A chave do Bolsonarismo

Por: Fábio José de Queiroz, de Fortaleza, CE

Sem cair num mecanicismo estreito, a chave da situação política e do futuro governo Bolsonaro, em larga escala, aparece com certa nitidez nos depoimentos e nas manifestações do presidente eleito, dos seus filhos e dos seus associados políticos e, não raro, o discurso bolsonarista se põe em harmonia político-estratégica com declarações como as do general Villas Bôas, que anunciou que o país esteve às portas de um levante militar em nome da continuidade da prisão de Lula. Mas, essa chave desponta também, particularmente, nas iniciativas em curso de constituição do póstero governo, como revelam as escolhas do general Fernando Azevedo e Silva para o Ministério da Defesa, do general Augusto Heleno para o Gabinete de Segurança Institucional (GSI) e do tenente-coronel da reserva da Força Aérea Brasileira (FAB) Marcos Pontes para a pasta da Ciência e Tecnologia.

Evidentemente, o segmento militar não está sozinho. O empresariado e a alta burocracia civil do Estado, que desempenharam papel decisivo no golpe institucional que derrubou Dilma e pavimentou o caminho no sentido de ascensão da extrema-direita, estarão representados no futuro governo. Paulo Guedes e Sérgio Moro já estão confirmados como ministros da economia e da justiça, respectivamente. Não estamos diante de movimentos aleatórios, mas de movimentos conscientes que afinam o caminho do governo Bolsonaro com o militarismo, o ultraliberalismo antissocial e a plutocracia reacionária.

Os que lutam por terra e por um meio ambiente saudável não poderiam encontrar maior antítese aos seus propósitos sociais e democráticos do que a nomeação da deputada federal do DEM Tereza Cristina para o Ministério da Agricultura. Aliás, o DEM ocupa espaço privilegiado no desenho do governo que se prepara para ser instalado no Planalto. A indicação do deputado federal Onyx Lorenzoni para Casa Civil não deixa dúvidas a esse respeito. A fisionomia de um governo retrógrado se esboça sem hesitar ou recuar.

Essas iniciativas, contudo, seguem dividindo espaço com a inalteração da retórica agressiva do bolsonarismo. Não por acaso veio ao mundo a frase-síntese de Eduardo Bolsonaro, deputado federal e filho do presidente recém-eleito: “Se for necessário prender 100 mil, qual o problema?” Como se fosse pouco, na ocasião o deputado afirmou que quer tornar o comunismo crime e tipificar o MST como terrorista. Os que imaginavam que os sujeitos dos enunciados eram meras personagens ansiosas em agradar o eleitorado cativo da retórica antipetista e antissocial, e que, portanto, tudo se equilibraria no pós-eleição, precisam – isso, sim, – restituir em si o estado de equilíbrio.

Quem buscar com uma lupa aspectos progressivos no futuro governo que é o subproduto de um golpe institucional que redundou em uma eleição viciada, uma vez que o líder das pesquisas estava (e está) preso a mando do agora designado ministro da justiça, cairá no velho conto do vigário. Estará arquitetando uma história de burla e autoburla.

É verdade que o condomínio dos Bolsonaros é constituído de distintas camadas, mas cada uma delas é um recuo na história, pois estamos falando de certo neoliberalismo com 40 graus de febre, pauta feroz contra a classe trabalhadora, militarismo, autocratismo, brutalização da política, intolerância, misoginia, racismo, homofobia e fundamentalismo religioso. Os que esperam desse edifício de camadas sobrepostas que ele possa abrigar algum elemento progressivo, com efeito, fiam-se em ilusões que, em lugar de servir as lutas de resistência que se esboçam, as podem conduzir a uma sinuca histórica, uma vez que a arquitetura desse edifício é a da reação em toda linha.

Eis a chave do bolsonarismo. Entendê-la é fundamental para organizar as lutas de resistência, para que não se hesite quando o quadro político não contém em si a permissão à ambiguidade ou o deferimento à hesitação.

Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil
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