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#JulhodasPretas: Sementes de Lélia Gonzalez

Politiza

Jovem e mãe, Iza Lourença é feminista negra marxista. Iza tem 26 anos, trabalha no metrô de Belo Horizonte e coordena o projeto Consciência Barreiro – um cursinho popular na região onde mora. É ativista do movimento anticapitalista Afronte e do Partido Socialismo e Liberdade (PSOL).

Lélia abriu caminhos e plantou sementes. Neste artigo, quero refletir um pouco sobre suas contribuições teóricas, mas também de organização e atuação política.

Não poderia deixar de começar falando sobre Lélia Gonzales, uma das principais intelectuais brasileiras, lembrando do fato que ela nasceu na minha querida Belo Horizonte, no ano de 1935. Essa mineira, como muitas de nós, foi filha de um pai negro e de uma mãe indígena, e foi a décima sétima filha entre 18 irmãos. Por ser uma das caçulas, segundo ela própria, recebeu mais condescendência dos pais não sendo colocada para trabalhar tão cedo e pôde cursar escola primária, já que uma família italiana da qual sua mãe foi ama de leite, ofereceu lhe pagar os custos.

Cada uma das barreiras superadas por Lélia, uma intelectual negra no Brasil, ocorreram em conjunto com um sem número de contradições produzidas por sua condição social, racial de gênero e de classe. Mais tarde, a própria vai refletir sobre isso, o que traduzirá como seu processo de branqueamento. Franzt Fanon, dizia em seu livro “Pele Negra, Máscaras Brancas” que “do negro exige-se que seja um bom preto; isso posto, o resto vem naturalmente”. Lélia, em pretoguês, língua que mais tarde defenderia que é falada em nosso país, dizia que na universidade era condicionada a se comportar como “aquela pretinha legal”.

Casou-se com Luiz Carlos Gonzales, de quem herdaria o sobrenome que levou consigo até o fim de sua vida. O casamento dos dois foi profundamente afetado pela turbulência gerada pelo racismo, Luiz Carlos era um homem branco de origem espanhola e sua família não aceitava o casamento dos dois pelo fato de Lélia ser uma mulher negra. De forma trágica, Luiz Carlos Gonzales termina por se suicidar. Uma pequena homenagem feita por Lélia ao seu companheiro:

“Luiz Carlos foi muito importante na minha vida (…) ele rompeu com a família, ficou do meu lado e começou a questionar a minha falta de minha falta de identidade comigo mesma. Isso dói (…), por isso eu tenho orgulho de trazer o nome dele. Eu nunca troquei o meu nome, podia estar com o meu nome de solteira, Lélia de Almeida, mas é uma homenagem que eu presto a esse homem branco tão sofrido (…) essa pessoa demonstrou uma solidariedade extraordinária (…) e foi a primeira pessoa a me questionar com relação ao meu próprio branqueamento.” (Depoimento extraído de Projeto Perfil – Lélia Gonzales)

A partir desse momento de sua vida, Lélia passa por uma imersão na cultura negra brasileira, com destaque a uma aproximação que levaria para o resto de sua vida com o Candomblé. Aproxima-se também da psicanálise e do estudo da cultura negra brasileira que vivia um momento de efervescência, com a criação de blocos de carnaval como o Ilê Aye em 1972. Chegou até mesmo a escrever sambas-enredo, com o objetivo de aproximar a produção de cultura popular da academia. Em 1976, ministra o primeiro curso de Cultura Negra no Brasil na UFRJ.

É nesse momento de sua trajetória intelectual que passa a usar o conceito de pretoguês: 

“Eu gostaria de colocar uma coisa: minoria a gente não é, tá? A cultura brasileira é uma cultura negra por excelência, até o português que falamos aqui é diferente do portugûes de Portugal. Nosso português não é português, é “pretoguês”. (Pereira e Hollanda, 1980)

Lélia entendia que nos anos anteriores da ditadura militar houve um abafamento e silenciamento brutal dos movimentos sociais e populares em geral. Esse cenário foi paulatinamente sendo alterado durante a década de 1970. Aqui é digno de nota que além da rearticulação dos movimentos estudantis e sindicais, questões que tem tido muito mais destaque quando o período é retratado, o movimento negro, em seu sentido amplo, cresce e se expande muito. Dos Blocos de Carnaval aos Bailes Blacks, a juventude negra brasileira ganhava ânimo inspirada nos movimentos pelos direitos civis norte americanos e pelas lutas anti-coloniais na África e no Caribe. Ao final da década, um saldo organizativo histórico do movimento negro foi a fundação do Movimento Negro Unificado, que consegue dar confluência a um enorme contingente de diferentes movimentos negros. Não é preciso dizer que Lélia Gonzales é produto e produtora de todo esse processo.

Lélia é linha de frente do lançamento, da construção e da consolidação do MNU. Em 1978, esteve ao lado de Abdias Nascimento no dia 7 de julho de 1978 nas escadarias do teatro municipal de São Paulo, quando o próprio leu o manifesto de fundação do movimento que marcaria a história do país. Depois disso, a mineira radicada no Rio de Janeiro, cruzou o país na tarefa de consolidar o movimento. Nessa época, denunciar o racismo era diretamente denunciar o discurso oficial do Estado brasileiro, alicerçado na ideologia da democracia racial. Denunciar o racismo era encarado como o crime de incitar ódio ou discriminação racial e, como não poderia ser diferente, Lélia passa a figurar nas páginas do DOPS como potencial subversiva.

É na mesma época que o movimento negro passa a questionar abertamente a história oficial da abolição brasileira e a figura de sua falsa heroína princesa Isabel. O dia 13 de maio, data da assinatura da Lei Áurea, passa a ser questionada e o grupo Palmares de Porto Alegre apresenta a proposta de 20 de novembro, aniversário do assassinato de Zumbi dos Palmares, como o dia da Consciência Negra. Sobre isso, Lélia discursou:

“O nosso herói nacional foi liquidado pela traição das forças colonialistas. O grande líder do primeiro estado livre de todas as Américas, coisa que não se ensina em nossas escolas para nossas crianças. E quando eu falo de nossas crianças, estou falando das crianças negras, brancas e amarelas que não sabem que o primeiro Estado livre de todo o continente americano surgiu no Brasil e foi criado pelos negros que resistiram à escravidão e se dirigiram para o sul da capitania de Pernambuco, atual estado de Alagoas, a fim de criar uma sociedade livre e igualitária. Uma sociedade alternativa, onde negros e brancos viviam com o maior respeito, proprietários de terra e senhores do produto de seu trabalho. Palmares é um exemplo livre e físico de uma nacionalidade brasileira, uma nacionalidade que está por se constituir. Nacionalidade esta em que negros, brancos e índios lutam para que esse país se transforme efetivamente em uma democracia.” (vídeo A marcha negra, 1988)

Outro traço fundamental da trajetória política e do pensamento de Lélia Gonzales, que cotidianamente combinava a teoria e a prática, foi a contestação. No movimento negro, no qual foi liderança fundamental, explicava e denunciava como o machismo e a opressão de gênero mereciam atenção e estavam presentes nas relações políticas e sociais cotidianas. E no movimento de mulheres na academia, nessa época hegemonizado por mulheres brancas da classe média, afirmava que se o feminismo não tivesse atenção a questão racial, não teria capacidade de ser emancipador para a grande maioria da população brasileira.

Aqui, é impossível não dar destaque a criação do Coletivo Nazinga, criado em 16 de junho de 1983. O movimento surgiu da necessidade de organizar mulheres negras de baixa renda em sua especificidade e, por isso mesmo, o local de seu lançamento foi na Associação do Morro dos Cabritos. Ao pensar no Coletivo Nazinga, é impossível não lembrar do Coletivo Combahee River, um grupo de de militantes negras e lésbicas formado em Boston no ano de 1974. Em um manifesto chamado “A Black Feminist Statement” lançado em 1977, as ativistas afirmam:

“Somos socialistas porque acreditamos que o trabalho deve ser organizado para o bem coletivo daqueles que fazem o trabalho e criam os produtos, e não para os lucros dos patrões. Os recursos materiais devem ser igualmente distribuídos entre aqueles que criam esses recursos. Porém não estamos convencidas que uma revolução socialistas que não seja também uma revolução feminista e antirracista garantirá nossa libertação.”

Lélia, em uma entrevista para o livro Patrulhas Ideológicas uma vez disse:

“Bom, eu gostaria de colocar aqui que eu pertenço ao Movimento Negro Unificado, que estamos ai numa batalha violenta no sentido de conquistar um espaço para o negro na realidade brasileira, e o que eu tenho percebido é uma tentativa por parte das esquerdas em geral de reduzir a questão do negro a uma questão meramente econômico-social. Na medida em que liquida o problema de classe, na medida em que entramos numa sociedade socialista, o problema da discriminação está resolvido. A meu ver esse problema é muito mais antigo que o próprio sistema capitalista, e está de tal modo entranhado na cuca das pessoas, que não é a mudança de um sistema para o outro que vai determinar o desaparecimento da discriminação racial.”

Demitia Frazier, uma das signatárias do manifesto do Coletivo Combahee River, disse:

“Nunca acreditei que o Combahee, ou outros grupos feministas negros de que participei, deveria focar apenas questões que dizia respeito a nós, mulheres negras. Ou que, como mulheres lésbicas/bissexuais, devêssemos focar apenas questões que diziam respeito a lésbicas. É de fato importante notar que o Combahee foi fundamental na fundação de um abrigo local para mulheres vítimas de violência. Trabalhamos em aliança com ativistas comunitários, mulheres e homens, lésbicas e pessoas heterossexuais. Éramos muito ativas no movimento por direitos reprodutivos, apesar de, naquele tempo, a maioria de nós ser lésbica. Formamos aliança com o movimento de trabalhadores porque acreditávamos na importância de apoiar outros grupos, mesmo se as pessoas daquele grupo não fossem todas feministas. Entendíamos que a construção de alianças era crucial para nossa própria sobrevivência.”

Apesar da dureza nas críticas, não há nenhum indício de atuação política desagregadora por parte de Lélia, ou qualquer visão de mundo que colocasse que as mulheres negras deveriam focar-se somente em suas demandas particulares, nem que somente as mulheres negras deveriam falar e pensar sobre suas demandas. Muitos dizem que uma frase marcante em sua trajetória militante foi que “é preciso ser radical sem ser sectária”.

Foi junto a essa atuação política prática que chegou a formulações incisivas como a visão de que os efeitos das desigualdades raciais são muito mais contundentes que os da desigualdade sexual. Tratou ainda de dar atenção ao fato de que a medida que algumas mulheres brancas da classe média e outros estratos sociais ganhavam parte do mercado de trabalho, o trabalho doméstico e reprodutivo era transferido a mulheres negras, como uma forma de continuidade da função da mucama ou da ama de leite. Lélia dizia:

“Tratar, por exemplo, a divisão sexual do trabalho sem articular com seu correspondente racial é recriar em uma espécie de racionalismo universal abstrato, típico de um discurso masculinizante e branco”.

Importante aqui deixar nítido, que Lélia Gonzales defendia o potencial transformador do movimento feminista:

“Ao centralizar suas análises em termos de uma concepção do capitalismo patriarcal (o patriarcado capitalista), evidenciam as bases materiais e simbólicas da opressão das mulheres, o que constitui uma contribuição de crucial importância para o encaminhamento de nossa luta como movimento. Ao demonstrar, por exemplo, o caráter político do mundo privado, desencadeou todo um debate público, em que surgiu o debate de questões totalmente novas – sexualidade, violência, direitos reprodutivos etc. -, que se revelaram articuladas às relações de dominção/submissão.”

No início da década de 1980,a belohorizontina escreveu o importante livro chamado “Lugar de Negro”. Livro fundamental para entendermos a formação histórica-social brasileira e as particularidades do racismo em nosso país em conjunto com o desenvolvimento do movimento negro no país. O livro foi escrito junto ao sociólogo argentino Carlos Hasenbalg, que já havia escrito uma importante contribuição teórica sobre o tema com o livro “ Discriminação e desigualdades raciais no Brasil”.

No que diz respeito à atuação em organizações partidárias, Lélia Gonzales teve uma rápida passagem pela Convergência Socialista, ingressou, foi candidata e dirigente do Partido dos Trabalhadores e após isso, junto a Abdias Nascimento foi ao PDT, onde também foi candidata. Essa trajetória indica que não havia indisposição prática por parte de Lélia em construir organizações partidárias. Nessa sua trajetória cabe um registro importante sobre sua candidatura pelo PT em 1982.

Lélia organizou uma campanha militante, com apoio, é claro, do movimento negro. O que chama atenção nos relatos da sobre a candidatura, foi como ela envolveu uma série de movimentos que na época eram simpáticas ao PT, apoiavam as grande mobilizações dos trabalhadores, dos metalúrgicos, que encontraram na candidatura de Lélia Gonzales uma voz para expressar suas lutas. Seu perfil político foi marcado pela defesa de que o povo negro era maioria no Brasil e que sua campanha tinha como objetivo produzir voz a maioria silenciosa que existia no Brasil, dialogando assim com o movimento homossexual (aqui usamos o termo, que hoje já está superado, mas como era usado na época) e o movimento de mulheres. Infelizmente Lélia não foi eleita, tendo ficado a mais ou menos mil votos disso. Infelizmente, por que com toda certeza sua eleição teria gerado uma experiência política enriquecedora para a esquerda da época.

Por um feminismo Afro-latino-americano foi uma palavra de ordem de conteúdo programático que Lélia defendeu. Pensando na mulher negra em sua realidade concreta e objetiva, compreendia que esta ocupava a base da pirâmide da estrutura social do capitalismo brasileiro. Conectou isso a herança cultural africana que se expressa de diversas formas em nosso país, do Candomblé ao carnaval, passando inclusive pelo futebol. Compreendeu também o papel do movimento e da cultura indígena nas lutas nacionais dos países latino americanos contra o colonialismo. Não é possível afirmar que Lélia opôs a categoria de classe à essas identidades a partir do que ela escreveu e fez. Mas sim, que ela tentava trazer à terra esse conceito. Usava a classe sim, mas perguntava incansavelmente: quem é essa classe? Qualquer resposta que não passe pela conclusão de que o racismo é chave para decifrar a pergunta não tem validade política ou teórica.

Deixo esse texto como uma pequena homenagem, neste Julho das Pretas, a uma mulher negra que quebrou paradigmas em sua geração e que por sua trajetória permitiu que muitas de nós estejamos aqui. Lélia levantou a pergunta de um milhão de dólares: como conectar as categorias de raça e classe no Brasil? A resposta teórica e prática a essa pergunta não só tem potencial revolucionário, mas sim, é condição para qualquer mudança estrutural em nosso país.

Mulheres negras vem sendo a vanguarda de tantas mobilizações e que se colocando na linha de frente da luta política contra a extrema direita no Brasil, nós temos que dizer: Somos sementes de Lélia Gonzales!

 

1 – Este artigo foi em grande parte baseado no excelente livro “Lélia Gonzales” de Alex Ratts e Flavia Rios, que com essa contribuição cumpriram um papel fundamental no resgate da memória de Lélia Gonzales.

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Lélia González