É preciso arrancar alegria ao futuro


Publicado em: 28 de maio de 2026

Coluna Gabriel Santos

Gabriel Santos é nascido no nordeste brasileiro. Alagoano, mora em Porto Alegre. Militante do movimento negro e popular. Vascaíno e filho de Oxóssi

Coluna Gabriel Santos

Gabriel Santos

Gabriel Santos é nascido no nordeste brasileiro. Alagoano, mora em Porto Alegre. Militante do movimento negro e popular. Vascaíno e filho de Oxóssi

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“Assim será o século XXI. Em seus começos, haverá sombras e luzes, mais sombras do que luzes.
Depois, o quadro se inverterá. A humanidade viverá tempos de grandes esperanças.”
João Amazonas

A humanidade, a partir de um dado momento que não foi registrado pela história, passou a refletir, pensar, desejar e até mesmo temer, o que está por vir.

Em outro momento, passou a dividir sua experiência com aquilo que começou a chamar de tempo. O que aconteceu se tornou passado, o que vive se torna presente e este vir a ser, que tanto gera sentimentos difusos, se torna o futuro.

Está vontade de compreender o que esta por vir faz parte da experiência humana. As cartomantes, as leituras de mão, os jogos de búzios para fugir ou entender nossas calamidades e tragédias, os profetas bíblicos que anunciam as boas novas, as profecias com ajuda das divindades sobre guerras e fim do mundo, revelam como essa ideia para entender o futuro esta fixada ao longo dos milênios.

É interessante observar que podemos achar traduções para o significado da palavra futuro em praticamente todos os idiomas. Em português, ela pode ser entendida como “o tempo depois do presente”. Mas, particularmente, gosto muito mais das noções em urdu مستقبل mustaqbil, em hindi भविष्य bhavishya, e da compreensão em mandarim 未来 wèilái, que significam respectivamente: o que deve ser enfrentado, o que se tornará, e o que ainda não chegou.

A noção de buscar, ou pelo menos entender, o que esta por vir parece ser muito antiga na história da humanidade, e algo universal, não ficando restrito a um ou dois povos específicos. A questão porém é, será que podemos entender o futuro, ou a capacidade de imaginar o mesmo, como um direito humano básico? Ou reformulando a pergunta, quem tem direito ao futuro no século XXI?

Essas não são questões menores. Diante da crise ambiental, das guerras cada vez mais cotidianas, da violência urbana, da precarização do trabalho, destruição de serviços públicos, do individualismo e crescimento do fascismo, toda uma geração perde a capacidade de sonhar com uma vida melhor e a única coisa possível de imaginar são a distopias de uma catástrofe global, como vendidas pela netflix.

O futuro, no mundo capitalista, existe ou estamos vivendo um eterno presente? É outra questão que podemos fazer. E se existir, esse futuro, será diferente ou melhor do que estamos vivendo hoje?

O capitalismo impõe sua concepção de tempo para as pessoas e para as sociedades. Nele, a única coisa que temos é um eterno presente. Vivemos sempre sem tempo. Sem tempo para descansar, para respirar, para pensar, para amar, para deixar a vida acontecer. Tempo é dinheiro e nós temos que otimizar os custos.

O capitalismo, ainda mais no mundo algorítmico, sequestra nosso futuro, e impõe uma urgência permanente, tudo é pra sempre agora mesmo.

Na linguagem do capital, o futuro é apenas uma extensão do presente. Se mede por passagens do calendário, mudança de um dia a outro, algo que chega a nós de forma involuntária.

Essa compreensão gera com que tenhamos uma atitude passiva diante do futuro. Ele deixa de ser algo que pode vir a ser, algo que vale a pena lutar, uma coisa que conquistamos, para se tornar um momento a mais que vem de forma automática. O futuro no capitalismo é conservador. Ele é ainda um fato particular, uma vitória individual, promoção, uma casa, um carro. De forma inversa, é preciso entender o futuro com um caráter coletivo, compartilhado entre a humanidade, e em especial entre os povos oprimidos e explorados.

Porém, na verdade o futuro é acima de tudo um campo de batalha, ele depende essencialmente de nossas ações. Não acontece fora das relações sociais. É algo que já está materializado no tempo presente, imerso e presente neste, lutando para surgir, criar e se realizar. Para nós, o futuro não é uma data no calendário, mas a materialização de uma ruptura com a situação das coisas dos dias atuais. Ele é a possibilidade do novo que vai nascer.

Esse novo é também o registro das lutas sociais e políticas por justiça e igualdade que a humanidade carrega. As memórias de vitórias, conquistas, avanços sociais, das greve operárias, das revoltas armadas, dos levantes camponeses, da luta contra o fascismo, das batalhas por libertação nacional. O sentimento e a busca por um outro futuro esteve presente nas lutas e sonhos em Palmares e nos quilombos, na Conferência de Bandung, mas também em Cuba quando Fidel e os guerrilheiros entraram em Havana, na Revolução de Outubro na Rússia, na grande marcha da Revolução Chinesa.

Hoje, nesse movimento entre o presente, lotado de desesperanças e as brigas entre os possíveis futuros, o da lógica do capital e aquele compartilhado pela humanidade, assistimos os valores da fraternidade, justiça social e igualdade, entrarem em crise. O individualismo é a regra, o consumismo é a lei, e o sonho de se tornar o próximo milionário organiza os sentimentos das multidões entre bets, jogos do tigrinho e onlyfans.

Tudo isto enquanto o capitalismo mostra sua face mais desumana. O neoliberalismo falhou, falha e falhará. Trabalhos precários se multiplicam. A moto se torna uma extensão do corpo do trabalhador uberizado. As promessas de mobilidade social já não se realizam. As desigualdades sociais aumentam e a lógica de acumulação do capital, em crise, já não sabe mais o que devorar.

A civilização Ocidental, materializada no bloco imperialista liderado pelos Estados Unidos, apresenta nítido declínio econômico e político. Na busca de impedir a humanidade e povos oprimidos de pensar um outro futuro livre de suas garras, o Império busca reforçar seu poder militar e cultural, tentando assim fazer com que o amanhã seja uma repetição do hoje. Assim, com o fascismo, o bloco Ocidental tenta recolonizar o globo. As agressões militares do imperialismo aumentam, a soberania dos países do Sul Global estão ameaçadas, e se busca fazer com que o capital privado reine absoluto devorando o direito de sonhar um futuro dos povos do globo.

No mundo, 690 milhões de pessoas vivem na extrema pobreza, cerca de 30% da população mundial sofre com insegurança alimentar, e metade sequer tem acesso básicos à saúde. Tudo isto enquanto os gastos militares se multiplicam pelos quatros cantos.

A humanidade hoje possui os recursos e conhecimento científico para erradicar de vez a fome, o analfabetismo e as doenças evitáveis. Porém, o que vemos é 12 bilionários possuírem a mesma quantidade de dinheiro do que metade da população mundial. O capital financeiro segue se reproduzindo livremente, fazendo com que alguns poucos acumulem mais e mais riquezas, enquanto bilhões fiquem presos à miséria.

É impossível e inaceitável enxergar estas condições com normalidade. A revolta e a busca por mudanças é justa. O sistema capitalista é injusto, desumano e leva o planeta para um abismo sem fim. Capitalismo e futuro se tornam cada vez mais palavras opostas e excludentes.

O revolucionário martinicano Frantz Fanon dizia que “cada geração deve, numa relativa opacidade, descobrir a sua missão, cumpri-la ou traí-la”. Nesse caso, aqueles que buscam um futuro teriam duas grandes missões. A primeira é compreender o tempo conturbado que vivemos, de ascensão de uma extrema-direita, de uma crise do capitalismo e decadência do mundo ocidental. A outra é a capacidade de gerar e criar esperança. Esperança em si, nos outros e nas multidões. Sem esperança de melhora, a indignação, a raiva, não se tornam lutas, e as possibilidades de mudança não se realizam. Gerar a esperança é mostrar a possibilidade de que a sociedade pode ser diferente, mas ser inventivos criando novas formas para o futuro dentro do mundo atual.

A burguesia quer transformar o futuro em uma prisão do presente. Em uma junção de medo, angústia e pessimismo. Já nós, queremos transformar o futuro em esperança, em uma ação cotidiana, em uma orientação militante e também em um lugar.

A esperança e o direito ao Futuro não podem ser artigos de luxo e exclusividade da elite econômica. Se o futuro é aquilo que está por vir a ser, ele é impermanente, ele está em constante mudança, ele não tem identidade física e pode sempre vir a se tornar algo diferente. Ele não é estável, mecânico ou predeterminado por uma lei divina. O futuro é uma possibilidade moldada pelas ações humanas. De tal modo, o futuro pode ser mais que um sentimento, mas também uma prática. Uma prática que misture a ideia do que se busca com a ação constante rumo a esta no dia a dia.

O futuro deve se tornar aquele lugar, ali deitado no horizonte, onde a utopia repousa e descansa. E é para este lugar, chamado futuro que nós caminhamos, e ele não demora para chegar.


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