Assisti Bruna Surfistinha e não encontrei a pornografia

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Jéssica Milaré

Jéssica Milaré, travesti, bissexual, doutoranda em Matemática pela Unicamp, militante LGBT, transfeminista e do PSOL, membro da Associação da Parada do Orgulho LGBT de Campinas.

“A sociedade quer que fiquemos no lugar que ela nos reservou, o único espaço possível para mulheres como nós: o espaço da precariedade, da exclusão, da marginalidade, da clandestinidade, da violência.”
Monique Prada

 

Depois que o próprio presidente (des)recomendou esse filme, pensei: “Nossa, deve ser bom!” e lá vamos eu e minha noiva assistir o filme e… ué, cadê pornô?

Tudo bem, desculpem-me pela brincadeira sem graça.

Do ponto de vista artístico, o filme tem muita qualidade. A Bruna não é uma prostituta que é “resgatada” por um príncipe num cavalo branco, como o clássico “Uma linda mulher”, nem uma vítima de violências bárbaras como vemos em alguns documentários. Nossa sociedade não enxerga as prostitutas como sujeitos, mas como objetos sexuais ou vítimas passivas. Talvez venha daí o espanto: Bruna é a protagonista, sujeito de sua própria história.

Pornografia?

Eis a grande contradição: um homem que confessadamente usava o auxílio moradia para pagar programas ficou escandalizado com um filme que conta a história de uma garota não muito diferente daquelas a quem ele pagou. Impossível falar sobre esse filme sem refletir isso. Não é estranho que um cliente se sinta constrangido com essa produção e ainda a “reduza” a uma pornografia?

Não sou contra pornografia em si, mas sou contra todo machismo e toda violência que ocorre na frente e atrás das câmeras na maioria das produções. Por outro lado, também sou contra o preconceito, o tabu que as atrizes sofrem. Num mundo que não seja uma completa barbárie, talvez existam obras de arte pornográficas que reflitam relações muito mais humanas.

O engraçado é que Bolsonaro, mesmo sendo cliente dessas trabalhadoras, sente-se incomodado em deixar uma delas falar. Só uma! Típico de um machista que as enxerga como pedaços de carne e estranhe que uma delas decida contar sua própria história. Que é o que seres humanos fazem.

Glamourização?

Quando se trata de prostituição, uma preocupação que ouço é se a história glamouriza essa atividade. Não vi nenhuma romantização, muito pelo contrário, pareceu-me bem realista, muito embora seja sob um ponto de vista individual. Há momentos bem tensos que algumas pessoas têm dificuldade de assistir. Nesses, eu sentia um nó na garganta e uma pergunta perturbava minha mente: “Como alguém pode ver pornografia nisso? Por acaso esta cena excita alguém?”

Mas tenho uma pulga atrás da orelha com essa questão. Será que isso não reflete uma expectativa de que a narrativa se encaixe numa visão preconcebida sobre o que é o trabalho sexual? Não que eu ache totalmente inválida, afinal, é possível envergar a vara para um lado ou outro, ainda mais em temas polêmicos.

A heterogeneidade no trabalho sexual

Quem assistiu e prestou atenção (e que tem mais de dois neurônios na cabeça de cima) deve ter conseguido perceber que as trabalhadoras sexuais formam uma categoria bastante heterogênea. Apesar de não mostrar casos extremos de violência e marginalização, como revelam alguns documentários, fica evidente que existem prostitutas que fazem programas a R$ 20,00, um cliente atrás do outro. Uma mãe que precisa sustentar seus filhos, mas que, por não ser tão jovem, consegue poucos programas. A Bruna que, por ser mais jovem, era a mais requisitada na casa. Também uma garota jovem negra, muito bonita aliás, inclusive dentro dos padrões normativos de beleza (exceto por ser negra, lógico) e que ficava praticamente como pano de fundo (alguém mais reparou?).

O filme explica por que muitas delas usam cocaína. Principalmente as que estão em condições mais precárias.

Uma garota gentil, meiga e empática

Quero ressaltar a bela atuação de Débora Secco ao retratar essa personagem tão multidimensional, em tantos momentos e situações, expressando sentimentos e temperamentos diversos. Conseguiu, de forma convincente, mostrar suas transformações e, ao mesmo tempo, conservar a identidade. Conforme o tempo passa, Bruna, que na verdade é Raquel, deixa de ser tímida e retraída, mas mantém a personalidade doce daquela garota na escola. É difícil não se simpatizar. Apenas uma mente muito fechada não consegue ver isso ao longo do filme.

Como não sentir sua dor nos momentos de abuso de alguns canalhas? Como não sentir desprezo pelos clientes que não a enxergavam como pessoa, apenas como coisa? É possível não se emocionar com os momentos em que ela ouve, com todo o carinho, as histórias, escondendo às vezes o tédio?

Bem, todo filme tem quem goste e quem desgoste, quem adore e quem odeie. Se há quem não goste, não significa que ele seja ruim. Este certamente não é. Suspeito que pelo menos boa parte das pessoas que o desprezaram é porque se sentiram incomodadas com Raquel contando sua história com seus próprios lábios.