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Especiais

As Estrelas de Stonewall: trans, negras, latinas, revolucionárias

Este é o quarto de sete textos desta coluna para o Especial Stonewall 50

Jéssica Milaré

Jéssica Milaré, travesti, bissexual, doutoranda em Matemática pela Unicamp, militante LGBT, transfeminista e do PSOL, membro da Associação da Parada do Orgulho LGBT de Campinas.

Revolucionárias de Ação Transgêneras de Rua: essa é a tradução do nome do grupo STAR (Estrela) fundado em 1970 pelas ativistas Marsha P. Johnson e Sylvia Rivera, que participaram da Revolta de Stonewall. Suas histórias ajudam a entender por que as LGBTQI negras e latinas, particularmente pessoas trans, drag queens e lésbicas “butch”, foram as mais agressivas durante a Revolta.

Ao contrário de Virginia Prince e de Magnus Hirschfeld, elas não tinham conhecimento científico, mas tinham instinto.

Um pouco de Marsha

Reprodução
Marsha P. Johnson, 1970.

Marsha e Sylvia identificavam-se como drag queens, mas essa identidade deve ser compreendida em sua época. Elas não se montavam para realizar shows, pelo contrário, era sua identidade o tempo todo. O debate sobre identidade de gênero ainda era inacessível à maioria, em particular as negras moradoras de rua e trabalhadoras do sexo, como Marsha.

Quando um juiz questionou Marsha sobre o significado da letra P em seu nome, ela respondeu: “Pay it no mind” (“Não se importe com isso”). O magistrado riu e a liberou. Quando perguntavam sua identidade de gênero, ela também dizia: “Pay it no mind”. Considerando a grande preocupação que Marsha tinha com “irmãos e irmãs gays” mais pobres que moravam na rua, essa resposta faz muito sentido.

Aos 18, em 1963, ela viajou para Nova Iorque com 15 dólares e uma sacola de roupas. O contato com a comunidade gay fez com que ela saísse do armário. Morou nas ruas durante a maior parte de sua vida. Fazia programas para sobreviver. Questionada, ela afirmou não saber quantas vezes foi presa: parou de contar na centésima.

Por tudo isso que, em 1972, Marsha e Sylvia, com o dinheiro do trabalho sexual, alugaram um imóvel que batizaram de STAR House. Esta casa tornou-se o abrigo de várias LGBTQI de rua. A STAR recebia cartas de pessoas presas pela criminalização da homossexualidade ou do “uso de roupas do sexo oposto”, pedindo-lhes ajuda.

Um pouco de Sylvia

Kay Lahusen
Sylvia Rivera, 1970.

Também moradora de rua e garota de programa, Sylvia era novaiorquina de descendência venezuelana e porto-riquenha. Porto Rico é território estadunidense, mas 94% de sua população fala espanhol. Nos EUA, pessoas de origem ou descendência latina (inclusive as brasileiras) são vistas como não-brancas e sofrem racismo.

Sua mãe, abandonada pelo marido, teria de criar Sylvia sozinha, mas cometeu suicídio quando ela tinha apenas três anos. Como sua avó não aceitava seu “comportamento afeminado”, fugiu de casa aos 11 e passou a sobreviver fazendo programas.

Rivera engajou-se em vários movimentos por direitos civis, particularmente as mobilizações contra a guerra no Vietnã e as feministas. Aproximou-se dos partidos Pantera Negra e Young Lords, este um partido socialista revolucionário porto-riquenho.

Em 1973, os organizadores da Parada do Orgulho deliberaram expulsar as drag queens, particularmente Sylvia e Marsha, por darem uma “imagem ruim” à manifestação. Um grupo de autointituladas feministas radicais apoiaram a medida. Em resposta, Sylvia Rivera subiu ao trio. Após ouvir pessoas gritando “Fora! Fora!” por um tempo, pegou o microfone e gritou: “É melhor vocês todos ficarem quietos!” Foi um discurso heroico.

Marsha P. Johnson e Sylvia Rivera na Parada de 1973, transgredindo a expulsão.

Para estudar mais sobre as duas

Há um vídeo com o discurso de Sylvia Rivera legendado neste link. Anteriormente, eu escrevi um texto sobre o evento, com alguns outros relatos da Sylvia. Está neste link. Há também uma entrevista por Randy, em inglês, neste link.

Há um documentário sobre a vida de Marsha P. Johnson: “A Morte e Vida de Marsha P. Johnson”. Está disponível na Netflix.

Marcado como:
stonewall 50 anos