Existe uma economia política do Bolsonarismo?

Por: Fábio José de Queiroz, de Fortaleza, CE

Há historias que começam com o avô e terminam com o neto. Em 1964, logo depois do golpe empresarial-militar que depôs o governo constitucional de João Goulart, o Marechal Castello Branco, primeiro ditador-presidente, indicou Roberto Campos como um dos seus ministros da área econômica; para 2019, o governo de Jair Bolsonaro terá como presidente do Banco Central o economista e executivo do Banco Santander Roberto Campos Neto. Separados por mais de cinco décadas, avô e neto simbolizam o conteúdo da política econômica da tragédia do castellismo e da farsa do bolsonarismo ou estamos perante uma simples coincidência histórico-familiar?

As pistas

As insinuações e indicações econômicas de Jair Bolsonaro e os pronunciamentos de seu círculo mais próximo compõem o núcleo central desta análise que, de algum modo, busca responder não só a pergunta expressa há instante, mas, principalmente, à indagação que atribui título a este artigo.

Com sua rara habilidade em expressar o macabro como vulgar, Bolsonaro, pai e presidente, indica que as contrarreformas, notadamente a reforma da previdência, constituem um dos carros-chefes do seu programa econômico, ao lado das privatizações, das tendências de reforço das posições das oligarquias financeiras e do agronegócio. Tentemos definir isso à luz inclusive das manifestações de membros do próprio futuro governo.

A Folha de São Paulo informou que “Paulo Guedes quer acelerar o cronograma de privatizações do PPI como uma das primeiras medidas para gerar receitas e assim fazer frente ao quadro de aperto fiscal”. Junto disso, o economista defende reduzir as tarifas de importação. Ao mesmo tempo em que Guedes sinaliza esse receituário já clássico do liberalismo, Jair Bolsonaro ressalta a premência de que sejam adotadas medidas amargas, e o capitão se refere, sobretudo, à Reforma da Previdência, ao mesmo tempo em que sugere que a Reforma Trabalhista carece de aprofundamento e que o trabalhador deve escolher entre o emprego e o usufruto de direitos. Acrescenta ainda outra questão: a necessidade de acelerar a liberação de licenças ambientais, o que indica que o agronegócio “pujante” será uma das áreas prioritárias do próximo governo. Aliás, de um governo que nomeia para o Ministério das Relações Exteriores um senhor que defende a “tese” de que “mudança climática é uma trama marxista”, nada pode surpreender.

O ultraliberalismo da equipe econômica, contudo, não é um acaso histórico, uma vez que boa parte dessa equipe fez formação acadêmica em Chicago, como Paulo Guedes (Ministro da Economia) e Joaquim Levy (BNDES), ou na Universidade da Califórnia, caso de Roberto Campos Neto (BC). Esse ultraliberalismo é a cara metade da prioridade ao rentismo e às forças de mercado, até porque Guedes, Levy e Neto são todos executivos de bancos.

Uma tentativa de definição

Todo processo histórico deve ser submetido à análise, a um esforço explicativo, em suma, a uma tentativa de definição, sem temer ou subestimar as armadilhas.

Nessa perspectiva, não seria o modelo econômico do bolsonarismo apenas um ajambrado, evidentemente confuso como todo ajambrado, de intenções e propostas que não fogem ao modelo do ultraliberalismo antissocial e, nesse sentido, uma espécie de neodarwinismo social, no qual a agenda feroz contra os trabalhadores é a sua expressão mais contundente e inequívoca?

De fato, o futuro governo Bolsonaro busca criar uma “nova economia” à volta dos velhos temas tão banais e tão caros ao receituário neoliberal. E aqui cabe uma digressão. Os Bolsonaros são os continuadores de uma extensa corrente ideológica de extrema-direita que, ao longo da história brasileira, registra presença no livro branco da reação e da intolerância anticomunista, no interior do qual vicejaram o Integralismo, os golpistas de 1964 e os que gritaram vozes de comando contra as bandeiras vermelhas da esquerda em período mais recente da nossa história. Essa corrente de pensamento nunca adotou um programa coerente e nunca se postulou como congruentemente hostil aos interesses econômicos das potências mundiais. No caso de Jair Bolsonaro, essa atitude é ainda mais pró-imperialista. A sua sujeição simbólica à bandeira dos EUA, procedimento que nenhum integralista jamais adotou, equivale a um gesto de sujeição ao “Grande Irmão” do Norte.

A eleição havia descoberto esse rosto do bolsonarismo. Agora, a sua equipe econômica e o seu programa econômico mal-ajambrado descobrem a alma de sua errática economia política e, à primeira vista, as suas bases de princípio se corporificam na sujeição ao mercado e à ordem internacional, bem como aos seus donos. A isso, exatamente, corresponde uma parte importante da “ciência econômica” do capitão. Nessa lógica, o bolsonarismo imita toscamente o castellismo e o neto reprisa o avô.

Da análise resulta um retrato de corpo inteiro, em que faltam as minúcias, o detalhamento, as precisões finais, mas das revelações que todos os dias nos fazem Bolsonaro e seus áulicos, familiares ou não, os jogos de engenho dessa vertente política não vão além da lógica cujo sentido este texto oferece. Ao passo que propõe um caminho de redenção messiânica, para o qual arrastou milhões de pessoas durante a campanha eleitoral, o bolsonarismo aprofunda justamente o que nos trouxe até aqui: um itinerário de dependência externa e desigualdades internas, perpassado por rígidas fronteiras sociais, em que aos mais pobres é prometida uma ordem em que a retirada dos direitos básicos convive com a espada de Dâmocles do poder policial. Nunca esta espada esteve a serviço dos mais pobres.

A economia política do bolsonarismo e a classe trabalhadora

Lastreados nos elementos há pouco elencados, de nossa parte esperamos que este artigo ajude não só a mostrar como a economia política do bolsonarismo vibra as suas cordas e se define alheia aos discursos pretensamente patriotas de seu líder e, desse modo, se revela como provida de um ultraliberalismo pró-imperialista estreito e sovina; mas, da mesma forma, aspiramos estimular outros estudos nos quais o programa econômico do bolsonarismo possa ser devassado em suas minudências, tendo em conta que, aqui, apenas trazemos a lume os seus aspectos mais evidentes e notórios, e por que não dizer, preliminares.

O fato é que esse programa econômico de terra arrasada não é o fruto de uma simples coincidência histórico-familiar, mas, antes de tudo, é a sequela mais feroz do crescimento do neoconservadorismo no último período, fato que ensejou o fortalecimento de ideologias ultraliberais e, ao mesmo tempo, provocou uma derrota da classe trabalhadora que, felizmente, não é nem histórica nem irrevogável. É uma derrota porque não podemos considerar como triunfo da classe trabalhadora o ascenso da ultradireita, e no seu interior, o ascenso de uma vertente neofascista, que vencendo uma eleição cavilosa ameaça aos trabalhadores com condições ainda mais severas e difíceis.

Se a Reforma Trabalhista derrubou a casa e empurrou o trabalhador para um puxadinho erguido no fundo do quintal, a economia política do bolsonarismo traz consigo a ideia de por abaixo até o puxadinho. Sem casa, sem puxadinho – este é o destino da classe dos trabalhadores assalariados no Brasil?

Os tempos sombrios em curso, no entanto, não se traduziram ainda na destruição das organizações da classe que vive da venda de sua força de trabalho. O delírio coletivo se mostrou capaz de produzir uma força que pode servir de base a esse propósito, mas o propósito não é o mesmo que o já realizado. Nesse sentido, nem é preciso observar minuciosamente que alguns sinais de resistência, ainda que tímidos e reticentes, inserem-se no mundo dos trabalhadores e de suas organizações. A classe trabalhadora saberá defender as liberdades democráticas, mas, também, a sua integridade física perante as ameaças continuamente anunciadas pelo bolsonarismo, para que salte da miserável circunstância na qual se encontra em direção a um novo momento da luta política. Mas, para que salte da miserável circunstância na qual ela se encontra, é preciso mover milhões de seus integrantes e confrontar a economia política do bolsonarismo – vestida com os velhos trajes do prisco entreguismo -, e, para tanto, a frente única das organizações da classe trabalhadora, hoje mais do que antes, é essencial e decisiva.

Foto: EBC

 

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