Cenário eleitoral e as tarefas da esquerda socialista

Editorial de 25 de agosto de 2018

As eleições presidenciais estão totalmente indefinidas. A menos de dois meses da eleição, ninguém pode dizer quem governará o País nos próximos anos. E não porque a disputa esteja embolada. Há um líder nas pesquisas, com ampla vantagem. Se não fosse a interferência do Judiciário na política que resultou na sua prisão, qualquer pessoa poderia apostar que Lula retornaria ao poder, sem medo de perder a aposta.

O ex-presidente tem liderado todas as pesquisas, mas teve um grande crescimento nas últimas semanas, chegando a 37% das intenções de voto, na estimulada, e 28%, na espontânea do Ibope, no dia 20. Lula tem cerca de o dobro dos votos do segundo colocado, Jair Bolsonaro, com 18% e 15%, respectivamente. Até mesmo a possibilidade de uma vitória no primeiro turno estaria colocada.

No entanto, a continuidade do golpe certamente se traduzirá no impedimento de Lula concorrer, em um novo ataque às liberdades democráticas, condenado até mesmo pela ONU.

Assim, a estratégia petista consiste em buscar transferir o máximo de votos para seu sucessor, Fernando Haddad, apresentando-o como um emissário de Lula.

A julgar pelas pesquisas, pode dar certo. Pesquisa Datafolha do dia 22 aponta que 31% dos que disseram votar em Lula votariam em um candidato indicado por ele. Outros 18% poderiam votar. Ou seja, 49%, quase metade dos 37% das intenções de voto de Lula, poderiam escolher Haddad. Outra pesquisa, da XP, mostra que o “candidato apoiado por Lula” já contaria com 13%, em segundo lugar.

Mas não há certezas. Haddad terá que disputar também com Ciro e Marina, que “herdam” parte dos votos de Lula.

Por outro lado, a força de Bolsonaro impressiona. Seus índices não caem, mesmo diante do caso da Val, denunciada como funcionária fantasma. Ao contrário, ele também cresceu nas pesquisas. A percepção de uma fatia do eleitorado permanece sendo a de um candidato que não faz parte do sistema, mesmo com tantos mandatos e compartilhando de práticas como essa.

A reação dos de cima
O mercado reagiu ao crescimento de Lula. A bolsa caiu, o risco-país aumentou. Foi também uma reação ao baixo desempenho de Alckmin. A resiliência de Bolsonaro cria dificuldades para o tucano, representante dos demais tons de Temer. Favorito da elite e do grande capital, não consegue decolar nas pesquisas, permanecendo com menos de 5%. Sem saber se vai poder contar com as certezas que teria em um governo tucano, parte da burguesia avalia o apoio a Bolsonaro em um segundo turno.

Mas a preocupação de Alckmin não significa, ainda, desespero. A segunda fase da campanha começa no dia 31, próxima sexta, com o início da propaganda de TV e rádio. Ai, o peso do PSDB e do Centrão fará toda a diferença: Ele terá 5 minutos e 34 segundos, contra 8 segundos de Bolsonaro. O candidato tucano terá 434 inserções de TV, contra 18 do militar. É muito improvável que isso não surja efeito entre os eleitores, em especial de Marina e Ciro.

O duplo discurso do PT
Haddad entrou em campanha, percorrendo cidades do Nordeste, onde uma intervenção consolidou alianças com o PSB, esvaziando Ciro, e até mesmo com golpistas.

Em pelo menos uma vez, Haddad, pouco conhecido, foi confundido e chamado de “Andrade”. Do ponto de vista de parte do eleitorado, pouco importa. Ele apenas é o representante de Lula.

Mas sua escolha não foi ao acaso. O ex-prefeito de São Paulo é muito mais palatável para as elites, para o “establishment”. É reconhecido pelo seu pragmatismo, elogia FHC e Alckmin, etc. Sua presença como substituto é também um aceno para parcelas da burguesia, em um movimento para criar condições de retorno ao poder. Haddad já reuniu com instituições como o J.P. Morgan, Morgan Stanley e o BTG Pactual, e os convites têm aumentado.

Ao mesmo tempo em que discursa contra o legado de Temer, promete enfrentar a mídia golpista e até rever parte das reformas, o PT adota outro discurso para empresários e banqueiros. Mas, como o ditado diz, “não se pode servir a dois senhores”.

Enquanto milhões de trabalhadores fizeram uma greve geral contra a reforma da Previdência e volta a depositar esperanças no PT, esse mesmo partido é no mínimo dúbio sobre o tema, acenando com a possibilidade de uma reforma da Previdência.

Não se pode lutar contra o golpe em curso no País, e se aliar em dezenas de estados a líderes do golpe e protagonistas de grandes ataques, como a ampliação da terceirização.

O discurso do PT deveria ser um só, a altura da indignação de sua militância e de milhares de brasileiros, em especial os 27 milhões que estão desempregados. Deveria defender medidas como o fim e a revogação das reformas, a ampliação dos direitos, a retomada do controle sobre o petróleo, como apontou o manifesto de organismos e pastorais da Igreja Católica.

Por um novo começo para a esquerda
Este programa de ruptura e enfrentamento com o lucro de uma minoria e em defesa dos direitos sociais tem sido defendido pela candidatura de Boulos e Sonia Guajajara (PSOL-PCB-MTST-APIB). Sua candidatura tem expressado uma alternativa da esquerda socialista, reunindo milhares de ativistas, nos movimentos sociais e na juventude.

A candidatura representa a defesa das liberdades democráticas, tendo se colocado nas ruas contra o golpe e a prisão de Lula, contra o conservadorismo e os ataques a mulheres, negros e LGBTs, além de um enfrentamento permanente com a extrema direita.

A esquerda socialista está diante de um grande desafio, em um período breve. Apresentar nas próximas semanas um programa político para milhares de pessoas, a partir da candidatura Boulos, vinculando-as às campanhas estaduais e proporcionais. É hora de disputar não só o voto, mas a consciência de milhares de ativistas para uma saída radical para o País, contra a ilusão da colaboração de classes.

E conquistar apoio entre setores organizados e de massas, hoje disputados pela extrema direita militar, disfarçada de novidade. Desta forma, estaremos plantando as sementes para a reorganização da esquerda no País, liberta das armadilhas de quem acredita que seja possível governar para todos.

 

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