“Tá no inferno, abraça o capeta” – Sobre o uso de Inteligência Artificial pela esquerda no Brasil


Publicado em: 31 de março de 2026

por Edji Elisa Mendonça Dias, juventude SEMEAR

Esse post foi criado pelo Esquerda Online.

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“Podem nos matar, mas não podem matar nossas ideias”.
Não tenham mais tanta certeza disso.

Há uma popularização crescente do uso de Inteligência Artificial pela população brasileira. Se antes achávamos que as IAs e o avanço da tecnologia viriam para substituir o trabalho braçal, como ocorreu nas últimas revoluções industriais/tecnológicas, já se tornou óbvio que o que já está sendo substituído é o trabalho artístico, é o trabalho de pensar e escrever, é o trabalho de refletir.

É compreensível (mas não deve ser normalizado) que esse uso aumente, tendo em vista que: 1. para uma parcela da população pode ser caro consumir arte ou pagar por um design profissional; 2. o Brasil avança muito vagarosamente em direção a uma educação voltada para os chamados “saberes digitais” e regulamentação da internet; 3. no caso acadêmico, a cobrança por produção de textos é muito alta, ao mesmo tempo que, com a proletarização das universidades através de políticas como cotas e permanência (que são de extrema importância), a quantidade de estudantes que precisam estudar e trabalhar é mais alta, o que diminui seu tempo de dedicação a escrita e pesquisa. Ou seja, a dinâmica universitária não se adaptou à realidade dessas pessoas, ou repensou sua concepção de “produtividade”.

Esses são alguns dos fatores que contribuem para o fato de que hoje já é possível ir ao Centro da cidade e encontrar um pano de prato com um desenho de IA impresso. Nenhum/a artista foi pago/a para fazê-lo, mas com certeza artistas tiveram sua forma de expressão e identidade roubadas para que o Chat GPT gerasse aquela imagem. Há tempo não vivenciamos só a alienação dos meios de produção, a ruptura do metabolismo social. Vivenciamos a alienação de nós. Não nos vendemos mais por dinheiro apenas, somos alienades de outras maneiras, pois o que compõe a gente e vai parar na internet ou em bancos de dados de empresas (muitas vezes sem nosso consentimento), está sendo comercializado por bilionários.

Essa dimensão de como as IAs e Big Techs estão dominando cada vez mais a nossa subjetividade é perigosa, é nítido. Mas escrevo esse texto para pensar essa dominação especificamente no campo da esquerda. Cada dia que passa vejo mais e mais organizações, mandates de esquerda, o próprio governo federal e sindicatos utilizando IA. Seja para fazer “desenhos fofos”, participar de trends que dão engajamento, fazer memes, capas de livros, cartilhas e escrever textos (até mesmo de panfletos). Não são organizações que precisam fazer esse uso por falta de verba, isso tem sido uma ingrata escolha.

Esse uso indiscriminado pode parecer inofensivo, mas carrega contradições que precisam ser refletidas entre nós. Uma das primeiras atividades da esquerda é escrever, é fazer jornal, debates internos, panfletos, artes de todos os tipos, tamanhos, formatos e suportes. Essa atividade nos faz imaginar, criar, formar militantes, consolida nossas ideias em nossa cabeça e em nosso coração. Fazer texto por IA é deixar a IA “pensar” por você.

Escrevo esse texto pensando na relação de Leon Trotsky com o movimento surrealista, principalmente a partir do manifesto Por Uma Arte Revolucionária Independente (1938). A arte é uma ferramenta revolucionária muito importante. Ela tem a capacidade de fazer a gente sonhar e imaginar um mundo novo. Fazer “arte de IA” é não só definhar a capacidade de sonhar, como também desvalorizar quem produz arte, quem trabalha com isso. Fazer “arte” por IA é deixar a IA “sonhar” por você.

“A oposição artística é hoje uma das forças que podem com eficácia contribuir para o descrédito e ruína dos regimes que destroem, ao mesmo tempo, o direito da classe explorada de aspirar um mundo melhor e todo sentimento da grandeza e mesmo da dignidades humana.” (BRETON, 1985. p. 33)

Nota-se que os problemas que trago com centralidade nesse pequeno texto nem sequer dizem respeito a outros problemas catastróficos das IAs, como a sua notável contribuição para o colapso climático (consumo excessivo de água, roubo de terras de comunidades tradicionais, mineração desenfreada para construção de Data Centers), o roubo de dados e informações na internet, além do seu uso para propagar violências contra minorias sociais, inclusive usando imagens de crianças para alimentar redes de pedofilia. Todos esses são problemas que alimentamos quando utilizamos IA, pois fortalecemos ela.

Precismos parar de usar Inteligência Artificial, principalmente na nossa atividade política. Precisamos cobrar que essa tecnologia seja regulamentada e restrita. Precisamos preservar o desenvolvimento do pensamento crítico.
“A arte verdadeira, a que não se contenta com variações sobre modelos prontos, mas se esforça por dar uma expressão às necessidades interiores do homem e da humanidade de hoje, tem que ser revolucionária, tem que aspirar a uma reconstrução completa e radical da sociedade, mesmo que fosse apenas para libertar a criação intelectual das cadeias que a bloqueiam (…)” (BRETON, 1985. p. 32)

REFERÊNCIAS:
BRETON, André. Por uma arte revolucionária independente. São Paulo: Paz e Terra; CEMAP, 1985.


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