Entrevista: importância e desafios do sindicalismo
Publicado em: 9 de setembro de 2020
Antes da pandemia, a professora do Departamento de Ciência Política da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas) Andreia Galvão concedeu esta entrevista, que trata da importância e desafios do movimento sindical, diante da ofensiva neoliberal de ataques aos direitos e à livre organização dos trabalhadores, através dos sindicatos e outros movimentos. Com a pandemia, agravaram-se as condições do mercado de trabalho já deteriorado pela crise econômica e pela reforma trabalhista. Nesse contexto, a entrevista da professora é atualíssima e obrigatória para compreendermos o papel que o movimento sindical pode desempenhar nessa conjuntura.
Jornal Expresso (J.E.) – Com as mudanças observadas no mercado de trabalho, sobretudo após a reforma trabalhista de 2017, o movimento sindical perde a razão de ser?
Andreia Galvão (A.G.) – Com as mudanças observadas no mercado de trabalho, sobretudo após a reforma trabalhista de 2017, o movimento sindical perde a razão de ser?
De forma alguma. O sindicalismo é um movimento vital para organizar e representar os interesses dos trabalhadores junto aos patrões e ao Estado. Enquanto vivermos em uma sociedade capitalista, haverá exploração do trabalho, e consequentemente contradição entre capital e trabalho. Porém, é preciso reconhecer que o surgimento de novas formas de trabalho extrapola o trabalho assalariado e traz dificuldades para a organização sindical. Nesse sentido, a queda nos indicadores de greve e nas taxas de sindicalização não significa a pacificação das relações de trabalho, pois as formas de resistência não se limitam às greves.
A queda do emprego assalariado, o aumento do emprego no setor de serviços, a expansão da informalidade, a multiplicação de contratos precários, são fruto da dinâmica do capitalismo mas não condenam o sindicato ao desaparecimento, não o tornam algo irrelevante, pelo contrário. A deterioração das condições de trabalho e de vida tornam o sindicato mais do que nunca fundamental. Certamente, o movimento sindical tem muitos desafios a enfrentar. Além das mudanças nas relações de trabalho, vivemos sob o signo de uma política de austeridade que busca reduzir direitos e dificultar o acesso aos benefícios da proteção social. A ideologia neoliberal estimula a busca de saídas individuais, o empreendedorismo.
Somos iludidos pela ideia de que a uberização é o melhor dos mundos, que nos garante autonomia e liberdade, que através desse modelo nos convertemos em “patrões de nós mesmos”. Mas essa é uma falácia, pois nos tornamos cada vez mais desprotegidos e vulneráveis, vivemos em uma sociedade cada vez mais fraturada e competitiva. A ideologia neoliberal dificulta a defesa de direitos, o que talvez explique a facilidade com que a reforma trabalhista do Temer foi implementada. Há uma aceitação acrítica da tese de que é preciso flexibilizar as relações de trabalho, que a Constituição de 1988 não cabe no orçamento, que o Estado não deve se intrometer nos assuntos do mercado, mas a questão é: de rebaixamento em rebaixamento, de perda em perda, onde vamos parar?
A ideia de que nem o Estado, nem o sindicato, nem outra forma de organização coletiva resolve os problemas da sociedade estimula o salve-se quem puder e enfraquece a democracia. Mas a deterioração das condições de trabalho e de vida só pode ser combatida de forma política e coletivamente, de modo que o sindicato é mais do que nunca um ator fundamental. Desse modo, assim como a forma sindical mudou desde o surgimento do sindicalismo (sindicato de ofício, de indústria, geral), ela pode vir a mudar novamente.
J.E. – Quais os desafios que se colocam para o sindicalismo no século XXI?
A.G. – São vários. Vou indicar alguns, mas isso não significa que haja uma ordem a ser seguida, pois eles precisam ser enfrentados simultaneamente, já que um é condição para o sucesso do outro. O primeiro talvez seja o de organizar os desorganizados. O sindicato precisa encontrar formas de representar os informais, os precários, os desempregados, bem como aumentar sua inserção junto aos jovens, mulheres e minorias étnicas (inclusive entre os migrantes); precisa levar em conta as diferentes categorias de trabalhadores, regidas por formas contratuais distintas. Precisa construir um sentido de solidariedade, de pertencimento coletivo, nas condições heterogêneas de trabalho que temos no século XXI, a fim de superar o isolamento, a fragmentação.
O segundo me parece ser a necessidade de politização, de combate à ideologia neoliberal, da defesa intransigente de direitos, a serem assegurados pelo Estado. O terceiro é a incorporação de demandas que extrapolam o local de trabalho, pois o terreno de luta não se limita à economia, nem se circunscreve à empresa, mas se estende à sociedade como um todo. Nesse sentido, a articulação do plano da produção e da reprodução, a incorporação de demandas relativas às condições de vida dos trabalhadores (educação, saúde, moradia, transporte), a consideração das questões de classe, gênero e raça, de modo a promover o combate às discriminações, a luta contra todos os modos de dominação e opressão, me parece essencial. Para isso, a relação com outros movimentos sociais é imprescindível: movimento étnico, feminista, ambientalista, de moradia, luta pela terra…
A atuação para além do plano nacional, de modo a construir uma solidariedade em âmbito internacional, também é importante, já que o capital se desloca com facilidade e chantageia permanentemente os trabalhadores a abrirem mão de direitos sob pena de encerrar suas unidades de produção e transferi-las para países em que as condições de trabalho sejam mais rebaixadas e aviltantes.
Por fim, no caso do Brasil, devido à recente reforma trabalhista e às decisões do atual governo referentes ao financiamento do sindicato, a fusão de organizações poderia ser uma possibilidade. A unificação de categorias profissionais permitiria ampliar a base de representação, encontrar novas fontes de sustentação financeira, aproximar os trabalhadores precários e os, digamos assim, trabalhadores regulares, e fortalecer os sindicatos.
*Entrevista realizada pelo Jornal Expresso
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