a sociedade estadunidense é altamente organizada.
Esperamos periodicamente compartilhar essas reflexões para o ativismo popular de esquerda e, acreditamos que essa dinâmica da luta de classes nos EUA podem ser a chave da situação mundial, pela importância dos EUA na geopolítica mundial e contraditoriamente a força da resistência do proletariado estadunidense.
Em breve publicaremos mais artigos.
Boa leitura!
Violenta Reconfiguração, “nova velha ordem mundial”
Os Estados Unidos atravessam uma fase de reconfiguração profunda em que se combinam políticas econômicas agressivas, mudanças na estrutura das classes, bolhas financeiras de nova geração e crescente militarização interna.
Esse conjunto de processos que aparenta um caos de medidas contraditórias do governo Trump causando crises políticas episódicas acompanhados de escândalos midiáticos, no entanto, se olharmos maior acuidade podemos ler de outra forma, a saber: o objetivo de uma fração do imperialismo (majoritária no governo Trump) de reordenar as bases materiais do imperialismo em condições históricas muito mais adversas que o passado.
O projeto encabeçado por Donald Trump, sob a bandeira “America First” e o movimento “MAGA”, é expressão concentrada da busca dessa reacomodação. Em seu núcleo se encontra a ideia de reindustrialização do país, trazer de volta as cadeias industriais que foram realocadas para outros países e recompor o poder econômico global estadunidense, por óbvio ao custo de destruir conquistas históricas da classe trabalhadora estadunidense e rebaixar o custo da mão de obra e níveis dos países menos desenvolvidos dentro do próprio território dos EUA. Essa é a lógica que articula a política dos tarifaços ao mesmo tempo usando o poderio militar e guerras para controlar territórios estratégicos e a pressão sobre o sistema institucional impondo uma liderança cada vez mais personalista.
Frente a esta realidade, o desafio analítico é “não deixar pedra sobre pedra”: olhar além dos dados oficiais, dos discursos triunfalistas e narrativas midiáticas que aparentam um simples choque entre pessoas ou partidos. O que está em jogo é uma transformação profunda da economia, das classes sociais e o regime político da principal potência imperialista do planeta.
O projeto “MAGA”: reindustrializar rebaixando o padrão de vida
O ponto de partida é uma definição conceitual cristalina: o objetivo central das políticas de Trump é destruir conquistas e direitos da classe trabalhadora e reduzir o custo de produção como condição para o projeto de reindustrialização. A promessa de Trump “trazer os empregos de volta” se traduz, na prática, no objetivo de igualar os custos trabalhistas internos aos que conseguem nos países menos desenvolvidos sem renunciar ao controle político e militar outorgados a potência imperialista dominante.

De outro lado a propaganda “America First” propõe uma industrialização centrada no território estadunidense que só é viável se o Capital obtém condições tão vantajosas como as que tem atualmente nos países de baixos salários, poucos ou raros direitos trabalhistas. Para o grande capital não é suficiente erguer fábricas nos EUA, exige também desmontar as instituições, proteções sociais, e níveis salariais que durante décadas foram defendidos pelos sindicatos e movimentos comunitários. O desmantelamento das organizações sindicais e dos movimentos populares é um fator chave neste objetivo.

Nesse contexto a política de tarifas aduaneiras é uma ferramenta chave. Trata-se da elevação de tarifas e impostos as importações, cobrados no processo alfandegário quando os produtos entram no país e o governo apresenta como êxito de arrecadação e ao mesmo tempo um mecanismo de pressão sobre outras economias, especialmente a China. O valor de dezenas de bilhões de dólares nestas tarifas é usado como prova de suposta vitória econômica, porém esconde uma série de efeitos diferidos que afetam o consumo interno e a estabilidade social.
Tarifaço, manipulação de dados e bomba inflacionária
As tarifas não operam no vazio, estão inseridas na estrutura produtiva e comercial que se adapta e resiste a elas. Diante da ameaça de novas tarifas, muitas empresas importadoras regiram de forma antecipada comprando massivamente produtos criando um estoque antes da entrada em vigor das novas alíquotas. Essa manobra permitiu sustentar um tempo os preços relativamente estáveis e alimentando a narrativa que a economia se encontrava em expansão e que os consumidores não sofressem nenhum impacto direto.
No entanto esta manobra tem data de validade. Uma vez esgotados os estoques comprados nas condições anteriores, as empresas serão obrigadas a repassar o incremento dessas tarifas aos preços finais abrindo lentamente uma onda inflacionária que no primeiro momento foi contida. O horizonte mencionado que neste ano a margem de estoque acumulado se esgotou levando ao aumento dos preços ao consumidor. Essa situação está intrínseca no recuo de Trump no tarifaço no Brasil e outros países.
Em paralelo, o governo tentou moldar a percepção da realidade econômica mediante o controle dos dados. Quando os informes do Departamento de Emprego começaram a mostrar uma diminuição da contratação e queda da atividade econômica, a reação da Casa Branca foi atacar virulentamente as Agências Federais que produzem as estatísticas, até mesmo pessoas nomeadas por Trump como o presidente do Federal Reserve Jerome Powell, além de demissões em técnicos desta área. A resposta a esta situação não foi melhorar as condições econômicas e sim questionar os métodos de coleta dos dados e difusão das informações, chegando ao ponto de propor que as empresas deixassem de estar obrigadas a reportar certos dados.
Essa tentativa de “apagão estatística” revela a tensão entre uma economia complexa com sistemas digitais de informação que coletam dados desde as fábricas até os organismos centrais e uma liderança política acostumada a manipular contabilidades privadas a sua conveniência. Em um país com instituições mais estruturadas e controles a este nível, as margens para este tipo de manobra são muito pequenas, o que gera atritos recorrentes entre o Casa Branca, técnicos do Estado e organismos como o FED.
Capital Financeiro, “shareholders” e recomposição de classe
Nos Estados Unidos o imaginário dominante, ou senso comum esvaziou a existência de burguesia e proletariado como classes fundamentais. O discurso oficial e da mídia corporativa tende a falar de “classe média”, de “famílias trabalhadoras” ou de “empreendedores”, como no Brasil, ocultando as relações de exploração e concentração de poder econômico. Entretanto, a estrutura real do capitalismo estadunidense está marcada pelo predomínio do capital financeiro e por uma pirâmide de proprietários de ações que vão desde multimilionários até camadas de profissionais liberais de altos ganhos.
A Reserva Federal reconheceu que a inflação golpeia de maneira diferente os setores mais pobres e setores médios, embora os que possuem ações em Wall Street conseguem manter um consumo elevado. Essa capacidade de sustentar o consumo em princípio aparenta um indicador de fortaleza, porém a realidade repousa em uma superacumulação do capital financeiro e em uma dependência crescente do rentismo. O resultado é uma economia onde uma parte importante do “bem estar social” de “setores acomodados” ¹ já não provêm de salários, mas de ganhos extraídos do trabalho alheio mediados pela bolsa de valores.
Na ponta da pirâmide se encontram os grandes bilionários e as grandes corporações, porém por de baixo se estende uma ampla camada do “pequeno” capital financeiro: técnicos, gerentes e profissionais liberais que podem ganhar desde centenas de milhares de dólares até um milhão de dólares por ano e seus excedentes são aplicados na bolsa. Essa camada não pertence ao proletariado e tão pouco é a fração mais alta do capital, porém cumpre uma função de sustentação a ordem financeira e ao mesmo tempo está sempre vulnerável as crises da bolsa. Quando esse setor começa a cambalear o impacto político é relevante, pois representa uma parte significativa da base social que sustenta o imperialismo desde seu interior.
A bolha da inteligência artificial
Neste contexto emerge um desenvolvimento tecnológico que reconfigura tanto a produtividade como os fluxos de capitais: a inteligência artificial aplicada a indústria. A conversa destaca que o incremento notável de produtividade provém de um setor de elite da classe trabalhadora altamente qualificado que impulsiona inovações científicas e tecnológicas. É a produtividade esta fração que torna tão lucrativo o investimento nas companhias de ponta, atraindo capital financeiro em grandes quantidades.

As gigantes tecnológicas – “Bigtechs”- imensos volumes de lucros que além de investirem em suas próprias expansões investem em empresas de segundo nível para adquirirem seus produtos. Este circuito que se configura deixa as mercadorias em segundo plano: o fluxo dominante é “dinheiro-dinheiro-dinheiro”, onde o crédito, as recompras de ações, e a especulação passam a ser protagonistas como nunca na história. Claro, a produção segue existindo, porém subordinada a um movimento financeiro que busca perpetuar-se e ampliar quase de maneira autônoma.
Este esquema alimenta o que diversos estrategistas econômicos identifican já como uma nova bolha financeira em torno da inteligência artificial. As comparações com a bolha “ponto.com” não são casuais: a expectativa é que após um ciclo de euforia, se produza uma correção violenta com efeitos sobre as empresas, os empregos e as finanças públicas. A diferença é que esta crise está inserida num contexto de maior polarização, militarização interna, e disputa geopolítica aberta o que potencializa os possíveis impactos.
Guerras por petróleo e terras raras
A política econômica interna se articula com a política de guerra externa. Durante décadas, o controle de territórios produtores de petróleo foi um eixo central das intervenções militares, assegurando acesso a matéria prima chave para a indústria e o complexo militar. Hoje, sem que o petróleo tenha perdido a importância, se soma o crescente interesse pelas chamadas terras raras e outros minerais estratégicos indispensáveis para tecnologia de alta complexidade, incluindo a própria inteligência artificial.
As terras raras cumprem, nesta nova fase tecnocientífica, uma função similar a que cumpriu o petróleo na etapa anterior. Quem controla sua extração, processamento e comercialização, controla um gargalo tecnológico para o resto do sistema mundial. Não é a toa que as disputas com China, a pressão sobre países com reservas relevantes e as tensões regionais chave sejam demarcadas na competição por recursos estratégicos, onde as empresas e o aparato militar atuam de forma entrelaçada. Aqui cabe a necessidade dessa luta política a chamada Nova Doutrina de Segurança Estratégica Nacional onde está inserido a nova doutrina Monroe e seu “corolário Trump”.
As novas guerras imperialistas, por tanto, não são somente um reflexo irracional da política, mas sim uma ferramenta para assegurar condições materiais da acumulação de capital financeiro e tecnológico. Os antigos discursos sobre “democracia” e “segurança” agora já foram abandonados pela administração Trump que declara claramente que se trata da necessidade de garantir abastecimento, rotas de transporte e espaços para investimentos, inclusive ao custo de devastar sociedades inteiras.
Militarização interna e ICE como exército paraestatal
Se para fora se multiplicam as intervenções e pressões, internamente cresce uma militarização sem precedentes recentes. A situação atual descreve cenas de carros militares, Guarda Nacional, nas ruas e uso desproporcional da força contra cidadãos de distintas categorias. Nesta paisagem, o papel das Agências, com destaque para o ICE adquirem um caráter particularmente preocupante, atuando como exército paralelo alinhado com as políticas mais violentas do Executivo.

O processo de recrutamento para estes corpos foi orientado a setores precarizados, que podemos descrever como “lumpens”, e a eles são oferecidos salários relativamente altos e uma série de benefícios financiados por programas que injetam milhões de dólares nas forças de segurança interna. O resultado é um aparato repressivo com incentivos materiais significativos, baixa profissionalização técnica, predispostos a brutalidade e obediência cega pessoal a liderança presidencial.
Frente a esta deriva, nas forças armadas regulares vale registrar uma resistência silenciosa. O chefe do Pentágono, identificado como uma figura chave na linha de comando, enfrenta um crescente mal estar dentro dos quarteis e ameaças de judicialização que respingam no próprio Trump. Ao mesmo tempo se usam termos como “defecção” para descrever congressistas e senadores que se distanciam do governo, gerando uma imagem de sangria dentro do establishment.
Crise institucional e choque de poderes
O que emerge deste quadro é uma crise institucional de fundo. O presidente tenta governar como se fosse uma empresa privada, acostumado a impor sua vontade e manipular dados e contratos em benefício próprio. Porém, se encontra em uma zona de pesos e contrapesos – Congresso, Tribunais, Burocracia Estatal, Corporações militares – que não podem ser desmontadas da noite para o dia sem abrir fissuras profundas.
O uso de Decretos Executivos para impor tarifas em um âmbito que os constitucionalmente corresponde ao Congresso gerou demandas judiciais que questionam a legalidade destas medidas. Os litígios em curso refletem um conflito entre os poderes, onde o Executivo busca ampliar suas prerrogativas sobre o Legislativo. Algo similar ocorre com a condução da política exterior e as decisões militares onde o chefe do Comando Sul se negou a executar ações consideradas ilegais optando por se afastar antes de validar ordens questionáveis.
A acumulação de acusações de inconstitucionalidade e a elaboração de listas de possíveis delitos contra o presidente tem um duplo efeito político. Por um lado, mostram que a parte do aparato institucional tenta defender seus marcos legais frente ao avanço de um projeto autoritário. Por outro, revela os limites da liderança de Trump para concretizar sua agenda mais agressiva, que incluem ataques diretos militares a Venezuela, Cuba e mais recentemente a Groenlândia e que encontra resistência tanto dentro como fora dos EUA
Epstein, escândalos e fissuras e na base republicana
No meio desta crise ressurge escândalos que golpeiam o coração da base conservadora. A publicação dos arquivos do caso Epstein, promovida finalmente por uma votação unânime na bancada republicana abre intensos debates, o horror contidos nestes arquivos tem gerado efeitos corrosivos na imagem de figuras ligadas ao trumpismo e a elite estadunidense. O tema não se limita a corrupção econômica, também e gravemente envolve violência e exploração sexual contra as mulheres tema especialmente sensível para parte do eleitorado, além de atrocidades como tráfico de pessoas e até meções a canibalismo.
A filtração e divulgação destes arquivos gerou contradições abertas entre Trump e um setor de mulheres dos republicanos, algumas delas vítimas ou ativistas ligadas ao caso, a quem o presidente chegou a tratar de forma desrespeitosa. Se comenta um ambiente tóxico na relação com a Casa Branca, marcado pela arrogância dos operadores políticos e emissários encarregados de impor a linha presidencial. Essa situação não só corrói as relações pessoais, mas também se traduz em rupturas de alianças e desgaste na base social do trumpismo.
A isso também se somam outras decisões polêmica, como o indulto de figuras corruptas, políticas públicas que afetam diretamente serviços públicos de saúde, acesso a clínicas para mulheres e a vida cotidiana de setores que inicialmente simpatizavam com o discurso anti sistema de Trump. A combinação de escândalos morais, golpes que retiram direitos e agressões institucionais estão solapando a legitimidade do projeto MAGA, inclusive de uma parte de seus seguidores iniciais.
Gastos sociais: saúde, vida cotidiana e rebeldia
As políticas de cortes orçamentários, conhecidos em alguns casos como o “Big and Beautiful Bill” (Grande e belo projeto de Lei) dirigido aos multimilionários que tiveram como consequência destruição de instituições e serviços sociais chave. Entre os mais afetados estão, a saúde pública com fechamento de clínicas, redução de coberturas e especial impacto sobre as mulheres e setores populares. Deste modo, o ajuste que na propaganda dizia castigar as elites acabou caindo sobre a população mais pobre.
A crise do custo de vida atinge também uma parcela importante do eleitorado republicano na medida que sobrem os preços, estancam os salários e se precarizam os empregos, o descontentamento o descontentamento se amplia além das bases tradicionais do Partido Democrata. Os relatórios de expansão econômica se chocam com a vida cotidiana das famílias que sentem a redução do poder aquisitivo e de perder acesso a serviços essenciais ou ficarem expostas a violência policial e incertezas sobre garantia de trabalho.
Este mal estar inicial tem dado lugar cada vez mais a outras expressão de oposição. Um exemplo é a reação das redes de imigrantes, particularmente em cidades como Los Angeles, onde a violência contra a comunidade mexicoamericana eclodiu em múltiplas manifestações. A palavra de ordem “No Más” frente a política de terror migratório se converteu em um ponto de confluência para distintos setores sociais, mostrando que a militarização interna não se impõe sem resistência.
O filtro antidemocrático do Colégio Eleitoral
O ascenso de Trump não se explica somente pelo seu apoio social, mas também pelas peculiaridades do sistema eleitoral estadunidense. O Colégio Eleitoral atua como um filtro antidemocrático que separa o voto popular da designação presidencial, permitindo que um candidato com um diferença pequena a favor consiga uma projeção institucional muito superior. Na eleição de Trump ganhou de Kamala Harris, a vantagem do voto popular era por volta de 2,5 milhões de votos, porém essa diferença se amplifica na distribuição de poder.
Embora o presidente se beneficie desse desenho para consolidar sua liderança, a representação na Câmara de Representantes e no Senado reflete uma correlação mais ajustada. A maioria republicana é na realidade muito pequena e vulnerável a mudanças em eleições especiais. Desde abril desde até 4 novembro de 2025 e mesmo neste ano de 2026 as disputas parciais tem demonstrado uma tendÇencia a recuperação do Partido Democrata em vários Distritos (County) indicando que o “voto de castigo” aos republicamos vai se acumulando lentamente.
De qualquer maneiras a reação democrata tem dido tardia. Após a derrota que levou Trump a presidência, o partido ficou em estado de choque sem oferecer uma alternativa clara e nem uma leitura autocrítica de seu próprio papel na crise social. Só com o passar do tempo e pressionado pela base indignada pela guerra e pelos retrocessos internos começa a recompor sua presença eleitoral, ainda que sem resolver as contradições que por uma lado o fez perder apoio de setores populares, por outro abriu caminho para o crescimento de setores progressistas e até de esquerda impulsionados principalmente pelo grupo do senador Bernie Sanders, a vitória de Mandami nas eleições para prefeito em Nova Iorque e Congressistas nas eleições especiais deste ano.
Um Império volátil e uma luta de projetos
O quadro que emerge é de um império em fase volátil, onde distintos processos —reindustrialização regressiva, predomínio do capital financeiro, bolhas tecnológicas, militarização e crise institucional e resistências sociais — se cruzam e se potencializam.

O projeto MAGA lhes dá uma forma política específica, combinando nacionalismo econômico, autoritarismo interno e agressividade externa, porém ao fazê-lo também desperta forças dentro e fora de suas próprias bases.
No entanto longe de ser uma anomalia sazonal este período expressa as contradições de um capitalismo que levado ao extremo da “financeirização” e da exploração globalizada e que agora tem como objetivo reordenar com bases mais duras para a classe trabalhadora e para os povos. A disputa é sobre diferentes modos de sustentar a dominação de classe em um contexto em que as velhas fórmulas de concertação social se desgastam.
Para as sociedades que observam este processo desde o Sul Global, a lição central é dupla, a saber: por um lado não se pode subestimar a capacidade destrutiva do imperialismo que segue sendo o “mais poderoso da Terra” e nem sua disposição de recorrer a guerra e ou coerção de todas as formas para lograr seus objetivos e por outro lado não se pode ignorar a profundidade de suas crises internas e nem as possibilidades que abrem as resistências sociais, políticas e institucionais que o enfrentam internamente.
Nesse terreno pantanoso se jogam as estratégias dos povos e organizações que buscam construir alternativas: compreender as dinâmicas da potência imperialista e sem idealizações de suas debilidades, muito menos resignar-se a sua força, é parte indispensável para “não deixar pedra sobre pedra” na análise de nosso tempo.










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