Consciência negra: A falta de consciência histórica eterniza a escravidão

Por: Marcio Cristiano Soares, do ABC paulista

O atraso sempre foi uma marca de insucesso no Brasil. A Lei Áurea foi assinada, oficialmente, em 13 de maio de 1888. A Europa iniciou, efetivamente, sua transição do feudalismo para o capitalismo por volta do começo do século XVI. Em meados de a metade do século XIX, a Inglaterra travou verdadeira luta contra o tráfico negreiro vindo da África (Ainda que essa guerra tenha sido travada com objetivo estritamente comercial e estrutural para o capitalismo, necessitado da produção de mais valia, inviável na escravatura.). E seus principais rivais foram o governo e burguesia brasileiros. Desde a primeira década do século XIX, os EUA já haviam proibido o comércio de escravos. No entanto, essa luta veio a se tornar uma realidade prática na década de 1860.

O eurocentrismo, o “civilizacionismo”, somente se fariam necessários e praticáveis através do pensamento da supremacia de raça, cor e cultura. Esse foi o norte da política global do renascimento europeu; na ideia de que raças inferiores não passavam de animais que deveriam servir à “civilização”, bem como terem salvas suas almas através do cristianismo. Mostraram para a humanidade que esses “animais pagãos” deveriam ser o casco do navio, a enxada, o lombo ajumentado, a fonte de energia, as correntes, o sangue-gasolina, o moinho, o cavalo… na construção de um mundo novo. No feudalismo, o homem e sua prole eram de posse de senhor, e assim prevaleceu por muito tempo, até que a “luz do capital” tornara possível a promoção dos desvalidos escravos do campo para escravos novos nos centros urbanos. Vivendo esses o inferno de ver suas crias trabalhando feito verdadeiros demônios danteanos na produção da construção de grandes fortunas, que seriam usadas para expandir e escravizar mundo afora. Com a concentração de riquezas nas mãos de grandes capitalistas europeus se foi possível investir na criação de bancos e grandes empresas que escravizariam o trabalho, comércio e consumo mundiais. Atendo-nos à nossa sofrida civilização brasileira, podemos afirmar que tudo aqui é escravo. O comercio nacional é escravo do internacional, a classe trabalhadora, os nefastos empresários, a balança comercial, o desenvolvimento cultural, a bolsa de valores, as terras, os latifúndios escravocratas, a república, o parlamento, as mídias e tudo. Tudo e todos, escravos do Deus Mercado. Essa é a situação do Brasil atual, sequenciando o colonial, o monarca e o republicano.

A distribuição das terras roubadas dos índios no Brasil fora feita sempre no devir de fortalecer uma elite nacional, subjugada ao capital internacional. No formato de sesmarias, grandes latifundiários escravocratas receberam suas doações e floresceram nesta terra, avassalando os ventres indígenas e africanos, num processo de limpeza étnica como estratégia para conter revoltas. O Brasil-coroa-portuguesa segue atrasado durante o período colonial, perdendo sempre espaço para holandeses, ingleses, espanhóis e franceses. Na unificação desta terra, a serviço da coroa portuguesa mais territórios são doados aos aliados para combater no Rio, Pernambuco, Minas, São Paulo e em quase todo o território nacional, sempre ameaçado por invasões de outros europeus escravocratas. E foi neste processo que se fez um verdadeiro moinho de gastar gente, como dizia o antropólogo Darcy Ribeiro. Índios, ameríndios, cafuzos e mamelucos, todos utilizados em guerras para defender o capital e os capitalistas. E estes últimos, sempre aniquilando, matando, violentando seus subordinados, quando estes não assumiam para si os interesses dos ricos, da coroa ou da república. Aqui cabe nosso grito de resistência histórica, em todos os grandes combates contra as elites, seja em Canudos, nos quilombos, nos motins diversos (algumas vezes, até mesmo, dentro das estruturas militares e paramilitares, como a revolta de 1924, que originou a Coluna Prestes). E que não se ponha em julgamento aqui, as ideologias ou metodologias destes movimentos, porque todos – nestas linhas é o que importa – foram travados contra as elites, sejam políticas, militares, aristocratas ou burguesas.

Muito triste ver hoje parte dos descendentes escravos carregando ajumentadamente escravocratas nas costas, numa verdadeira sina de nunca fazer parte do poder. Isso somente pode ser possível através da aniquilação cultural e histórica.

Empurrados para as periferias do Brasil capitalista, milhões de descendentes de escravos – indígenas e africanos – ficam isolados do desenvolvimento tecnológico, intelectual, cientifico, artístico, etc. Dessa forma mantêm-se todos sem educação, trabalho, renda, saúde pública, saneamento básico, sem as condições mínimas de subsistência humana às quais se fariam diferentes dos ex-escravos. A formação de grandes guetos, estes sim mais próximos do mundo moderno, é expandida no litoral. Mais precisamente; Rio, São Paulo, Salvador e parte do nordeste (bastante miscigenado). O crescimento dos morros cariocas, da antiga capital Salvador e do interior de Minas Gerais, foram a grande salvação do Brasil moderno, infelizmente na produção de riquezas para acumulo nas mãos das classes superiores, mas, também, felizmente, daquilo que muito podemos nos orgulhar: a resistência cultural.

Nosso maior retrocesso

A social-democracia brasileira (subordinada ao imperialismo), também escravocrata, instituiu uma sociedade de direitos de sobrevivência mínima para a classe trabalhadora – lembra Marx sua necessidade básica de existência para produção de mais valia – que, com sua insistente e corajosa luta teve seu auge na consolidação da CLT, na estruturação dos movimentos negros, indígenas, partidos e sindicatos de esquerda e defesa da classe, desde a década de 1930. Durante os governos deficitários do PT foram alavancadas discussões mínimas sobre a questão da escravidão africana, dizimação de índios, novas e velhas bandeiras como a LGBT e feminista.

Com a derrubada do governo de Dilma, em 2016 pela frente parlamentar de direita unificada, mídia e o judiciário, as obrigações sociais no direito às defesas mínimas das minorias, dos negros, quilombolas, indígenas, LGBTs, feministas e dos desvalidos pelo capital, todo o pouco conquistado ao custo de muito sangue de nosso povo fora revogado.

Não se criminaliza mais o preconceito racial, nem de gênero, nem social ou sexual. De fato, o novo governo eleito não pelo povo e sim pela grande mídia e judiciário, tira o véu do fascismo crescente em nosso país e no mundo. Revogam toda a carnificina praticada pelas elites na construção da civilização brasileira, negando que aqui houve escravidão, genocídio indígena, limpeza étnica, roubos de terra por parte dos ricos e fortalece as malvadas bandeiras da direita racista e misógina nacionais. E que bem se entenda que a citada social-democracia brasileira não só faz parte, como, também, constrói e pratica este maléfico intento. Veja-se o fato de a unificação de toda a direita nacional ter sido imediatamente intensificada no processo eleitoral e na formação do governo de Bolsonaro. Eles estão retrocedendo as condições do povo brasileiro aos anos iniciais do século XX. Com o corte dos gastos públicos, reformas trabalhista e da previdência, temos de imediato as seguintes conseqüências:

• crescimento devastador da pobreza extrema, falta de saneamento básico que irá resultar no reavivamento de bactérias e vírus de caráter epidêmicos que já se haviam sido superados;
• desidratação e pandemia de mortalidade infantil;
• queda drástica no fornecimento de água potável, energia elétrica e bens de consumo básico, ocasionando a queda da qualidade de vida e subsistência;
• desprezo total à proteção das mulheres, infância e maternidade;
• crise hospitalar, baixo índice de qualidade na formação de profissionais da saúde, falta de investimento em prédios, equipamentos e medicamentos;
• desmantelamento total do patrimônio público cultural;
• falência predatória da educação no país;
• aumento assombroso nos números de mortes de LGBTs e feminicídios;
• crescimento da violência urbana que, num verdadeiro caos irá criar milícias armadas contra os negros e negras, índios e índias e suas culturas: candomblé, umbanda, quimbanda, macumba, xamanismo, zulu, etc. Na consolidação do auto-ódio, por desprezo às próprias raízes populares;
• uma verdadeira carnificina praticada pelas polícias anistiadas para matar;
• desmatamento predatório elevando o risco de o planeta entrar, rapidamente, em colapso, com o aquecimento global e aceleração de guerras iminentes por
recursos naturais, dentro e fora de nossas fronteiras.

Em tudo aqui tratado como retrocesso e mais os fatores que não couberam nestas linhas materializam-se através de uma arma. Estruturada num pedestal-mor, afixada na terra fecundada de sangue preto e índio, com o cano da “evolução” revestido de forte aço, fabricada pelo imperialismo americano, manuseada pela grande mídia, o parlamento e a burguesia nacionais. Empunhada pelos fascistas do presente governo… está apontada para as cabeças do preto e do índio, sejam eles mais autóctones ou miscigenados. A bala está preparada para matar-nos em caos e sofrimento, enquanto os corruptos de plantão se riem
e produzem novelas e telejornais que os fazem verdadeiras celebridades.

Onde está a consciência negra?

Pouco nos resta falar nestas humildes linhas, mas muito a lutar. Com foco, força e resistência! Devemos atemo-nos menos aos discursos fascistas e mais às suas ações! Defender os negros e negras, a mulher, os indígenas, o povo brasileiro, as minorias, os LGBTs, o patrimônio público, nossa história e cultura contra essa carnificina moderna, é mirar nossos braços levantados com nossas bandeiras em todas as avenidas, com o foco apenas, todos e todas, na derrubada da reforma da previdência, na revogação da PEC do congelamento dos gastos públicos e da reforma trabalhista! Isso é consciência negra, indígena, LGBT, feminista, ecológica, dos direitos humanos e de todos e todas que tem algum tipo de consciência e consideração pela humanidade. Nosso manifesto agora é a unificação de todo o povo brasileiro, lutar numa verdadeira piracema, com gentes de tudo que é cor e credo, num verdadeiro dilúvio de homens e mulheres livres nas ruas!

Essa é a defesa da base social piramidal da nação afro-indígeno-brasileira!

 

IMAGEM: Negros jogando capoeira. Pintura de Augustus Earle

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