Os Estados Unidos levam a Copa do Mundo a um Novo Patamar de Decadência

Outros países-sede recentes da Copa do Mundo usaram o esporte para melhorarem suas imagens. Mas Donald Trump não está fazendo tanto uso do "sportswashing", e sim usando a Copa do Mundo para demonstrar a capacidade dos Estados Unidos de discriminar outras seleções e seus torcedores.


Publicado em: 15 de junho de 2026

Por Dave Braneck

Esse post foi criado pelo Esquerda Online.

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Crédito Reprodução/Redes Sociais
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Bajuladores, aproveitadores e bilionários empenhados em afagar o ego de Donald Trump definem tão fortemente seu segundo mandato que é fácil esquecer que, no passado, associar-se abertamente a ele era algo controverso. Ainda assim, relembrar sua posse nos lembra o que já era surpreendente naquela época e o que ainda viria a acontecer.

Naquele dia de janeiro, estavam presentes gigantes da tecnologia como Elon Musk, Mark Zuckerberg, Sam Altman e Jeff Bezos. Também estavam ícones e influenciadores esportivos trumpistas como Jake e Logan Paul, Conor McGregor, o CEO do UFC, Dana White, e Joe Rogan. Até mesmo um quarteto de ex-presidentes um tanto perplexos estava presente. Mas, entre todos eles, destacava-se uma figura brilhante que a maioria dos americanos provavelmente não reconheceria: o presidente da FIFA, Gianni Infantino.

O dirigente esportivo ítalo-suíço pode ser relativamente anônimo, mas isso mascara sua importância global. Infantino, que se aproximou muito de Trump nos últimos anos, ajudou a transformar a próxima Copa do Mundo, realizada nos Estados Unidos, no México e no Canadá, em um circo dominado por Trump. A Copa do Mundo de 2026 levará o esporte a um novo patamar de decadência, constituindo uma síntese clara tanto da abordagem de Trump ao “sportswashing” quanto da degradação da FIFA.

De acordo com o professor e escritor Jules Boykoff, “Infantino trata os Estados Unidos como um caixa eletrônico privado da FIFA, enquanto Trump posa como uma figura muito importante, estampando sua cara no maior e mais assistido evento esportivo do planeta e roubando o brilho do futebol. ”

O novo livro de Boykoff, Red Card (Cartão Vermelho, em tradução livre), é um guia prático para quem tenta entender como a Copa do Mundo se tornou um caos e o que isso revela sobre o crescente autoritarismo no esporte e na política mundial. Embora a subserviência da FIFA a Trump tenha sido amplamente noticiada, Boykoff (que vez ou outra também contribui para a revista Jacobin) analisou minuciosamente cada escândalo e fraude que deixam qualquer um com náuseas. É um livro muito bom para aqueles que acompanham de perto o showzinho de Trump e Infantino ou para aqueles que preferem esportes estadunidenses mais tradicionais e que consultam rapidamente a Wikipédia sobre a “Copa do Mundo” antes do início da competição.

O Esporte Personificado

É verdade que Trump muitas vezes se comporta como se estivesse mais à vontade comentando os looks de celebridades no tapete vermelho do que um evento esportivo (embora, conforme Boykoff, ele tenha passado um quarto de seu segundo mandato jogando golfe). No entanto, o presidente certamente mostrou ser muito esperto em aproveitar a popularidade dos esportes em todas as oportunidades possíveis.

“Como Trump é um megalomaníaco com um estilo de governo grosseiro e transacional e zero compromisso com a verdade, ele está em uma posição privilegiada para explorar o jeito gângster e tóxico do esporte”, escreve Boykoff. Embora os laços já estabelecidos de Trump com o MMA e a luta livre, e a astuta apropriação da glória do hóquei olímpico, tenham se tornado elementos fundamentais de sua política interna, sediar a Copa do Mundo representa um passo adiante em sua trajetória no cenário global.

Receber o mundo de braços abertos não é exatamente uma prioridade de Trump. Como tantas vezes acontece quando nos deparamos com citações diretas de Trump, ou mesmo com descrições sóbrias e factuais de suas ações, o relato em Red Card sobre a investida de Trump no futebol mundial é de deixar qualquer um zonzo. É algo inédito para a Copa do Mundo ter um país-sede (os Estados Unidos) tenha iniciado uma guerra com um país participante (o Irã) e sequer tenha se comprometido a garantir a segurança da seleção iraniana durante o torneio. Com a violenta máquina de deportação dos Estados Unidos a todo vapor, o ICE (Serviço de Imigração e Alfândega dos EUA) deverá desempenhar um papel importante na segurança do torneio.

Viagens sendo proibidas e políticas altamente racistas e restritivas em suas fronteiras tornarão praticamente impossível para inúmeros torcedores participar do que deveria ser uma celebração global. Os compromissos com a inclusão e os direitos humanos, que foram fundamentais para a candidatura pan-norte-americana para sediar o evento, não se concretizaram.

Apesar das críticas generalizadas em relação à abordagem dos Estados Unidos na organização do torneio, a FIFA só serviu para apoiar e dar vazão aos piores desmandos de Trump. Para Boykoff, isso não deveria surpreender, considerando o controle rígido que Infantino exerce sobre a organização e sua indiferença às estruturas democráticas e aos mecanismos de prestação de contas.

“Mais do que qualquer outro líder no esporte, Infantino permitiu a guinada global em direção ao fascismo”, escreve Boykoff. Mesmo sendo chefe de uma organização comprometida com a neutralidade política, Infantino não hesitou em tomar partido. Apesar da rápida ação para excluir a Rússia das competições após a invasão da Ucrânia, a FIFA permitiu que Israel competisse normalmente em meio a um genocídio. O próprio Infantino esteve intimamente envolvido com o Conselho da Paz de Trump e suas promessas extremamente cínicas de reconstruir Gaza.

Ele chegou até a interromper por um momento o sorriso de orelha a orelha sob um boné vermelho dos Estados Unidos dado por Trump para anunciar, em nome da FIFA, um investimento de US$ 75 milhões em infraestrutura para o futebol, incluindo um estádio para 20 mil espectadores a ser erguido sobre os escombros cuja existência Trump ajudou a provocar.

Isso se deve tanto à submissão de Infantino ao poder quanto a sua própria interpretação distorcida da posição global do futebol. Se o futebol é o esporte mais popular do mundo, certamente o chefe de sua entidade máxima deve ter a mesma influência que um chefe de Estado nos assuntos internacionais. Por qual outra razão ele acharia normal participar de importantes cúpulas sobre o cessar-fogo em Gaza, no Egito, ou tentar, de forma atrapalhada, fazer com que dirigentes de futebol palestinos e israelenses apertassem as mãos no congresso da FIFA? Dá a impressão de que Infantino, assim como Trump, realmente acreditam na própria narrativa.

Certamente, as relações estreitas de Infantino com o Catar e a Arábia Saudita (e seu papel na organização das Copas do Mundo de 2022 e 2034) já demonstravam uma abertura a regimes autoritários. Porém, ele é particularmente próximo de Trump. Ele transferiu o sorteio da Copa do Mundo para Washington e permitiu que a entrega do cobiçado Prêmio da Paz da FIFA, criado especialmente para o presidente americano, ofuscasse completamente o sorteio do torneio. Ele mima Trump, fazendo tudo o que o presidente deseja por um único motivo: dinheiro.

A FIFA espera arrecadar US$ 11 bilhões com a Copa do Mundo de 2026. Preços nunca vistos antes de ingressos – incluindo um sistema de “preços dinâmicos” e uma plataforma de revenda que permite à FIFA ficar com 15% do valor pago por compradores e vendedores, cobrança de centenas de dólares por vagas de estacionamento e a implementação de “pausas para hidratação” obrigatórias em cada tempo, que por acaso são ótimas oportunidades para comerciais – são o único foco de Infantino. Agradar Trump é um pequeno preço a pagar para garantir que a arrecadação seja atingida.

Um sportswashing nada convencional?

Embora o apoio explícito de Infantino a Trump e sua exploração voraz do futebol às custas dos torcedores sejam inéditos pela intensidade com que vêm sendo levados adiante, não se trata de algo inteiramente novo. Red Card apresenta um relato rápido e envolvente da complexa relação histórica entre esporte e política. O livro traça a evolução do “sportswashing”, que é “quando líderes políticos usam o esporte para parecerem importantes ou legítimos no cenário mundial, enquanto alimentam o nacionalismo e desviam a atenção de problemas sociais crônicos e violações de direitos humanos em seus países”, e que vem desde o pão e circo da Roma Antiga, depois passando pelos festivais esportivos da década de 1930 na Itália fascista e na Alemanha nazista, chegando à Copa do Mundo de futebol realizada sob a junta militar argentina em 1978, e, por fim, às edições modernas na Rússia, no Catar e na América do Norte.

Para quem já conhece o trabalho de Boykoff, boa parte disso provavelmente não será novidade. Ele é o Maradona das críticas às instituições esportivas exploratórias e já escreveu diversos livros sobre a corrupção persistente e socialmente nociva que corrói os megaeventos esportivos. Embora algumas de suas obras anteriores, como Power Games: A Political History of the Olympics (Jogos de Poder: Uma História Política das Olimpíadas), examinem com mais profundidade as origens do sportswashing contemporâneo, o contexto histórico ampliado que Red Card oferece sobre a Copa do Mundo é valioso, sobretudo por mostrar em que aspectos Trump se diferencia de exemplos anteriores.

Trump parece indiferente à ideia de construir legitimidade internacional ou desviar a atenção de violações de direitos humanos em seu próprio país. É claro que ele não se importaria se o torneio ajudasse a desviar os holofotes dos arquivos Epstein, e certamente lhe agrada estar associado a algo tão popular e cheio de prestígio no mundo todo como a Copa do Mundo. Mas Trump nunca foi do tipo que muda seu comportamento por causa da audiência, seja ela doméstica ou internacional.

Como um reflexo ampliado de sua própria presidência, Trump deu à luz a uma variante única de sportswashing, focada no oportunismo e na corrupção financeira escancarada, mas sem interesse algum em criar narrativas positivas na mídia. O Catar investiu enormes recursos para sediar a Copa do Mundo de 2022 com o objetivo de melhorar sua reputação internacional. Isso exigiu um esforço constante para administrar a cobertura crítica da imprensa internacional sobre as condições praticamente fatais enfrentadas por trabalhadores migrantes e uma preocupação permanente em garantir uma experiência segura e tranquila aos torcedores que compareceram ao torneio. O objetivo era mudar a percepção da opinião pública ocidental sobre a realidade do país.

Os Estados Unidos são um caso diferente. Às vésperas da Copa do Mundo, o país continua tão belicoso no exterior e tão duramente repressivo em seu próprio território quanto sempre foi, e Trump dá a impressão de não se importar se visitantes estrangeiros comparecerão ao torneio, muito menos se terão uma boa experiência, apesar de repetir constantemente que esta será a maior Copa do Mundo de todos os tempos.

Dada a análise cuidadosa que Red Card faz do sportswashing de forma geral, teria sido esclarecedor ver uma discussão com mais nuances sobre como Trump se encaixa em modelos anteriores, às vezes até rompendo com eles, e o que isso significa para a próxima Copa do Mundo. Da mesma forma, embora Boykoff faça um excelente trabalho ao situar a importância do esporte como um poderoso impulsionador cultural, econômico e político em um mundo cada vez mais inclinado à direita, a relação concreta entre esses dois aspectos poderia, por vezes, ter sido explorada com mais clareza.

“Sob o governo Trump, estamos testemunhando uma lenta queda rumo ao autoritarismo”, escreve Boykoff. “Sediar a Copa do Mundo contribui de forma inequívoca para esse sombrio declínio.” Mas seria possível estabelecer relações causais mais claras entre o regime repressivo de Trump e os mecanismos de organização deste torneio. Do contrário, por vezes, acabamos tendo a impressão de ser apenas uma lista de uma série de coisas ruins que ocorrem simultaneamente.

A administração Trump vem, de fato, enfraquecendo as instituições democráticas e matando manifestantes no período que antecede a Copa do Mundo. Como observa Boykoff, a designação de Evento Nacional de Segurança Especial (NSSE, na sigla em inglês), inicialmente decretada por Joe Biden em 2024 em preparação para os Jogos Olímpicos de Los Angeles de 2028, “concede ampla margem de atuação a diversos órgãos federais, incluindo o ICE”. O que não está claro, porém, é se Trump se interessa especificamente pelos poderes adicionais proporcionados pelo NSSE e se o endurecimento autoritário está diretamente relacionado à realização da Copa do Mundo.

Trump já demonstrava um forte viés repressivo mesmo antes da Copa do Mundo e, dado o caráter secundário do futebol no cenário esportivo dos Estados Unidos, o torneio não tem sido utilizado para justificar repressões a dissidentes com a mesma frequência observada em outros casos, em que a Copa se tornou um projeto nacional amplo. O evento foi moldado por esse contexto sombrio e latente, mas se ele realmente fomentou tendências autocráticas, como em outras Olimpíadas e Copas do Mundo, uma análise mais clara teria fortalecido a pesquisa já minuciosa e ponderada de Boykoff.

Sem Pão, mas com um Circo

Boykoff encerra Red Card com uma observação que deveria ser bastante óbvia, mas que há muito tempo foi abafada pelas milhares de histórias absurdas e deprimentes sobre a repressiva e corporativa deturpação que a Copa do Mundo enfrenta: os Estados Unidos simplesmente não deveriam sediá-la. Além de examinar o desenvolvimento histórico do sportswashing, o livro destaca os megaeventos esportivos como locais de luta popular e ímãs para protestos.

Embora a Copa do Mundo de 2026 não tenha recebido críticas globais como a do Catar em 2022, nem tenha sido associada a uma indignação nacional generalizada nos Estados Unidos como ocorreu nas Olimpíadas de 2016 no Brasil, Boykoff traça o perfil de diversos ativistas locais que se opõem à Copa do Mundo e a sua implementação gananciosa e, possivelmente, brutal. Zohran Mamdani, à frente da resistência de autoridades locais da cidade-sede contra a FIFA, demonstra que a resistência pode utilizar canais oficiais, além da ação popular.

Infelizmente, é muito pouco e muito tarde para fazer desta Copa do Mundo o evento popular que ela deveria ser. Mas também mostra que essas instituições podem ser combatidas – só precisamos agir com muito mais antecedência, com mais indignação e mais organização. Caso contrário, uma das últimas coisas boas que nos restam será usada para nos explorar e consolidar poderes despóticos. Red Card traça o caminho que nos trouxe até aqui. Prestar atenção à sua mensagem pode nos mostrar saídas no futuro

Original em https://jacobin.com/2026/06/fifa-world-cup-2026-trump-infantino

Traduzido por Anderson Santana, do Eol


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