Do mito da “nova classe média” ao “cidadão de bem”: os trabalhadores eleitores de Bolsonaro

Por: Morena Gomes, do Rio de Janeiro, RJ

Diante do resultado destas eleições, há uma pergunta latente a muitos de nós: em que momento se tornou tão difícil dialogar com parentes e amigos que passaram a reproduzir uma concepção de mundo elitista e irresponsável; ao mesmo tempo em que se encontram tão bem posicionados na condição econômica de trabalhadores, pauperizados e os primeiros a serem vítimas das políticas de austeridade fiscal? Para responder a esta questão (ou tentar fazê-lo) precisamos considerar alguns fenômenos: a herança de uma formação sócio-histórica onde desigualdade, violência, machismo e racismo são marcas estruturais; uma conjuntura de forte depressão econômica e agravamento das disparidades sociais; e a amortização da consciência de classe, efetivada pelo Partido dos Trabalhadores em sua ascensão ao governo federal nos primeiros 15 anos do século XXI. Sobre este último aspecto gostaria de reservar a maior parte de nossa atenção.

Gilberto Calil (2018) ao retratar o trabalho de base efetivado junto a famílias em bairros populares no sul do país durante o 2º turno das eleições, identifica dois perfis muito diferentes de eleitores. De um lado, a impressionante consciência de classe das camadas mais pobres; e, por outro, em bairros populares de renda um pouco superior e casas relativamente melhores, “não apenas uma avassaladora maioria bolsonarista, como também a expressão ideológica do empreendedorismo, da meritocracia e uma identificação entre pobreza e vagabundagem. Setores que ascenderam durante os governos petistas, mas que além de ter sua ascensão apenas pelo consumo, foram educados a pensarem como burgueses”. [1] Em afinidade ao texto de Calil (2018), a hipótese da qual parto neste ensaio é a de que o governo petista alterou o padrão de relação entre as classes sociais no Brasil a partir do fenômeno intitulado por “nova classe média”, repondo no lugar do acesso a direitos sociais fundamentais a lógica rasteira da concepção mercantil de cidadania. Ou seja, parte significativa da classe trabalhadora, em especial os seus segmentos jovens (na faixa dos 18 aos 30 anos) foram socializados ao início deste século sob uma autoimagem pequeno-burguesa, na condição de estrato médio e “cidadãos consumidores”, distanciados assim, de qualquer referência de classe e da dimensão política que lhe é inerente: a organização coletiva, partidária e /ou sindical, a identidade e solidariedade classista e o uso de instrumentos de luta como as greves.

Este segmento é resultado da primeira década dos anos 2000, caracterizada por mudanças significativas na base da pirâmide social, cujas alterações incluíram desde a queda da taxa de desemprego, a geração de empregos formais (com carteira de trabalho assinada) à queda da pobreza absoluta. Dos empregos criados nas duas primeiras gestões do governo petista, 95% possuíam remuneração mensal de até 1,5 salário mínimo (POCHMANN, 2012). Ainda que os dados apresentados demonstrem alterações positivas na condição de vida dos setores mais pauperizados e um forte combate à ‘condição de pobreza’ e de ‘pobreza absoluta’, os números também deixaram claro o limite de ascensão possível aos “de baixo”. Segmentos melhor posicionados, com rendimentos de 5 salários mínimos ou mais, condizentes ao real sentido do termo “classe média” atingiram déficit de em mais de 4 milhões de ocupações. Deste modo, falamos do resultado de quase 50% dos trabalhadores estagnados numa faixa de remuneração inferior a 2 salários mínimos.

A questão é que em um país como o Brasil, cujo legado colonial é sempre contemporâneo, a relação entre classes sociais constituiu-se de forma atípica à sua conformação clássica. Aqui, como bem sinalizou Fernandes (1976), as classes sociais relacionam-se como castas, cujas elites dominantes – diferenciadas em seu status material e caráter ultra-particularista – mantem seu domínio negando aos “de baixo” o usufruto do patrimônio público e do status de cidadania. [2] Logo, o não enfrentamento desta elite arcaica, justificado por uma política de colaboração entre classes e sua respectiva agenda neoliberal, conduziu o PT a reproduzir o nosso drama crônico: a negação da efetiva cidadania aos trabalhadores. Em seu lugar, quantificou a sociedade em estratos sociais de A à E e ofereceu aos trabalhadores o status via consumo e a ascensão à condição de “nova classe média”. Somou-se a geração de novos empregos o incentivo ao crédito, as políticas habitacionais e o acesso a novos bens: da compra do automóvel à educação privada. [3]

Recordo-me do discurso da ex-presidenta Dilma Rousseff, no Fórum Econômico Mundial de 2014, quando afirmou que nos tornávamos “por meio de um processo acelerado de ascensão social, uma nação dominantemente de classe média. (…) Mas onde apenas 47% dos domicílios têm computador; 55% apenas possuem máquinas de lavar roupa automática; 17%, freezer; 8% TV plana, evidenciando o tamanho da demanda ainda a ser atendida e as oportunidades de negócios a ela associadas“. [4] Como sabemos, pós 2014, no lugar das “oportunidades de negócios” sucedeu-se o agravamento da crise econômica, um golpe jurídico-midiático e profundas medidas de austeridade fiscal. E aqui está o nosso paradoxo: ainda que atingidos pelos altos índices de desemprego e subutilização da força-de-trabalho essa ex-“nova classe média” (se assim podemos chamá-la) se reconhece como uma casta e se comporta como tal perante os estratos D e E (mais pauperizados, em piores condições habitacionais e, em geral, negros residentes em comunidades). Impossibilitados de ascensão econômica e do consumo de outrora, o seu status redefine-se à condição de “cidadãos de bem” e toda agenda reacionária que este incorpora. Falamos, portanto, de um amplo segmento social que educados a pensarem como burgueses tornaram-se base para ascensão fascista.

Portanto, a tarefa que se apresenta a esquerda socialista é clara: precisamos dialogar com os trabalhadores, ainda que parte destes não compreendam o sentido de classe desta palavra. Ato que nos exige organização, paciência e muito trabalho de base.

FOTO: Eleitores comemoram a vitória de Jair Bolsonaro em Brasília. Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil

NOTAS

1  – Cf. CALIL, Gilberto. Dez notas iniciais depois da eleição de Bolsonaro. Disponível em: <https://esquerdaonline.com.br/2018/10/29/dez-notas-iniciais-depois-da-eleicao-de-bolsonaro/>. Acesso em: 16 nov. 2018.

2 – Cf. FERNANDES, Florestan. A Revolução Burguesa no Brasil – Ensaio de interpretação sociológica. 2º Ed. Rio de Janeiro: Editora Guanabara, 1976; e

3 – Cf. POCHMANN, Marcio. Nova Classe Média? O trabalho na base da pirâmide social brasileira. São Paulo: Boitempo, 2012.

4 – Disponível em: <http://g1.globo.com/economia/noticia/2014/01/ veja-integra-do-discurso-de-dilma-no-forum-mundial-de-davos.html>. Acesso em 16 nov. 2018.

 

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