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Em defesa de um debate sério e honesto: sobre ataques do PCO a Valério Arcary

José Carlos Miranda

José Carlos Miranda foi ferroviário e metalúrgico. Ativista dos movimentos sociais desde os anos 1981, é da Coordenação Nacional da Resistência/PSOL, membro do Conselho Curador da Fundação Lauro Campos (PSOL) e da Direção do PSOL-SP

“Quantos cegos serão precisos para fazer uma cegueira”

José Saramago

Peço licença e atenção dos leitores e leitoras do Esquerda Online para este artigo maior do que eu gostaria, mas necessário após descabidos e constantes ataques do PCO à Resistência-PSOL e ao camarada Valério Arcary. Animado pela Resistência-PSOL, o EOL publica artigos sobre os mais variados temas e muitas vezes estes não refletem sua posição editorial. Percorrendo nosso portal, pode-se constatar as posições, análises, polêmicas e, cada ativista, militante ou um leitor curioso pode ler e construir seu juízo sobre as nossas opiniões. Porém, algumas vezes, aparecem falsas “polêmicas” com uma absoluta distorção de nossas posições e até calúnias.

É muito simples levantar um castelo de areia para logo em seguida derrubá-lo. Distorcer ou falsificar a posição de um oponente com o objetivo de ridicularizá-lo não serve a nenhum propósito sério. Pode dar ao escritor um sentimento de autossatisfação, mas certamente não aumenta sua reputação dentro do amplo movimento dos trabalhadores. O propósito de uma polêmica não é o de marcar pontos, mas o de elevar o nível teórico dos militantes e ativistas.

Forma e conteúdo de um método detestável

Às vezes, temos que lidar com isso, em geral preferimos não entrar nestes debates, pois estes grupos e pessoas constantemente atacam todas correntes e partidos com denúncias histéricas criando uma atmosfera de beligerância constante. Esses métodos acabam por afastar a classe trabalhadora e a juventude do marxismo. Porém, há momentos em que, infelizmente, somos obrigados a esclarecer as coisas. Nestes tempos de internet é possível, até para pequenos grupos, difundir as mais escabrosas ilações e distorções de ideias e posições.

Nos referimos diretamente a alguns artigos do Diário do PCO (Partido da Causa Operária) e do site da EM (Esquerda Marxista, corrente que atua no PSOL). Apesar de diferenças, algumas importantes, estes artigos atacam a Resistência-PSOL e o camarada Valério. Os artigos do PCO são cheios de insinuações e distorções sem a citação precisa das fontes, além de insultos pessoais e adjetivações dignas de Odorico Paraguaçu [1]. Este método não deixa alternativa para o leitor, a não ser acreditar nas conclusões do autor. O amplo movimento da classe trabalhadora conhece estes métodos, portanto vou à polêmica. Num dos artigos, o PCO declara: “O dirigente do Psol [Valerio Arcary ndt] está no clube dos que se negam a enxergar a realidade. Dos que parecem viver fechados num quarto escuro, sem contato com o mundo há meses.” [2]

Sinceramente, quem está caolho e míope é o autor do artigo, que só vê o lado das manifestações de resistência que existiram e são importantes, aliás Valério e a Resistência-PSOL as reconhecem, mas advertem, são insuficientes ainda para mudar a correlação de forças [3]. As graves derrotas sofridas pela classe trabalhadora desde o golpe de 2016, para nós, são fundamentais para uma análise precisa da situação.

Por outro lado, acusam Valério de “corroborar” com a direita quando indica os principais erros do PT neste período. Escrevem:  “Culpar a direção do PT por “três grandes derrotas que sofremos: o impeachment golpista de Dilma Rousseff, a prisão de Lula, e a eleição de Bolsonaro” é desconsiderar a Vaza Jato, empenho de jornalistas muito próximos do próprio Psol e demonstrar afinidade pelos que, até hoje, também dentro do Psol, acham que a Lava Jato teve algum lado positivo.”[4]

Quantas distorções. Em primeiro lugar, a posição da Resistência é clara sobre a Lava jato, se é verdade que setores do PSOL apoiaram a Lava Jato. O Portal Esquerda On Line tem publicado há alguns anos inúmeros artigos denunciando o caráter reacionário desta operação. Se é verdade que setores do PSOL apoiaram a Lava Jato, as principais provas que hoje desmascaram a operação comandada pelo ex juiz Moro e Deltan Dalagno estão sendo apresentadas pelo site “The Intercept” Brasil, fundado pelo jornalista Gleen Greenwald, sobre isso nenhuma palavra. O PSOL tem posição, e não é de hoje, condenando a Lava jato [5]. A miopia virou cegueira mesmo.

Valério participa da Coordenação Nacional da Campanha Lula Livre, portanto ombro a ombro com as principais lideranças do PT, não esconde as diferenças políticas.  Estranho é o método do PCO que ressalta pontos positivos dos governos petistas e não diz nada sobre erros do PT. Utilizam o vil argumento de que apresentar críticas ou posições diferentes é “corroborar com a direita”, o mesmo método que o stalinismo sempre utilizou contra aqueles que se opunham à “política de frente popular”. Os métodos, a forma e o conteúdo destes artigos expressam o conceito do Programa de Transição: Os sectários só são capazes de distinguir duas cores: o branco e o preto. Para não se expor à tentação, simplificam a realidade”.

Dois estilos, a mesma míope conclusão

Já outro artigo intitulado “Uma resposta aos ataques de Valério Arcary ao Fora Bolsonaro” [6], assinado por Pedro Correia, tem o mérito de não seguir o estilo PCO. Apesar do desfile de citações de clássicos, o artigo utiliza-os para chegar à mesma conclusão, a saber, é possível derrubar o governo Bolsonaro já.

Acabar com o governo Bolsonaro o quanto antes é uma necessidade, não há discordância. Nos artigos e entrevistas, Valério apresenta algumas reflexões, a partir da análise da correlação de forças na luta de classes.

O que respondem os artigos, para o PCO “ No caso brasileiro, essa polarização vem crescendo desde o golpe de 2016 e só não evoluiu de forma mais efetiva por conta da política da própria esquerda, que a todo momento procurou desviar o enfrentamento das amplas massas para o campo institucional (impeachment, perseguição e prisão de Lula e outros dirigentes petistas, fraude eleitoral, etc.). Diante do bloqueio da própria esquerda, a revolta popular procurou brechas para romper a barreira de contenção e foi encontrá-la justamente na festa mais popular do país, o carnaval e a partir daí, o dia 15 representa o rompimento definitivo dessa crosta.” [7] (Grifos do Autor)

Já no artigo da EM: “A diferença entre os atos em defesa da educação que ocorreram esse ano e a deflagração de um movimento de massas para a derrubada do governo por uma greve geral é que as principais organizações estudantis e dos trabalhadores brasileiras não querem a continuação do movimento nas ruas até a derrubada do governo. Ao mesmo tempo que convocam atos em “defesa da educação pública”, sabotam greves gerais e movimentos que podem levar à derrubada do governo, como o fechamento da fábrica da Ford “[8] (Grifos do Autor)

Por coincidência, os dois artigos chegam a mesma conclusão: a derrubada do governo Bolsonaro só não acontece porque as direções dos partidos e movimentos bloqueiam a “revolta popular” ou a “greve geral até a derrubada do governo”. Com uma diferença que o PCO chama esta direção de “Esquerda” e a EM cita literalmente o PT, PSOL, CUT, PCdoB, CTB etc. Aqui vale um comentário da miopia da EM colocar o PSOL na lista dos responsáveis do “bloqueio” no mesmo patamar das centrais e movimentos sociais, realmente lamentável. (Grifos do Autor)

As graves derrotas que sofremos desde o golpe são utilizadas, em ambos artigos, como argumento para mobilização da “greve geral até derrubar o governo” ou para “peitar o capital” (sic)! “Por fim, Valério Arcary ignora a crise de conjunto do governo e do golpe. Os vazamentos da Lava Jato, as declarações de Bolsonaro, as denúncias, a economia, as medidas impopulares. Se não ignora, ele considera tudo isso insuficiente para defender a derrubada do governo.”, diz o PCO. [9] (Grifos do Autor)E para a EM: “No Brasil, não cessam acontecimentos que podem se tornar pontos de virada na luta de classes. Bolsonaro a todo momento se refere aos comunistas como sendo seus principais inimigos, como causadores do caos, como inimigos da nação. (…) Cresce nas pesquisas a insatisfação com o governo ao mesmo tempo em que os “comunistas” são, nas palavras do próprio presidente, sua principal ameaça. A situação é ótima para os comunistas crescerem em força e organização, integrando e preparando jovens e trabalhadores para as explosões que se aproximam.” [10] (Grifos do Autor) 

Ambas análises avaliam que a classe trabalhadora neste momento têm disposição para ir às ruas e a greve geral até derrubar o governo Bolsonaro, para a Esquerda Marxista: “A Esquerda Marxista foi a primeira organização a levantar o grito “Fora Bolsonaro”, que ressoa no povo desde a posse de Bolsonaro e que foi exposto de forma popular no Carnaval. Essa é a palavra de ordem que deve continuar sendo animada. É ela que ajudará jovens e trabalhadores a superarem a situação atual e abrirá caminho para derrubar este governo e começar a construir o socialismo.” [11] (Grifos do Autor)

Apesar das similares conclusões, existem importantes diferenças entre as posições destas organizações, de um lado o PCO caracterizou o impeachment como golpe em 2016, participa e impulsiona a campanha Lula Livre. De outro lado a EM até hoje não afirma “não teve golpe”, o crescimento da extrema direita, não participa da campanha Lula livre e votou contra a candidatura de Guilherme Boulos a presidência pelo PSOL. Um ponto positivo, ambas condenam a Lava jato.

O que neste debate defendem a Resistência-PSOL e Valério?

Sem entrar numa discussão histérica sobre erros e acertos do passado, no editorial de 03/08/19 do EoL está escrito: “ A estratégia deve ser a derrubada desse monstruoso governo de extrema-direita, mas a tática condizente com a atual relação de forças e nível de consciência desfavoráveis é acumular forças, impor derrotar parciais ao inimigo, adquirir capacidade de mobilização de massa, construir uma maioria social e uma nova referência política de esquerda para o povo trabalhador. “[12]

O editorial não é “escorregadio”, vai direto ao ponto.

Os artigos e entrevistas do Valério partem dos mesmos pressupostos: “Mas não nos enganemos. É lúcido saber que enfrentamos um inimigo ainda, social e politicamente, muito forte. Pesquisas de opinião não vão derrubar Bolsonaro. O regime presidencialista impõe uma relação de poder entre as instituições que deixa a presidência blindada diante das oscilações de popularidade. Um governo pode ter muito pouco apoio e, no entanto, chegar até ao final do seu mandato, se a oposição não for capaz de impulsionar manifestações poderosas que coloquem na ordem do dia o seu deslocamento.” [14]

Nós não estamos em luta contra a palavra de ordem “Fora Bolsonaro” lutamos pela unidade dos explorados e oprimidos através do erguimento de uma poderosa frente única e ao mesmo tempo não nos escusamos participar em unidade de ação amplas em defesa dos direitos e liberdades democráticas.

Não condenamos quem se utiliza da palavra de ordem “Fora Bolsonaro”. Desde movimento “Fora Collor”, o “Fora” virou o lugar comum para rechaçar uma figura pública, têm o mesmo sentido que “Contra” para as amplas massas.

Repelimos as falsificações das posições do PSOL e da corrente interna Resistência PSOL. Somos uma organização muito pequena diante das gigantescas tarefas deste período histórico e da conjuntura. Nascemos de uma fusão de vários grupos e organizações com trajetórias e origens distintas, que intervém na luta de classes e temos orgulho de nossas contribuições no PSOL, de ajudar na escolha de Boulos candidato a presidente e estar na linha de frente da luta contra a prisão de Lula, temos orgulho de sermos PSOL.

Defender as melhores tradições das polêmicas entre os marxistas

Novamente peço licença pelo tom pessoal, mas não posso me furtar a solidariedade camarada, bolchevique e comunista com Valério Arcary.

Conheci o Valério em 1983 em uma plenária preparatória ao Congresso de fundação da CUT, ele era professor da rede estadual de São Paulo, já era dirigente eu era um jovem ferroviário com 18 anos e muitas vezes nos encontramos na luta de classes. Em nenhuma destas militávamos na mesma organização política. E ele sempre teve meu respeito por sua postura nas polêmicas.Seus detratores sempre colocam “ex-PSTU” no início e recordam uma posição antiga, objetivando “rotular” antes do leitor conhecer a posição em debate, tipo “o teu passado te condena”, como um bate-boca de bar. Pode-se não apreciar o estilo do Valério, não concordar com ele ou até não ter afeição pessoal, mas ofensas pessoais são uma lástima.

A resposta a estes senhores já está no histórico discurso do Circo Voador no Rio de Janeiro em 3 de abril de 2017. “Eu tive que chegar aos 60 anos para estar no mesmo palco que Lula” [15]. O desprendimento deste gesto demonstra na prática a virtuosidade de “recomeçar”, reconstruir/construir uma nova organização para seguir coerente com suas convicções e ideias. Os grandes militantes têm a humildade e a coragem de fazê-lo, Valério Arcary é um deles. Só não enxerga quem não quer.

 

Notas: 

[1] Odorico Paraguaçu é um personagem cômico de uma novela de Dias Gomes muito popular nos anos 1970. Era prefeito de uma cidade nordestina e uma raposa política que vivia a proferir palavras e frases

[2] https://www.causaoperaria.org.br/Valerio-arcary-psol-tambem-e-fica-bolsonaro/ Consultado em 7/9/2019

[3] https://esquerdaonline.com.br/2019/08/03/a-ofensiva-de-bolsonaro-e-a-tatica-da-esquerda/ Consultado em 7/9/2019

[4] https://www.causaoperaria.org.br/Valerio-arcary-psol-tambem-e-fica-bolsonaro/ Consultado em 7/9/2019

[5] http://psol50.org.br/prisao-de-lula-nota-da-presidencia-do-psol/ Consultado em 7/9/2019

[6] https://www.marxismo.org.br/content/uma-resposta-aos-ataques-de-Valerio-arcary-contra-o-fora-bolsonaro/ Consultado em 7/9/2019

[7] https://www.causaoperaria.org.br/Valerio-arcary-tudo-para-nao-falar-fora-bolsonaro/ Consultado em 7/9/2019

[8] https://www.marxismo.org.br/content/uma-resposta-aos-ataques-de-Valerio-arcary-contra-o-fora-bolsonaro/ Consultado em 7/9/2019

[9] https://www.causaoperaria.org.br/Valerio-arcary-psol-tambem-e-fica-bolsonaro/ Consultado em 7/9/2019

[10] ohttps://www.marxismo.org.bro /content/uma-resposta-aos-ataques-de-Valerio-arcary-contra-o-fora-bolsonaro/ Consultado em 7/9/2019

[11] https://www.marxismo.org.br/content/uma-resposta-aos-ataques-de-Valerio-arcary-contra-o-fora-bolsonaro/ Consultado em 7/9/2019

[12] https://esquerdaonline.com.br/2019/08/03/a-ofensiva-de-bolsonaro-e-a-tatica-da-esquerda/ Consultado em 7/9/2019

[13] :  https://esquerdaonline.com.br/2019/08/03/a-ofensiva-de-bolsonaro-e-a-tatica-da-esquerda/ Consultado em 7/9/2019

[14] https://revistaforum.com.br/colunistas/Valerioarcary/por-que-as-massas-trabalhadoras-ainda-nao-entraram-em-cena/ Consultado em 7/9/2019

[15] https://revistaforum.com.br/politica/integra-do-discurso-historico-de-Valerio-arcary-quem-nao-sabe-contra-quem-luta-nao-pode-vencer/. Consultado em 7/9/2019