Resposta social à contaminação dos produtos Ypê relembra que o bolsonarismo é um perigo à saúde pública


Publicado em: 16 de maio de 2026

Coluna Saúde Pública Resiste

Uma coluna coletiva, produzida por profissionais da saúde, pesquisadores e estudantes de várias partes do País, voltada ao acompanhamento e debate sobre os ataques contra o SUS e a saúde pública, bem como às lutas de resistência pelo direito à saúde. Inaugurada em 07 de abril de 2022, Dia Mundial de Luta pela Saúde.<br />
Ana Beatriz Valença: Enfermeira pela UFPE, doutoranda em Saúde Pública pela USP e militante do Afronte!;<br />
Jorge Henrique: Enfermeiro pela UFPI atuante no DF, especialista em saúde coletiva e mestre em Políticas Públicas pela Fiocruz, integrante da Coletiva SUS DF e presidente do Sindicato dos Enfermeiros do Distrito Federal;<br />
Karine Afonseca: Enfermeira no DF e mestre em Saúde Coletiva pela UnB, integrante da Coletiva SUS DF e da Associação Brasileira de Enfermagem, seção DF;<br />
Lígia Maria: Enfermeira pela ESCS DF e mestre em Saúde Coletiva pela UnB. Também compõe a equipe do Programa de Interrupção Gestacional Prevista em Lei do DF;<br />
Marcos Filipe: Estudante de Medicina, membro da coordenação da Direção Executiva Nacional dos Estudantes de Medicina (DENEM), militante do Afronte! e integrante da Coletiva SUS DF;<br />
Rachel Euflauzino: Estudante de Terapia Ocupacional pela UFRJ e militante do Afronte!;<br />
Paulo Ribeiro: Técnico em Saúde Pública, mestre em Políticas Públicas e Formação Humana e doutorando em Serviço Social na UFRJ;<br />
Pedro Costa: Psicólogo e professor de Psicologia na Universidade de Brasília;

Coluna Saúde Pública Resiste

Saúde Pública resiste

Uma coluna coletiva, produzida por profissionais da saúde, pesquisadores e estudantes de várias partes do País, voltada ao acompanhamento e debate sobre os ataques contra o SUS e a saúde pública, bem como às lutas de resistência pelo direito à saúde. Inaugurada em 07 de abril de 2022, Dia Mundial de Luta pela Saúde.<br />
Ana Beatriz Valença: Enfermeira pela UFPE, doutoranda em Saúde Pública pela USP e militante do Afronte!;<br />
Jorge Henrique: Enfermeiro pela UFPI atuante no DF, especialista em saúde coletiva e mestre em Políticas Públicas pela Fiocruz, integrante da Coletiva SUS DF e presidente do Sindicato dos Enfermeiros do Distrito Federal;<br />
Karine Afonseca: Enfermeira no DF e mestre em Saúde Coletiva pela UnB, integrante da Coletiva SUS DF e da Associação Brasileira de Enfermagem, seção DF;<br />
Lígia Maria: Enfermeira pela ESCS DF e mestre em Saúde Coletiva pela UnB. Também compõe a equipe do Programa de Interrupção Gestacional Prevista em Lei do DF;<br />
Marcos Filipe: Estudante de Medicina, membro da coordenação da Direção Executiva Nacional dos Estudantes de Medicina (DENEM), militante do Afronte! e integrante da Coletiva SUS DF;<br />
Rachel Euflauzino: Estudante de Terapia Ocupacional pela UFRJ e militante do Afronte!;<br />
Paulo Ribeiro: Técnico em Saúde Pública, mestre em Políticas Públicas e Formação Humana e doutorando em Serviço Social na UFRJ;<br />
Pedro Costa: Psicólogo e professor de Psicologia na Universidade de Brasília;

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Por Lígia Maria, de Brasília-DF

No início do mês de maio, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) determinou a suspensão da fabricação, distribuição, comercialização e uso, bem como o recolhimento de saneantes da marca Ypê. A medida resultou de diligência realizada junto às instâncias sanitárias estadual e municipal, que identificou descumprimentos relevantes de etapas críticas da cadeia produtiva, com possibilidade de contaminação microbiológica.

As imagens da inspeção evidenciam infrações sérias às boas práticas de fabricação, que tornam irrisória a resposta da fabricante afirmando que as áreas avaliadas como inadequadas não têm aproximação com os produtos. O conhecimento básico sobre as recomendações de boas práticas na cadeia produtiva permite a compreensão de que a adequação da fábrica é uma urgência e a interrupção dos produtos, uma providência necessária.

Caso de contaminação após contato com detergente da marca já foi documentado e é investigado pela vigilância epidemiológica. Ainda assim, imagens de pessoas supostamente ingerindo detergente ou passando o produto no corpo não param de surgir nas mídias digitais

Caso de contaminação após contato com detergente da marca já foi documentado e é investigado pela vigilância epidemiológica. Ainda assim, imagens de pessoas supostamente ingerindo detergente ou passando o produto no corpo não param de surgir nas mídias digitais – o que motiva a Anvisa a avaliar medidas jurídicas. A resposta ocorre após bolsonaristas disseminarem que a medida sanitária se trata de perseguição à Ypê pelo apoio prestado à campanha de Jair Bolsonaro, em 2022, motivando propaganda contrária aos cuidados sanitários promovidos pela política de vigilância em saúde.

Além de irresponsável do ponto de vista da preservação da saúde de consumidores, a partidarização da medida sanitária e a reincidência de oposição à Anvisa se inscreve no contexto de negacionismo científico e obscurantismo político, latente durante a pandemia de covid19 – quando chegou a resultar em tentativa de interferência política na gestão da Agência. À época, o bolsonarismo empenhou esforços para descredibilizar a Anvisa enquanto atuava sobre o acesso à vacinação para a população brasileira, adicionalmente ao trabalho realizado junto a setores do Ministério da Saúde para frear pesquisas antiéticas com seres humanos, as quais buscaram favorecer a comercialização de medicamentos inefetivos para infecções virais, cujo objetivo era o enriquecimento ilícito de grupos empresariais ligados ao bolsonarismo, à custa da vida do povo brasileiro.

O alvo comum aos dois ataques, um organismo sanitário, inscreve-se na tradição brasileira de vigilância em saúde, constituída pelo avanço da saúde pública enquanto direito fundamental e do Sistema Único de Saúde (SUS) como expressão de um marco civilizatório. A Reforma Sanitária Brasileira, para além de um amplo movimento que estruturou a organização da oferta de ações e serviços de saúde no Brasil no contexto de redemocratização, está no bojo da elaboração coletiva de um projeto emancipatório de sociedade – projeto este cuja efetivação é, ainda, dependente de uma convocatória atual de continuidade de seu processo e disputa de seus rumos.

Neste sentido, a atuação sanitária brasileira se expressa na contenção da incidência do mercado sobre a saúde coletiva, cujos limites são frágeis ante ao confronto entre a lógica mercantilista de organização do sistema de saúde e aquela focada na promoção de políticas públicas que aportam dignamente a população de condições determinantes à sua saúde. Agrava-se este quadro pela voracidade cada vez mais contundente com a qual atua o setor econômico sobre as políticas públicas, diante das múltiplas crises do capital. No período pandêmico, essa batalha em torno do modelo de atenção à saúde era mais evidente, diferentemente do cenário atual que torna esta apenas uma variável no conjunto da saúde enquanto um complexo campo de disputa democrática.

O uso frequente de cuidados em saúde e medidas sanitárias como elemento de contraposição ideológica polarizada expõe a habilidade da extrema direita em absorver uma temática transversal e extremamente sensível como ferramenta de propaganda, que profere como frágeis e dubitáveis a ciência, as políticas públicas e, afinal, os direitos fundamentais à vida digna. Estando o neofascismo – enquanto fenômeno político-social com intervenção significativa nas instituições do Estado – compreendido como empreendedor de ampla ofensiva contra as condições de vida e trabalho em benefício de um projeto antidemocrático direcionado à barbárie, a resposta ao seu uso da saúde pública como mecanismo de disputa social é insuficiente quando concentrada na sátira e, até mesmo, na ridicularização.

Certamente o algoritmo impõe a adaptação da comunicação política à linguagem das mídias digitais, porém a avalanche de memes que idiotizam ou psicopatologizam a reação bolsonarista em detrimento do uso do espaço digital para a promoção de educação em saúde e comunicação científica endossa o sucesso da ação bolsonarista, que obteve ampla repetição e cujo êxito se mostra nas afirmações públicas de dúvidas sobre a confiabilidade da medida sanitária. O uso excessivo dessa forma de resposta à propaganda negacionista aparenta que a maneira como setores organizados da extrema direita utilizam o campo sanitário para mobilização social em torno de suas concepções seja de segunda importância – e este é um risco que não se pode mais assumir.

limpar o Brasil do bolsonarismo ainda é a medida sanitária mais urgente a ser implementada

A saúde é pauta prioritária para a população e, por isso, é tão visada pela extrema direita como ferramenta de propaganda, cujos mecanismos não renunciam ao negacionismo científico e ao obscurantismo político. Estas expressões neofascistas tornam o diálogo popular desafiador, exigindo inovação na comunicação em saúde que fomente a consciência coletiva sobre a relevância do SUS para o povo brasileiro e suas maneiras de atuação, a saúde pública enquanto uma conquista democrática, a ciência como garantidora de avanços sociais e econômicos. Uma comunicação político-sanitária que dispute a consciência coletiva ao se amparar na vida cotidiana da população, exemplificando o usufruto diário da política de saúde, pode pavimentar o diálogo em direção à denúncia do projeto neofascista no Brasil. Esta é, cada vez mais, uma exigência, posto que limpar o Brasil do bolsonarismo ainda é a medida sanitária mais urgente a ser implementada.


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