Uma análise sobre a vinda de Lula em Sergipe
Publicado em: 4 de junho de 2026
Na última sexta, 28 de maio, o presidente Lula veio para Sergipe e anunciou importantes investimentos do governo federal no estado. O mais impactante foi sem dúvidas o valor de investimentos na Petrobrás, na ordem de 70 Bilhões. Também afirmou que teremos a construção de um VLT interligando Aracaju, São Cristóvão e Laranjeiras. Além disso, visitou o Hospital do Amor em Lagarto e o novo Hospital do Câncer em Aracaju, comunicando a entrega de veículos.
No discurso de Lula, questões importantes como soberania, crítica à política dos Estados Unidos em relação ao tema da segurança pública, crítica às privatizações – que deixou o governador Mitidieri bastante desconcertado tendo em vista a privatização da Deso – e a defesa de um Brasil voltado para os mais pobres e não para a elite. Um discurso altivo e com a defesa de importantes bandeiras políticas. É bem verdade que a prática do governo federal, via BNDES, vem dando subsídio direto para a política de privatizações no país. E sabemos que “a prática é o critério da verdade”. Então, apesar do bom discurso, há contradições com a política cotidiana do governo que precisam ser enfrentadas.
O Brasil e Sergipe não podem ficar reféns da produção de combustíveis fósseis e fertilizantes. Precisamos, com urgência, rever esse modelo diante da crise climática e do respeito às comunidades tradicionais
Por outro lado, se o discurso colocou questões centrais para o país, infelizmente o presidente não tocou no debate estratégico da transição energética. O Brasil e Sergipe não podem ficar reféns da produção de combustíveis fósseis e fertilizantes. Precisamos, com urgência, rever esse modelo diante da crise climática e do respeito às comunidades tradicionais (pescadores, marisqueiras, catadoras de mangaba, etc.). O Sergipe Águas profundas deve responder a essa demanda. O nosso modelo de desenvolvimento precisa levar em consideração, em primeiro lugar a vida, o meio ambiente e o direito ao trabalho de todos, seja da categoria petroleira, seja das comunidades.
Em terceiro lugar, o discurso apresenta limites estratégicos. Do ponto de vista da propaganda ideológica Lula foi mal ao repetir a sua máxima de que não é comunista, mas um torneiro mecânico. Foi sincero, mas limitado. Queremos pensar um outro modelo de sociedade e não apenas na governabilidade. Se distanciar das ideias socialistas enquanto vivemos uma profunda crise do capitalismo não é nada correto. Entra em cena a velha discussão de se afastar de ideias radicais, o que acaba aproximando de ideias mais conservadoras.
Para além do discurso, tem a composição política das atividades. Boa parte das análises da imprensa e das redes sociais focaram apenas nessa questão. Lula em Sergipe já escolheu os seus aliados. Assim como escolheu no Rio, Eduardo Paes e no Pará a família Barbalho, Lula mantém sua proposta de um governo de conciliação de classes, com gente ligada à burguesia e setores da classe trabalhadora. Por aqui o presidente escolheu caminhar junto com Mitidieri e sua tropa de senadores da direita e extrema direita (Alessandro Vieira, André Moura e Laércio Oliveira). Lula se unifica com esse grupo político num momento delicado, na qual sergipanas e sergipanos amargam uma das maiores crises hídricas da história, após a privatização da DESO. Evidente que não se tratou de um ato eleitoral, mas como diz o ditado popular “para bom entendedor, meia palavra basta”.
Dentro desse contexto, não podemos deixar de parabenizar a classe trabalhadora mobilizada. Em primeiro lugar a categoria petroleira que estava em peso na FAFEN, os companheiros e companheiras do SINTUFS que estão em greve exigindo do governo o cumprimento dos acordos, a CUT e a deputada estadual Linda Brasil que entregaram cartas de reivindicação diretamente para a presidência, a vereadora Sonia Meire que foi a única a fazer a defesa dos investimentos da Petrobrás vinculados a uma transição energética e mais uma série de lideranças populares e sindicais que se fizeram presentes com sua voz e suas reivindicações.
Um dos momentos mais importantes da intervenção da esquerda foi a vaia para o senador Laércio. Evidente que não se trata de má educação, de desrespeito pessoal. São críticas políticas e assim deve ser tratado. É na verdade uma questão de justiça histórica! Laércio foi um dos principais defensores da privatização da FAFEN, que passou a ser a UNINGEL. A classe trabalhadora não esqueceu e agora ele aparece em um ato de fortalecimento da Petrobrás como se nada tivesse acontecido. Quem planta, colhe. E ele colheu as merecidas vaias.
Já na cidade de Lagarto vale destacar o menino Pedro Gustavo de Amparo de São Francisco. Com apenas 13 anos, o pequeno cordelista brilhou e encantou todos os presentes, “viralizando” nas redes sociais. Não há como não se emocionar vendo a inteligência e a oratória dessa criança que é filha da escola pública. A vinda de Lula também nos proporcionou esse presente. Que Pedro poeta siga firme na defesa da cultura popular e de um futuro promissor para Sergipe.
A posição de alguns setores da esquerda de não estar presente durante a visita de Lula é legítima. Mas precisamos dizer com todas as letras: É uma posição errada! São duas questões importantes. Primeiro: a esquerda não deve estar presente em anúncios do governo federal que vão beneficiar a população sergipana? Fortalecer essas iniciativas demonstram na prática a grande diferença política entre o governo da extrema direita, como foi o de Bolsonaro, que praticamente fechou a Petrobrás em Sergipe, e agora o governo Lula, que retoma os investimentos no setor. São mera obrigação institucional ou são medidas de longo alcance que merecem uma maior atenção da esquerda? Estivemos presentes com a vinda de Boulos que anunciou políticas de moradia popular – fruto das lutas das ocupações, estivemos presentes com a entrega da Casa da Mulher Brasileira com a ministra Márcia Lopes – fruto da luta das mulheres feministas e junto com Lula na FAFEN – fruto da luta da categoria petroleira.
Apesar de Lula ter deixado nítido que eram atos institucionais do governo, nós enquanto esquerda temos o dever de mobilizar em torno de sua pré-candidatura, pois é a única liderança com capacidade de massas para enfrentar a extrema-direita no terreno eleitoral. Temos um inimigo dificílimo para enfrentar nas urnas em breve. O clima de “já ganhou” não corresponde à realidade.
Segundo, estamos às vésperas das eleições. Até a decisão das urnas em outubro, teremos quatro meses. Apesar de Lula ter deixado nítido que eram atos institucionais do governo, nós enquanto esquerda temos o dever de mobilizar em torno de sua pré-candidatura, pois é a única liderança com capacidade de massas para enfrentar a extrema-direita no terreno eleitoral. Temos um inimigo dificílimo para enfrentar nas urnas em breve. O clima de “já ganhou” não corresponde à realidade.
É verdade que há contradições nesse projeto. A agenda de Lula em Sergipe foi um exemplo. Mas é o governo que aprovou a ampliação da isenção do imposto de renda e está defendendo o fim da escala 6×1 que avança hoje na sociedade brasileira e no congresso – fruto da luta do VAT e das mobilizações da classe trabalhadora em todo o país. Não estamos navegando em uma maré mansa. Precisaremos de muita mobilização e isso passa pelo apoio à reeleição de Lula. É verdade também que não é o nosso programa, afinal se trata de um governo de conciliação de classes e não de um governo de esquerda. Mas é, hoje, a única frente capaz de enfrentar o neofascismo no Brasil. E essa é a prioridade. Como dizer as pessoas que nós estamos com Lula, mas quando ele vem para Sergipe nós não estamos com ele? Seria, no mínimo, contraditório.
Estamos em um momento extremamente delicado. Os Estados Unidos sob o comando de Donald Trump declara guerra ao mundo, como estamos acompanhando com o genocídio em Gaza, sequestro de Maduro na Venezuela, bombas no Irã e o aprofundamento do bloqueio econômico em Cuba. No último fim de semana, vitória da direita no primeiro turno da eleição colombiana. A extrema direita é uma corrente de massas no mundo e não podemos titubear. Estar com Lula desde já não é uma questão de “Lulismo”, mas de compreensão das dificuldades do momento e da leitura da realidade da forma mais concreta possível.
*Alexis Pedrão é professor, militante do MNU e do PSOL
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