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Por um feminismo afro-latino-americano: Lélia González

Martina Gomes

 

E o risco que assumimos aqui é do ato de falar com todas as implicações. Exatamente porque temos sido falados, infantilizados, que nesse trabalho assumimos nossa própria fala.

(LÉLIA GONZÁLEZ, 1984. Racismo e sexismo na cultura brasileira).

Em passagem recente pela cidade de São Paulo (Brasil) , no mês de outubro de 2019, em uma série de conferências realizadas, Angela Davis, uma das principais referências do feminismo negro, chamou a atenção de milhares que a ouviam com “idolatria”, para o fato de que as feministas brasileiras deveriam valorizar Lélia González e muitas outras ativistas e intelectuais da luta feminista e antirracista no país. Sem dúvida, a história de Lélia se confunde com a história da organização do movimento negro no Brasil e da análise sobre a relação entre sexismo e racismo.

Lélia, mulher, negra, filha de índia e negro operário em Minas Gerais, mudou-se, aos sete anos de idade, para a cidade do Rio de Janeiro. A décima sétima filha de um total de dezoito foi agraciada pela ascensão social do irmão jogador de futebol do Flamengo. Foi essa condição que deslocou Lélia, menina negra, do “lugar de negro” na década de 40 no país. Mesmo na condição de babá por alguns meses (exercendo o cuidados de outras crianças), cursou o jardim de infância, algo raro para crianças negras naquele período. O jardim seria só o início, pois nas décadas de 40 e 50 concluiu seus estudos com graduação em História e Geografia e fluência em três línguas distintas: espanhol, francês e inglês. Estar fora do “lugar de negro”, tradicionalmente sendo a exclusão social, fez com que Lélia apenas tomasse consciência da sua condição racial, ou como ela mesmo dizia, “do seu corpo negro”, no final da década de 60, início de 70 com a morte repentina de seu companheiro “González” que havia enfrentado a família que não aceitava que ele se cassasse com Lélia pelo fato da mesma ser negra, negando a possibilidade de um casamento inter-racial, algo muito combatido na época. No fervor de dores pessoais e a ebulição de um movimento emergente, Lélia tornou-se na década de 70 e 80 uma “negra em movimento”, assim sendo, sujeito constituinte do movimento negro moderno no Brasil.

Professora universitária, ministrou o primeiro Curso de Cultura Negra no Brasil pela UFRJ em 197. Lélia estudou e vivenciou a fundo a negritude a partir das religiões afro, em especial o candomblé, algo que tornou-se na sua produção referência política e imagética. Vinculou-se às principais expressões culturais, como o Carnaval, produzindo junto com Nei Lopes o samba-enredo “A revolta dos Malês”. Esteve, desde então, vinculada aos movimentos de cultura com inspiração afro de diferentes vertentes e formas.

Como professora universitária dedicou seus estudos na área da história, filosofia para compreender a identidade negra no Brasil e suas particularidades, teve intensa produção entre 1977 e 1988. Além de inúmeros artigos de jornais e encartes publicou também os livros “Lugar de Negro”(1982)  e “Festas Populares no Brasil” (1987). Afrontou a academia de maneira irreverente com o “Pretuguês”, segundo Lélia “…o português que falamos aqui é diferente do de Portugal. Nosso português não é português, é PRETUGUÊS!”, assim falava da influência do português falado por negros e negras no país. Desta forma, produziu uma série de artigos e conferências, em especial na década de 70 e 80, com gírias e dialetos para assim também ampliar a sua comunicação com um público geral para além dos muros da universidade. E foi para além deste muros que Lélia acabou tornando-se uma das principais expressões da luta das mulheres negras no Brasil. Ela sabia que não bastava apenas o trabalho teórico, era necessário também uma intervenção social. A práxis política foi a marca de uma mulher que tomou consciência de sua negritude e dedicou o resto da sua vida a conscientizar da desigualdade racial e sexista que assola a vida das mulheres brasileiras.

O período da ditadura Militar teve como sua superação o surgimento de poderosos movimentos sociais. É no escopo da luta democrática que o movimento negro se reorganiza no Brasil. Nas escadarias do teatro municipal de São Paulo, em julho de 1978, é fundado o Movimento Nacional Unificado (na época MNCDR). Lélia foi parte deste momento, assim como integrou o coletivo de militante que, junto com outros grupos do país, como o Palmares do Estado do RS, deram origem à data do 20 de novembro como Dia Nacional da Consciência Negra, em contraposição à data do 13 de Maio.

Lélia expressa a busca das feministas negras no Brasil por serem identificadas como mulheres que sofrem com o sexismo de maneira distinta do feminismo tradicional. Lélia, juntamente com Beatriz Nascimento e tantas outras, cunhou categorias importantes para a compreensão do feminismo Negro no Brasil. Para Lélia, um feminismo latino-americano que abstraia a realidade concreta da maioria das mulheres negras, marcadas pela desigualdade racial, seria algo abstrato, fruto de uma alienação dos sujeitos e não serviria à luta de resistência contra o machismo. Assim, apontou que seria necessário levar em consideração o caráter multirracial e pluricultural no Brasil e nos países da América latina. Neste sentido, Lélia apontava o quanto a colonização e, posteriormente, a abolição a ideologia do branqueamento havia contribuído para a fragmentação da identidade étnica no país, o que demonstrava o quanto o racismo latino-americano era sofisticado para manter negros e negras como setores segmentados e superexplorados no interior da classe.

O legado de Lélia é indispensável para as futuras gerações de feministas, sejam elas negras ou não. A luta contra o sexismo, em especial no Brasil, só poderá ser dada de forma consequente se tiver como sujeito constituinte as mulheres negras. Em especial, quando Lélia fala dos processos de consciência, ela indica que pela condição de superexploração das mulheres negras é provável que a conscientização das desigualdades ocorra antes de qualquer coisa pela questão racial, pois a exploração de classe e o racismo são, juntos, aspectos básicos de mobilização de homens e mulheres negros e negras nesse país. Nesse ponto, a autora acreditava, em todas as suas elaborações, no papel da solidariedade necessária dentro do movimento feminista geral, dos movimentos sociais e das organizações políticas para com a luta de negros  e negras. Assim, Lélia foi parte da função do PT, atuou na Convergência Socialista, sendo candidata a deputada pelo PT e, posteriormente, pelo PDT de Abdias do Nascimento. Findou a vida sem seguir com pretensões eleitorais, porém muito vinculada aos movimentos em busca de políticas de reparação para a população negra no país.

Por fim, teria muito o que ser dito, mas o fundamental é instigar a leitura de toda a obra de Lélia Gonzaléz, infelizmente muito menos acessível em editoras do que necessitaríamos, mas possível de ser encontradas em sites e editoras comprometidos com a luta antirracista no país.