O fim da Escala 6×1 e a encruzilhada do sindicalismo
Publicado em: 28 de maio de 2026
Ontem foi aprovada na Câmara dos Deputados a PEC que dá fim à escala 6×1, garantindo dois dias de descanso semanal e reduzindo a jornada de trabalho de 44 para 40 horas semanais sem redução de salários. Trata-se da mais impactante conquista dos trabalhadores desde a Constituição de 1988 e ocorre após um ciclo de grandes derrotas, como foi o caso da Reforma Trabalhista aprovada em 2017 durante o Governo Temer e a Reforma da Previdência aprovada pelo Governo Bolsonaro.
A transição de 14 meses aprovada pela Câmara começará a contar somente após a promulgação definitiva da PEC (quando ela virar lei) e funcionará em duas etapas: nos primeiros 60 dias, os dois dias de descanso semanal passam a ser obrigatórios e a jornada máxima cai de 44 para 42 horas semanais; em seguida, abre-se um prazo de mais 12 meses até que a carga horária atinja o limite definitivo de 40 horas semanais. Quanto ao rito legislativo, como a Câmara já encerrou sua votação aprovando o texto em dois turnos regulamentares, a proposta agora segue direto para o Senado Federal, onde passará pela Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) antes de ser votada, também em dois turnos, pelo Plenário dos senadores. Um novo turno na Câmara dos Deputados só voltará a acontecer caso os senadores decidam fazer modificações no mérito do texto; se o Senado aprovar a proposta exatamente como veio da Câmara, a PEC não retorna aos deputados e segue direto para a promulgação.
Estamos diante de uma inflexão histórica nos padrões de exploração que a burguesia impõe aos trabalhadores. O que vimos nesse último ano foi o conjunto de um setor historicamente precarizado da classe trabalhadora colocando um limite aos seus padrões e dizendo que em dois dias da sua semana, será ela mesma que decidirá o que fazer, se será ficar com a família, lazer, estudo, ou até mesmo complementação de renda, é uma decisão dela e não de seus patrões.
E a forma como uma reivindicação tão radical – e que há alguns anos era vista como inalcançável – foi mobilizada é o que mais chama atenção. Foi uma mobilização que iniciou nas redes sociais, inicialmente a partir do TikTok, com vídeos de um trabalhador de farmácias, hoje Vereador do Rio de Janeiro, Rick Azevedo denunciando a exaustão causada por essa escala, ganhando a maioria da classe trabalhadora especialmente da juventude. Mas e o movimento Sindical?
É evidente que o movimento sindical apoiou a luta pelo fim da escala 6×1. É evidente que os sindicatos de trabalhadores mobilizaram sua estrutura em iniciativas de ganhar a sociedade para essa pauta como foi o Plebiscito Popular ocorrido em 2025. Mas qual foi a influência real dos grandes sindicatos de trabalhadores na aprovação nessa retumbante vitória?
A verdade é que o movimento sindical vive uma encruzilhada. o movimento sindical sofreu com décadas de ofensiva ininterrupta da burguesia buscando o seu enfraquecimento e até mesmo sua desmoralização. Mas também é verdade que o movimento sindical vive uma estagnação na forma de fazer a luta, de se comunicar e de organizar os trabalhadores.
Enquanto existirem trabalhadores assalariados estruturas do tipo sindicais ainda serão necessárias, mas para que essas estruturas sejam efetivamente úteis aos trabalhadores elas precisam se adaptar, se rejuvenescer, colocar seus pés nos séc. XXI, mas especialmente compreender uma nova geração que está no mundo do trabalho e tem uma nova forma de se relacionar com o mundo mediada pelas redes sociais. Há uma nova sociabilidade, profundamente marcada pela revolução que foi a internet e a internet foi incorporada de forma muito precária pelo movimento sindical e em algumas categorias sequer foi incorporada.
Outro elemento dessa crise diz respeito a uma mudança estrutural no mundo do trabalho impulsionada por uma profunda reestruturação produtiva, que não foi acompanhada pelo movimento sindical. A força de trabalho brasileiro hoje está predominantemente concentrada no setor de serviços – setor com baixíssima sindicalização. O trabalho no interior dos serviços públicos foi profundamente alterado pela terceirização e pelas parcerias público privadas – setor no qual esses trabalhadores não são incorporados pelos sindicatos de servidores públicos.
A encruzilhada que se apresenta ao movimento sindical, portanto, não é meramente tecnológica ou geracional, mas de enraizamento social. A vitória contra a escala 6×1 demonstrou que a classe trabalhadora anseia por uma organização que dialogue diretamente com as dores e os afetos do seu cotidiano — com a exaustão física, o tempo roubado da convivência familiar, a impossibilidade do lazer e o direito ao futuro.
Para superar a estagnação e o isolamento em que foi empurrado pela ofensiva burguesa, o sindicalismo do século XXI precisa ir muito além do balcão de negociações corporativas e das disputas puramente salariais, que a inflação rapidamente corrói. É imperativo reconectar as estruturas sindicais com a totalidade das condições de vida do povo, transformando os sindicatos em polos de agitação e acolhimento que disputam a saúde mental, o transporte público de qualidade, a moradia digna e o próprio direito ao tempo livre.
A juventude precarizada do setor de serviços, moldada por uma nova sociabilidade e hoje dispersa nas redes, só se reconhecerá nessas entidades quando elas se tornarem ferramentas vivas e ágeis de combate à opressão diária. Fundir a energia e a organicidade que nasceram das redes com a musculatura material e a memória histórica dos sindicatos é o desafio urgente para transformar essa vitória histórica no estopim de um novo ciclo de ofensiva popular, provando que a luta de classes se faz reconquistando a dignidade da vida em cada esquina da sociedade.
Daniel Schiites – advogado, sócio do Schiites & Madeira Advocacia e militante da Semear, tendência do PSOL.
Mais lidas
brasil
30 de Junho: Dia Nacional de Mobilização pelo Fim da Escala 6×1 e pela Redução da Jornada de Trabalho sem redução do salário
editorial
O futebol resiste, apesar da FIFA e da CBF
colunistas
Semear, uma ferramenta revolucionária útil
mundo
Os Estados Unidos levam a Copa do Mundo a um Novo Patamar de Decadência
psol









