Quando números apagam corpos: 30 anos da Parada LGBTQIAPN+ de São Paulo e a disputa pela estatística
Publicado em: 8 de junho de 2026
Zombieboy (@lopes_lm)/X
A 30ª edição da Parada do Orgulho LGBTQIAPN+ de São Paulo aconteceu no último domingo, 7 de junho de 2026, na Avenida Paulista. Trinta anos de história, de luta, de resistência. E o que os grandes veículos de comunicação escolheram como manchete? Um número: 36,8 mil pessoas, segundo o Monitor do Debate Político do Cebrap-USP em parceria com a ONG More in Common.
Este número passa distante dos milhões que tornaram a Parada de São Paulo, a maior do mundo, com público variando entre 2 e 4,5 milhões nas últimas duas décadas. A contestação dos números oficiais pelo movimento social expressa uma disputa pela autoridade de produzir o real — prática que o estudo de João Galbieri, intitulado “Das letras aos números: a produção de estatísticas e ativismos pelos movimentos LGBTI+”, identificou como central no repertório político do movimento LGBTQIAPN+ brasileiro contemporâneo.
Uma fotografia às 14h37 não é uma multidão
Para a contagem da Parada 2026, os pesquisadores selecionaram 27 imagens registradas às 14h37, que cobriram toda a extensão do evento sem sobreposição. O número de pico refere-se, portanto, a um único instante congelado no tempo, sem contemplar o fluxo total de pessoas que ocuparam a Paulista ao longo de horas de evento.
A metodologia usada pelo grupo é a Point to Point Network (P2PNet), que analisa imagens aéreas captadas por drone para identificar e marcar automaticamente as cabeças das pessoas. Para a contagem da Parada 2026, os pesquisadores selecionaram 27 imagens registradas às 14h37, que cobriram toda a extensão do evento sem sobreposição. O número de pico refere-se, portanto, a um único instante congelado no tempo, sem contemplar o fluxo total de pessoas que ocuparam a Paulista ao longo de horas de evento.
Esse é um dado fundamental que quase nenhum veículo explicou adequadamente: a contagem não mede o público total do evento, mas a concentração em um momento específico. Os próprios pesquisadores informaram que a metodologia apresenta precisão de 72,9% e acurácia de 69,5% na identificação de indivíduos. Há uma margem considerável de invisibilidade embutida no próprio instrumento, e essa invisibilidade recai desproporcionalmente sobre corpos em movimento, sobre quem chegou mais cedo, sobre quem saiu antes do pico oficial, sobre as multidões nas laterais dos trios, nos bares, nas calçadas e também nas ruas adjacentes, que costumam estar abarrotadas de gente, como é o caso das ruas Augusta e Frei Caneca.
A Parada paulistana envolve um fluxo de horas, de corpos que chegam e partem, que ocupam calçadas, bares, ruas adjacentes, uma dinâmica que nenhum snapshot aéreo capturaria com precisão.
O que o movimento social faz ao contestar os 36,8 mil é o que Emmanuel Didier e Cyprien Tasset, em “Pour un statactivisme. La quantification comme instrument d’ouverture du possible”, chamaram de estatativismo: um uso militante da quantificação que recusa entregar às instituições poderosas o monopólio sobre o que os números dizem, e que aposta na disputa dos dados como abertura de mundos possíveis.
Estudos como o já mencionado de João Galbieri e outros como a pesquisa de doutorado Thiago Coacci, demonstram que o movimento LGBTQIAPN+ brasileiro já opera dessa forma, produzindo seus próprios números para criticar as estatísticas oficiais do Estado e reivindicar políticas públicas na linguagem que o próprio Estado exige.
Três dias antes, a Marcha para Jesus
Na mesma semana, em 4 de junho, a 34ª edição da Marcha para Jesus reuniu, segundo o mesmo Monitor do Debate Político USP/CEBRAP e a ONG More in Common, aproximadamente 33,8 mil pessoas em São Paulo. A organização do evento, todavia, esperava 2 milhões de fiéis presentes.
O mesmo instrumento, a mesma metodologia, o mesmo grupo de pesquisa, aplicados a dois eventos com naturezas radicalmente distintas, realizados com três dias de intervalo, em contextos geográficos e logísticos diferentes, produzindo resultados numericamente próximos. No caso da Marcha, os próprios pesquisadores reconheceram que só foi possível registrar a concentração e o deslocamento, uma vez que o evento terminou em área próxima ao Campo de Marte, onde não é seguro usar drones. O pico do evento principal sequer foi capturado — e ainda assim os números foram amplamente divulgados e comparados.
Nenhum veículo problematizou a comparabilidade metodológica entre os dois eventos, tratando como equivalentes fenômenos com lógicas, escalas e contextos radicalmente distintos.
A narrativa que emerge pode soar como declínio: a Parada encolheu, a Parada se equiparou numericamente à Marcha. Mesmo os veículos que registraram a superação do público da Parada sobre o da Marcha o fizeram nos termos do Monitor, aceitando sem questionamento uma metodologia que trata como comparáveis dois eventos com lógicas, trajetórias e contextos radicalmente distintos. O instrumento de medição tornou-se árbitro, sem que ninguém refletisse sobre os riscos e limites de sua metodologia.
O apagamento como produção política do invisível
A 30ª edição da Parada aconteceu em meio a severos desafios financeiros e políticos. Segundo a APOLGBT-SP, a receita destinada à realização do evento caiu cerca de 60% entre 2025 e 2026, após a saída de grandes patrocinadores. Em 2025, a Parada contou com o apoio de 12 marcas. Em 2026, apenas três empresas participaram oficialmente do evento.
A 30ª edição da Parada aconteceu em meio a severos desafios financeiros e políticos. Segundo a APOLGBT-SP, a receita destinada à realização do evento caiu cerca de 60% entre 2025 e 2026, após a saída de grandes patrocinadores. Em 2025, a Parada contou com o apoio de 12 marcas. Em 2026, apenas três empresas participaram oficialmente do evento.
Menos patrocinadores, menos trios elétricos, mais pressão legislativa. A Câmara Municipal de São Paulo aprovou, em 20 de maio, o Projeto de Lei 50/2025, de autoria do vereador Rubinho Nunes, que prevê o fim da participação de crianças e a proibição da Parada em vias públicas, obrigando que a festividade aconteça em ambientes privados. Retirar a Parada das ruas é uma estratégia de invisibilização do movimento LGBTQIAPN+ no espaço público.
O pesquisador Diego Galego, em “Brazil’s LGBTQ public policy: A Potemkin policy?”, analisando vinte políticas LGBTQIAPN+ adotadas pelo executivo federal brasileiro entre 1996 e 2020, demonstra que elites políticas de diferentes espectros ideológicos sistematicamente manipulam instrumentos, ideias e atores para construir fachadas de avanço enquanto esvaziavam as condições reais de implementação. O estudioso denomina esse fenômeno de “política Potemkin”: a criação de aparências de progresso para observadores externos, enquanto os problemas estruturais que afetam a população LGBTQIAPN+ permanecem intocados. A aprovação de um projeto de lei municipal que expulsa a Parada das ruas públicas inscreve-se nessa longa série de manipulações, agora conduzidas de forma cada vez mais explícita e sem disfarces institucionais.
A quantificação opera sempre como produção do real, jamais como descrição neutra dele. A questão, portanto, não é se o drone conta bem ou mal, mas quem detém a autoridade de contar, o que escolhe registrar, e a serviço de qual narrativa o resultado é mobilizado. E aqui os números da USP cumprem uma função política que talvez seus autores não tenham pretendido, mas que o contexto torna inescapável: ao produzir e divulgar um número que o próprio movimento social contesta, fornece munição técnica e aparentemente neutra para um discurso de esvaziamento. “A Parada está encolhendo.” “A Parada quase empatou com a Marcha para Jesus.” “O movimento perdeu força.” Esses são os enquadramentos que circulam e ficam.
Trinta anos de Parada, reduzidos a 27 fotografias de drone às 14h37
A Parada de São Paulo nasceu em 1997 com duas mil pessoas. Em 2013, reuniu cerca de 5 milhões de participantes. É uma das maiores manifestações públicas do mundo, sobretudo porque é o resultado de décadas de organização política, de luta por direitos, de corpos que precisaram ocupar o espaço público para simplesmente existir.
Afirmar que havia 36,8 mil pessoas ontem na Paulista é uma escolha política sobre o que conta como mobilização presencial, sobre o que conta como movimento, sobre o que conta como resistência, sobretudo em tempos de recrudescimento do conservadorismo, avanço global da extrema direita e às vésperas das eleições (tema da Parada esse ano).
Pessoas LGBTQIAPN+ e aliadas estiveram lá, e a reivindicação de que essas pessoas somaram milhões ocupando aquela avenida constitui, em si, um ato político de disputa pela produção do real, portanto, uma forma legítima de luta pela abertura de mundos possíveis. Em uma realidade em que somos nós ativistas quem seguimos contando e quantificando nossos mortos pela violência, através dos dossiês de assassinatos, produzido pelos movimentos sociais, reivindicar a quantificação dos nossos números vivos, transbordantes em orgulho nas paradas, é seguir com a certeza da força da maior mobilização popular de rua do Brasil e com a nossa história em nossas próprias mãos.
Bruna Andrade Irineu é ativista LGBTQIAPN+, assistente social, professora e pesquisadora do Departamento de Serviço Social e do Programa de Pós-Graduação em Política Social da UFMT. É coautora de Diversidade Sexual e de Gênero e Marxismo (Cortez, 2024), obra finalista do Prêmio Jabuti Acadêmico; e de Violência Algorítmica e Vidas LGBTQIAPN+: ensaios sobre tecnologia, poder e resistência (ABETH, 2025).
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O artigo acima representa a opinião do autor e não necessariamente corresponde às opiniões do EOL. Somos um portal aberto às polêmicas e debates da esquerda socialista
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