Pular para o conteúdo
Colunas

Militância e riscos

Georgeia Prates / Cobertura Frentes de Luta

Manifestação em Curitiba, em 19 de junho

Valerio Arcary

Professor titular aposentado do IFSP. Doutor em História pela USP. Militante trotskista desde a Revolução dos Cravos. Autor de diversos livros, entre eles O Martelo da História.

A sorte sorri para a audácia
Sabedoria popular francesa

Não há militância de esquerda sem riscos. A luta social é uma disputa de posições de força e consciências contra inimigos poderosos e tem consequências. Seja qual for a tática de ação, a forma de luta, o formato do protesto nunca há plena segurança. Sem alguma afoiteza não há militância. A esquerda deve se orgulhar de seu ímpeto, arrojo e coragem.  

Mas a pandemia coloca o risco em outro patamar. Um Ato de cinquenta mil agora corresponde ao que seria a presença de três, quatro, cinco vezes mais pessoas em condições normais. Quatrocentos mil equivalem a mais de um milhão. Desde a fase final da luta contra a ditadura militar, nos idos do final dos anos setenta, esta é a conjuntura em que os riscos são mais elevados. Até a possibilidade de confronto contra a repressão é sempre, potencialmente, real como se viu no dia 29M em Recife.

Estamos no auge de uma segunda onda, ou até começo de uma terceira, com mais de setenta mil contágios e mais de duas mortes diárias. O risco de contágio de quem vai aos Atos é real. A forma tática de Atos de rua com passeatas ao final, mesmo com todos os cuidados sanitários, pode diminuir, mas não anula o risco, porque permanece elevada a possibilidade de contágio. Este contexto agiganta o significado da manifestação nacional de sábado 19J, e o impacto de sua repercussão.  

Riscos podem e devem ser calculados. Desde a preparação dos Atos de 29 de maio esta discussão atravessou a esquerda com responsabilidade. O que é notável, até admirável, é que apesar de diferenças de estratégia entre as organizações, e elas existem e são sérias, prevaleceu a unidade tática de assumir os riscos, e decidir convocar as manifestações. 

Prevaleceu a ousadia. Sem esta unidade tática na Frente Única de Esquerda não teriam sido possíveis Atos tão massivos. Nenhum movimento, partido ou Frente sozinha teria, neste momento, a autoridade suficiente para impulsionar, entusiasmar, galvanizar manifestações tão grandes, em escala nacional e internacional tão ampla e tão capilarizadas por mais de quatrocentas cidades. 

A campanha pelo Fora Bolsonaro nos coloca diante de riscos políticos e riscos individuais. Os riscos políticos devem ser considerados, rigorosamente, porque são incontornáveis. A máxima gravidade da hecatombe sanitária e a dinâmica de enfraquecimento do governo Bolsonaro impuseram a necessidade de voltar às ruas. Uma janela de oportunidade de construir um movimento pelo impeachment exigiu, depois da chacina do Jacarezinho, a convocação do 29M. E, na sequência, o 19J confirmou que era possível. 

 Não houve uma explosão qualitativa na participação, mas a inflexão positiva na relação de forças consolidou um novo momento na conjuntura, ainda no marco de uma situação defensiva. Atos maiores e em mais cidades. A convocação de um novo dia nacional de manifestação para 24 de julho sinaliza que um processo de luta pelo impeachment está em curso. Não é iminente a queda de Bolsonaro, mas estamos acumulando forças. Aguardar, passivamente, o calendário eleitoral de 2022 seria um erro de estratégia, um “quietismo” perigoso, porque podemos perder a oportunidade de desgastar Bolsonaro em seu momento mais frágil.

Os riscos individuais merecem ser, também, equacionados. Fazemos cálculo de riscos. Aqueles entre nós que já tomaram a vacina, ou são mais jovens e saudáveis correm menos riscos. Aqueles mais vulneráveis têm menos liberdade de escolha. Nossos camaradas e amigos mais idosos, que sofrem com comorbidades devem se proteger. Trata-se de uma divisão de tarefas. Não diminui ninguém se poupar de não ir a um Ato, quando o risco é grande demais. Construímos coletivos, justamente, porque juntos somos mais fortes. Por isso, tomamos decisões juntos. Não é falta de coragem, é sensatez e maturidade. A ousadia não anula a prudência. A audácia não anula a cautela. Fazemos cálculos. 

Sempre há dois perigos quando refletimos sobre os riscos. O primeiro é o perigo de sucumbir à omnipotência. A omnipotência é uma ilusão de poder, grandeza, ou invulnerabilidade. Uma militância consciente é aquela que valoriza o voluntarismo, mas não idealiza as condições da luta, não se embriaga com fantasias de autoengano, não confunde seus desejos com a realidade. Estudamos as circunstâncias em que atuamos para poder transformá-las. 

Não estamos em uma situação pré-revolucionária. Estamos construindo um movimento para sair da defensiva. Não é a hora de “tudo ou nada”. Na medida em que a vacinação aumentar serão mais favoráveis as condições para as mobilizações de massas. Cada militante, cada quadro, cada dirigente em nossas organizações tem imenso valor. Não podemos arriscar, irresponsavelmente, as vidas dos militantes com menos saúde.    

O segundo é o perigo de sucumbir a pensamentos paranoicos. A paranoia é uma mania de perseguição que paralisa a capacidade de agir e agiganta, desproporcionalmente, os riscos. Eles existem, mas não devemos nunca exagerar. Existem sempre tendências e contra-tendências na realidade. A ciência do marxismo é uma análise compreensiva das contradições, mas é inescapável uma síntese que indica a dinâmica. O que fazer é a arte da política revolucionária.

O desafio é construir a preparação das próximas manifestações de 24 de julho pelos locais de trabalho, no chão das fábricas, nos bairros populares, nas assembleias em escolas e universidades, na agitação nas grandes concentrações, nas conversas pessoais e nas reuniões virtuais.

A hora é de avançar.