Uma polêmica com o balanço eleitoral do MES

Por: Carol Coltro, de São Paulo, SP

O debate de ideias na esquerda socialista é parte do melhor da tradição marxista. Há pelo menos dois anos desenvolvemos visões distintas do MES (Movimento Esquerda Socialista) sobre importantes fenômenos da luta de classes no Brasil: a Lava Jato, o sentido das mobilizações de 2015, a profundidade do golpe parlamentar, a prisão de Lula. Mas isso não diminui o respeito mútuo e os nossos acordos – partilhamos uma herança comum na Quarta Internacional, somos do mesmo partido e temos inúmeros objetivos comuns na luta pela construção de uma alternativa de esquerda para a crise brasileira.

O MES foi uma das correntes fundadoras do PSOL. Esse acerto deve ser sempre reconhecido e lembrado. A candidatura de Luciana Genro em 2014, felizmente aceita pelo PSOL depois da renúncia de Randolfe Rodrigues, fez a bandeira da esquerda socialista brilhar. Além disso, o MES foi uma das primeiras correntes do PSOL a se posicionar pelo acolhimento do ex-MAIS no PSOL, em 2016, e nunca esqueceremos essa solidariedade. Tudo isso nos une. E tem muito valor. Queremos construir relações de confiança. Mas isso só é possível esclarecendo as divergências, como já fizemos de forma respeitosa contra a posição desta corrente, quando esta defendeu uma suposta progressividade da Lava Jato.

Nos referimos neste texto ao balanço eleitoral publicado pela sua Coordenação Nacional, no qual faz uma avaliação da situação brasileira e do lugar do PSOL da qual discordamos.

Essa avaliação parte da premissa de que a explicação para o crescimento de Bolsonaro e da extrema direita neofascista é um sentimento predominante de renovação, “contra tudo que está aí”. E a partir daí, o texto apresenta um balanço duro do PSOL:

“a esquerda crítica ao PT perdeu oportunidades para converter-se num polo anticapitalista e anti-regime com grande audiência nacional. A escolha do PSOL, desde 2015, de abster-se nos momentos mais decisivos, de adotar uma posição independente do PT impediu que surgisse uma alternativa à esquerda com peso de massas. Esta ausência cobra seu preço quando frações da classe trabalhadora, das massas populares e da pequena-burguesia, que poderiam ser convencidas por nossas ideias, iludem-se por uma liquidação reacionária do regime da Nova República.”

Trata-se de uma crítica muito grave. O PSOL teria sido, de alguma maneira, corresponsável pelo crescimento de Bolsonaro e do neofascismo no Brasil, colocando-se como um empecilho para que a esquerda radical capitalizasse a crise brasileira.

Por que Bolsonaro conquistou influência  eleitoral de massas?

Desde março de 2015, com as grandes mobilizações da classe média urbana mais abastada, assistimos a uma ofensiva  burguesa. Essa ofensiva inverteu a relação social de forças de forma desfavorável para a classe trabalhadora e sua juventude. As mobilizações pelo impeachment de Dilma Rousseff alcançaram a dimensão de vários milhões, a votação no Congresso consagrou o golpe parlamentar e ocorreu uma derrota política que não foi somente uma derrota do PT, mas abriu-se uma ofensiva de classe que provocou avanços concretos sobre a classe trabalhadora, como a reforma trabalhista e a PEC do teto de gastos.

O debate sobre esta mudança qualitativa na situação política é parte importante das nossas diferenças de caracterização e política. O MES considera que o impulso de junho de 2013 permaneceu ininterrupto, vivo, até agora, em outubro de 2018, às vésperas do início do governo Bolsonaro.

Evidentemente existe luta e resistência, as derrotas não são o “fim da história”, o jogo continua sendo jogado. Há disposição de luta nos setores mais jovens  e entre os oprimidos e essa é nossa fortaleza para enfrentarmos este cenário. Houve uma potente resistência, que barrou a reforma da Previdência, mas não sendo suficiente para inverter o signo da correlação de forças, a reação burguesa pôde avançar.

Bolsonaro capitalizou, em uma situação de crise política, social e econômica, o crescente antipetismo na classe média, fomentado pelos grandes grupos econômicos e de mídia. Foram três anos de propaganda massiva contra o PT. A operação Lava Jato teve como objetivo principal derrubar o governo Dilma e criminalizar o PT, foi um dos agentes decisivos do golpe. E posteriormente, em um segundo momento, condenou, prendeu e impediu Lula de ser candidato a presidente da República. Ela teve papel decisivo para a evolução negativa da situação política. Ela alimentou, na pequena burguesia enraivecida pelo impacto da crise econômico-social, a ideologia reacionária de que o maior problema do Brasil seria a corrupção do PT. Finalmente, uma parte da classe trabalhadora do Sul e Sudeste foi arrastada para a base social da reação. Para completar o caráter reacionário da Lava Jato, Sergio Moro acaba de anunciar que será o superministro da Justiça do governo Bolsonaro.

Não é de se estranhar que, por conta dessa avaliação equivocada a respeito da Lava Jato, Roberto Robaína, aponte o superministério nas mãos de Moro como um elemento contraditório do governo Bolsonaro, uma espécie de ala disputável do governo.

Vemos o oposto: o superministério de Moro desnuda que a Lava Jato era uma operação política, com o objetivo de abrir caminho para a ofensiva brutal de classe da burguesia. Antes a partir dos poderes de um juiz de primeira instância, agora com os poderes de ministro.

A desmoralização do PSDB, com os escândalos envolvendo Aécio Neves e sua participação desastrosa no governo Temer, ajudou Bolsonaro a se conectar com a base social do golpe, pressionada pelo aumento dos custos dos serviços. Não conseguiam mais pagar a dívida da casa própria, do carro e até do estacionamento, o plano de saúde, a escola particular dos filhos, a mensalidade do clube, a empregada doméstica. O agravamento da insegurança pública acendeu o rastilho de pólvora do ressentimento social.

O rancor social se identificou, profundamente, com o discurso de ódio de Bolsonaro criminalizando a esquerda pela crise. Não fosse tudo isso o bastante, Bolsonaro inflamou o racismo, o machismo e a LGBTfobia naqueles que viam com desgosto as pequenas conquistas dos oprimidos.

O “bode expiatório” tinha sido encontrado. A conivência das instituições ajudou. A justiça, o parlamento, o ministério público se calaram perante a ofensiva reacionária da extrema-direita. Por fim, com o fracasso de Alckmin, depois dos resultados do primeiro turno, a maioria da burguesia brasileira aderiu à candidatura de Bolsonaro.

A evolução da situação política desautorizou as caracterizações do MES. A Lava Jato não cumpriu um papel progressivo “limpando a política das velhas castas”. Ao contrário, foi elemento decisivo da virada reacionária na situação política. O regime democrático eleitoral, o semipresidencialismo consagrado pela Constituição de 1988 passou a ter elementos bonapartistas, autoritários, mais acentuados. Jair Bolsonaro lidera uma corrente eleitoral de massas e grupos neofascistas estão tendo um protagonismo inédito na história recente do Brasil.

O papel do PSOL e da aliança nas eleições de 2018

A tarefa do PSOL na situação aberta após o golpe parlamentar e, portanto, nessas eleições era, centralmente, lutar contra a ofensiva de classe da burguesia. Esta ofensiva se expressou através dos ataques aos direitos da classe trabalhadora e às liberdades democráticas impostos pelo governo Temer. Esta tarefa era indivisível do enfrentamento com Bolsonaro. Porque desde o início da campanha era inconfundível que Bolsonaro era a candidatura com maior força eleitoral, já que a prisão de Lula deixava o PT descabeçado. Mais grave, depois do episódio do atentado da facada em Juiz de Fora do dia 6 de setembro, ficou claro que Alckmin não conseguiria recuperar a influência eleitoral do PSDB.

É inequívoco o papel do PSOL nas lutas contra o golpe e contra Bolsonaro. As denúncias que fizemos nas eleições, especialmente nos debates, tendo Guilherme Boulos como porta voz, a política foi certeira: enfrentamento prioritário a Jair Bolsonaro, revogação das reformas de Temer, contra a reforma da Previdência, contra as privatizações, reforma tributária progressiva e etc.

Mas existe outra tarefa estratégica que cabe ao PSOL. Ela é cara tanto para o MES quanto para a Resistência. Mas seria injusto não reconhecer que ela foi assumida, também, pela aliança entre PSOL, MTST, PCB, Mídia Ninja e APIB. A tarefa de fortalecer um polo de independência de classe em condições de superar o PT, e se colocar como alternativa de direção ao movimento de massas.

O MES avalia que diante dessa tarefa fracassamos. Mais grave. Que teríamos sido, em alguma medida, de alguma maneira, responsáveis pela audiência da extrema direita. Porque a campanha Boulos/Sonia, ao não ter uma política independente do PT, não teria sido capaz de dialogar com um setor de massas e da vanguarda antipetistas. Tentar semear uma alternativa de esquerda no campo do antipetismo é uma grande ilusão. O antipetismo é anti-estatais, é pró-privatizações, é anti-povo, é misógeno, racista e LGBTfóbico. É infantil achar que era possível ganhar às massas em meio a uma situação reacionária, onde as ideias da esquerda radical estão em completa minoria. A linha correta era de combate ideológico. Justamente por isso, consideramos que o respeito conquistado pelo PSOL, nestas eleições, nunca foi tão grande. Consideramos que Boulos se transformou em uma das maiores lideranças de massas da esquerda brasileira e que afirmamos uma alternativa ao PT.

Resta saber o que os companheiros interpretam como uma política independente do PT. Não consideramos que a defesa de Lula contra a sua prisão arbitrária tenha rompido com a independência política do PSOL, pois se deu nos marcos de uma frente em defesa das liberdades democráticas. Participamos com nossa própria pré-candidatura, sem nos comprometer com o programa petista. Não acreditamos que seria correto ignorar, no primeiro debate na TV, que o primeiro colocado nas pesquisas estava preso por uma operação política, que no momento em que escrevemos este texto está evidente.

No entanto, essa posição não nos impediu de criticar o PT. Denunciamos as alianças nos estados com MDB, inclusive, no debate na TV. A diferenciação também se deu nos marcos do programa defendendo investimento público na educação, desmilitarização das polícias, contra a reforma da Previdência, contra os privilégios do judiciário, legalização do aborto e etc. Para ilustrar trazemos algumas matérias da grande imprensa: “Boulos critica ‘beija-mão’ de Haddad a caciques do MDB e diz que é ‘caso de masoquismo” (Folha de S. Paulo), “Boulos critica encontro de Haddad com Renan e diz ser único candidato que ‘enfrenta de verdade esse sistema”  (G1).

A campanha teve, certamente, erros. Em nossa opinião foram quantitativos, não qualitativos. A Resistência fez, por exemplo, ao lado do MES, nos organismos do PSOL e até publicamente, um debate para que se incorporasse o tema da auditoria da dívida pública, que consideramos essencial.

Nesse sentido discordamos, frontalmente, que não houve independência do PT na campanha de Guilherme Boulos e do PSOL. E consideramos, mais que um exagero polêmico, um desatino, a acusação de que a linha da campanha do PSOL tenha entregue parte das massas a Bolsonaro.

Portanto, se o MES entende por “independência do PT” que a campanha não deveria ter se posicionado, ativamente, contra a prisão de Lula, divergimos. Ou, se o MES entende que não deveríamos ter buscado impulsionar a frente antifascista depois do assassinato de Marielle, a partir do ato no Circo Voador, no Rio de Janeiro, diante dos ataques à caravana Lula, estamos diante de outra discordância.

Porque todos estes ataques, e muitos outros, são contra às liberdades democráticas, aos movimentos sociais, e à toda a esquerda, não só ao PT. Na verdade, estes  posicionamentos fazem com que tenhamos futuro. O PSOL passou na prova da história. Não esperamos Bolsonaro chegar às portas do poder para construir a frente antifascista que hoje se coloca na ordem do dia. Que bom que cálculos eleitorais não nos cegaram nesse momento histórico.

O antipetismo é um caminho válido para a tarefa necessária de superação do PT?

É evidente que a burguesia, especialmente através da extrema-direita, tem hoje a iniciativa política e por isso acaudilha outros setores sociais e arrasta parte da classe trabalhadora. Nossa tarefa é sim inverter o signo e buscar com que nossas organizações e a classe trabalhadora dividam a classe média e arrastem uma parcela expressa dela e do sub proletariado. É preciso disputar, sim, amplas massas proletárias e subproletárias que enxergam nas propostas reacionárias de Bolsonaro uma saída para a situação desesperadora na qual se encontram. Mas o antipetismo não é um atalho válido para essa disputa, porque ele é reacionário e alimenta ideologicamente as forças sociais contrárias a nós.

A tentação de “pegar carona” no repúdio ao PT embrulhado no discurso anticorrupção nos levaria a um beco sem saída. O ódio da classe média contra o PT foi incendiado pela LavaJato, mas tem raízes de classe mais profundas e complexas e, infelizmente, reacionárias. Não é um sentimento democrático progressivo.

O caminho para fazer essa disputa é nos ligando com os anseios da classe trabalhadora na sua experiência com este governo. Será, portanto, a campanha política e a luta contra a reforma da Previdência já anunciada, a luta contra a privatização do ensino público superior, a luta contra uma anunciada reforma trabalhista ainda mais radical, a luta contra as privatizações, o desmascaramento da Lava Jato como operação política e o desmascaramento das entranhas corruptas deste governo. Enfim, é necessário nos apresentar para as lutas na defesa da classe trabalhadora para nos reconectarmos com os setores da classe trabalhadora iludidos com o neofascismo.

Não é qualquer ruptura com o PT que é progressiva. Não é qualquer caminho que nos serve para reconquistar as massas desiludidas com o PT, é preciso um caminho que busque reverter a deseducação promovida pelo próprio PT. Devemos ser instrumentos para retomar o classismo, a independência de classe, a desconfiança das instituições burguesas, inclusive do judiciário e da polícia. Nossas ideias certamente encontrarão terreno para serem semeadas na luta de resistência nas quais seremos linha de frente.

Da mesma maneira devemos dialogar com os setores de esquerda iludidos com Ciro Gomes, como alternativa de esquerda. Aliás Guilherme Boulos tem a simpatia de parte importante do ativismo que votou em Ciro. Como político burguês que é, se restringirá a imprensa e a luta institucional.

É verdade que Ciro Gomes fez essa opção de cavalgar num suposto “antipetismo” independente. Vejamos onde foi parar: durante a campanha de segundo turno, a opção de Ciro Gomes por preservar uma imagem de oposição ao PT determinou que tivesse fora da frente democrática e do enfrentamento a Jair Bolsonaro e o neofascismo. Ciro preferiu preservar sua imagem de oposição ao PT pensando nas eleições de 2022 e apostando que mais a frente pode ser aceito por uma parcela da burguesia brasileira. Um projeto que busca construir uma esquerda “neo-desenvolvimentista” por dentro da burguesia, e não por organizações da classe trabalhadora. Por isso, surge como um adversário político que precisa ser derrotado no próximo período. Não podemos absolver Ciro dos seus erros e irresponsabilidades políticas perante a gravidade da situação política aberta no segundo turno com a possibilidade de vitória de Bolsonaro que acabou se confirmando. É decisivo que de maneira unificada façamos esse balanço.

Mas resta o argumento de que o “antipetismo” de Ciro poderia ter vencido, no segundo turno, Bolsonaro. Esta é uma hipótese que nunca vai se comprovar por não ter efetivamente se dado, o que não impediu que parte da esquerda fizesse um cálculo eleitoral. Alguns consideraram que Ciro Gomes poderia ser uma opção mais viável que Haddad para vencer Bolsonaro no segundo turno. Sabemos que esta não foi a posição do MES, que se manteve firme na defesa da candidatura Boulos, mesmo tendo apoiado como pré-candidato Plínio de Arruda Sampaio Jr.

Mas a presunção de que Ciro Gomes não seria atingido pelo antipetismo é equivocada. A verdade é que esse movimento de pensar o melhor candidato para derrubar Bolsonaro menospreza a ofensiva reacionária em curso e que o antipetismo é também anti-esquerda e anti-direitos, ou seja, Ciro Gomes também sofreria o impacto dessa reação.

O documento da coordenação nacional do MES também afirma:

“O que devemos debater com a base petista é que Lula inviabilizou qualquer política de frente democrática, resultando numa linha hegemonista que debilitou o diálogo com quem rompeu ou não quer se colocar no espectro petista. A falta de uma autocrítica de Lula e da direção do PT levou a afastar Ciro de um empenho militante no segundo turno, mesmo que tenha tido uma votação ampla dos setores democráticos.”

É verdade que o PT frequentemente tem uma postura hegemonista no movimento de massas, na frente única e nas frentes democráticas, enfraquecendo a unidade necessária para combater a burguesia. Nós lutamos contra tal hegemonismo e por uma frente que realmente possa unificar a classe trabalhadora em defesa das liberdades democráticas. Mas não concordamos que qualquer justificativa caiba para amenizar a traição de Ciro Gomes que abandonou o país durante um dos períodos de mais agonia, diante da luta para tentar impedir que um neofascista chegasse ao poder.

Não acreditamos que o PT deveria ter aberto mão da luta contra a prisão de Lula, contra a operação política reacionária de prender o primeiro colocado nas pesquisas. Mas debater as táticas eleitorais do PT é cair na lógica de que as eleições se deram em uma correlação de forças totalmente aberta, é cair na lógica eleitoral, é ajudar a manter sob a neblina os reais erros do PT, que são mais graves do que um possível erro eleitoral.  O maior erro da direção do PT foi não ter aproveitado a oportunidade aberta pela greve geral de abril de 2017 contra a reforma da Previdência do governo Temer. Ela abriu uma janela, quando o escândalo das denúncias da JBS, deixou o governo Temer suspenso, a classe dominante dividida, e a luta pela antecipação das eleições diretas se colocou na ordem do dia. A direção do PT fez uma aposta errada, e foi um grande entrave para as mobilizações. O PSOL, ao contrário, respondeu com firmeza à nova conjuntura, a partir da iniciativa enérgica de convocação de atos de massas no Rio de Janeiro e São Paulo por Diretas. O PT preferiu apostar no respeito ao calendário eleitoral e na possibilidade de reverter, no TRF-4 de Porto Alegre, a sentença de Moro na primeira instância de Curitiba. A direção do PT tremeu com medo de ser acusada de tentar usar contra Temer as mesmas armas usadas pelo MDB/PSDB contra Dilma Rousseff. Sua “lealdade” ao regime foi até o limite do suicídio político.

A unidade necessária para enfrentar Bolsonaro não pode nos impedir de criticar o PT. Mas o conteúdo da crítica faz diferença. O PT deve ser superado porque caducou historicamente. Não pode mais impulsionar a mobilização e organização independente dos trabalhadores. Foram anos de abandono da luta ideológica e do classismo depositando toda a esperança e insatisfação nas urnas e na institucionalidade. Isso custou mais do que a prisão de seu principal líder. Custou desmoralização entre os trabalhadores e enfraquecimento de suas entidades. Em treze anos de governo se fortaleceram as instituições repressivas do Estado e o Judiciário. A manutenção do mesmo aparato militar da ditadura sem a punição para os agentes da repressão fez crescer o genocídio da juventude negra, o encarceramento dos filhos da classe trabalhadora, e os deixou livres para que neste momento oferecessem a “ordem” como saída para a crise. Este é o conteúdo da crítica que propomos fazer ao PT.

Caducar historicamente não é caducar politicamente e, por isso, o PT, após tamanha ofensiva, chegou ao segundo turno, e obteve a maior bancada da Câmara dos Deputados, e segue dirigindo o movimento social organizado de forma ainda majoritária. Isso significa que a diferenciação com o PT não deve ser sectária, nem nos impedir de dialogar com sua base, muito menos nos impedir de golpear juntos contra o fascismo.

Por isso a superação do PT passa por nos apresentarmos na linha de frente para os enfrentamentos que virão. Passa por dialogar com as demandas concretas dos trabalhadores e passa por apresentarmos um programa anticapitalista, e isso não pode ser feito cortando caminho pelo atalho do antipetismo que é hoje uma ideologia reacionária.

Para disputar amplos setores de massas hoje iludidos pelo fascismo é preciso reavivar o movimento de massas da classe trabalhadora e colocá-lo em ação. A frente única antifascista está no centro da tática política. É assim que disputaremos a consciência de milhões. A autoridade moral do PSOL diante dos setores que neste momento podem ser ganhos para a superação a esquerda do PT é imensa. Seja a base que votou em Ciro, seja a base que votou em Haddad.

O enfrentamento dos setores oprimidos a Bolsonaro foi o fato político mais importante das eleições. Esse fenômeno segue uma tendência mundial. São as mulheres, negros, LGBTs e jovens que estão na vanguarda das lutas, em especial, contra a extrema-direita. Esse fato foi determinante para o crescimento eleitoral do PSOL e para que o partido ultrapassasse a cláusula de barreira. Isso porque estamos ligados às lutas dos oprimidos. Esse foi um importante passo para a construção da Frente Antifascista que devemos nutrir e fortalecer desde já. Aí também reside parte da votação expressiva que tivemos em nossas candidatas feministas, especialmente, as mulheres negras.

A resistência pujante nas universidades e os atos do dia 29 de setembro apontam o caminho: organizar a resistência e construir aí uma nova esquerda!

A vitória política da candidatura Guilherme Boulos e Sonia Guajajara

A baixa votação da candidatura Boulos/Sônia Guajajara tem explicação. Foi o fenômeno do voto útil que foi antecipado para o primeiro turno como reação à ameaça Bolsonaro. O MES fez uma forte campanha e sabe que inúmeras pessoas justificavam o não voto em Boulos. Queriam votar em uma candidatura em condições de ir para o segundo turno enfrentar Bolsonaro.

A explicação que o MES propõe para explicar a contradição entre votos proporcionais e votos para a chapa Boulos-Sônia é instrumental, e limitada a lógica eleitoral. O documento da coordenação nacional do MES afirma:

“O PSOL teve, nesse marco, um desempenho eleitoral contraditório: se, por um lado, em sua localização nacional, o partido teve uma campanha presidencial fraca e recuou em sua capacidade de implantar seu projeto; por outro, o crescimento de suas bancadas federais e estaduais revelou justamente a força que uma política independente e colada ao movimento democrático pode ter…”

“Guilherme Boulos, na preparação de sua candidatura, optou por uma linha política de não independência, que o impediu de apresentar um novo rumo para o país por não poder apresentar uma crítica real ao regime e a seus principais atores. Ao final da campanha, quando chamou a luta contra Bolsonaro, pôde encerrar sua participação nos debates eleitorais com dignidade. Pela construção anterior de sua candidatura, entretanto, Boulos não pôde apresentar-se como líder de um novo projeto.”

Não é uma suposta diferença na linha política das candidaturas proporcionais na relação com o PT que explica a contradição. Em primeiro lugar, porque nossos deputados e deputadas eleitos não tiveram uma linha diferente em relação ao PT. Inclusive o perfil das candidatas eleitas do MES, Sâmia e Fernanda, eram bem próximos ao perfil do PSOL, e de forma alguma fizeram demarcações mais explícitas que as de Boulos com o PT em seus vídeos, programas de TV e materiais. Definitivamente as candidaturas eleitas, incluindo as do MES, não foram vistas por amplas massas e nem pela vanguarda como candidaturas que demarcavam uma suposta independência do PT ausente na candidatura presidencial. Parte dos votos de nossas candidatas e candidatos eleitos foram inclusive de setores petistas.

Por outro lado há algumas possibilidades de aferir a política defendida pela Revista Movimento, que contraditoriamente não foi testada pelas candidatas eleitas do MES, mas por exemplo, pelo PSTU, que implementou uma variante da tática proposta pelos camaradas e navegou no “contra tudo que está aí”. Mesmo tendo Vera como candidata, uma mulher negra e nordestina, não saiu do primeiro turno com sua imagem ou prestígio aumentado  na vanguarda. Ao contrário, saiu ainda mais isolado, com menos votos do que nunca, e com ainda menos capacidade de mobilização. Outros candidatos do próprio PSOL, como o vereador Babá, da CST, com perfil de priorizar a crítica ao PT, ante o enfrentamento as alternativas da direita e extrema direita, tiveram resultados eleitorais baixíssimos que revelam que não foi essa a razão de sucesso da nossa importante e valorosa bancada.

O posicionamento do PSOL de conjunto e da aliança estando na linha de frente da luta contra a extrema-direita e cumprindo um papel decisivo nas mobilizações de mulheres #EleNão do dia 29 de setembro potencializou nossas figuras públicas e foi decisiva para nossa vitória eleitoral. Esse mérito não é de uma corrente do PSOL, em especial, mas do partido de conjunto e da aliança que construímos, que soube se conectar a luta dos oprimidos, vanguarda da luta contra Bolsonaro.

Justamente, por isso, entendemos que também houve nos proporcionais um voto de compensação, impulsionados inclusive pela campanha Boulos, e a simpatia que esta teve por parte da vanguarda. O PSOL acabou tendo uma vitória política e eleitoral, superando a cláusula de barreira, chegando a quase 3% dos votos para deputado federal.

A vanguarda tem respondido aos chamados de Boulos e do PSOL a ação e esse é o objetivo mais almejado pelos revolucionários. A recepção de Boulos nas Universidades durante a disputa de segundo turno também  demonstram de forma inequívoca o prestígio que adquiriu nossa aliança na disputa eleitoral. Boulos sai como uma das principais figuras da esquerda no país, e o PSOL como o partido mais engajado na luta eleitoral e das ruas para derrotar Bolsonaro. Foram milhares de estudantes por onde passou. Boulos foi ovacionado no ato do dia 29 de setembro, assim como em todas as mobilizações do segundo turno no país e agora, depois do segundo turno, esteve a frente das mobilizações e plenárias convocadas no dia 30 de outubro.

As Brigadas pela Democracia convocadas pela aliança já tem mais de 20 mil inscritos para se organizar conosco na luta contra o fascismo.

Este saldo se deve a correta tática de lançar uma aliança entre PSOL, MTST, PCB, Mídia Ninja, APIB. Essa aliança, ao invés de enfraquecer o PSOL, como previa o MES, nos fortaleceu. Mesmo com votações superiores, nenhuma candidatura presidencial anterior do PSOL proporcionou tanta capacidade de mobilização social, nem teve tanto prestígio sobre setores mais amplos que a base do próprio partido. Tudo isso para nós é muito significativo, pois o PSOL está melhor localizado para disputar a direção das lutas, terreno onde o PT deve ser superado. Comparar essa votação com outros momentos políticos é descabido, já que a existência de uma corrente neofascista com peso eleitoral de massas é inédito.

O MES se opôs a candidatura Boulos e Sônia. Talvez por isso, agora, defenda que a diminuição da votação de Boulos em relação à de Luciana Genro, por exemplo, confirmaria sua posição. Temos outros parâmetros. Será que o perfil “antipetista” defendido pelo MES ao sustentar Plínio de Arruda Sampaio Jr. nos colocaria em melhores condições para a disputa do movimento de massas, e para chamados à ação dos trabalhadores? Sairíamos com tanto prestígio reunindo milhares por onde passamos? Categoricamente, afirmamos que não.

A disputa das massas para a esquerda socialista vai se dar, e já está se dando, nos conectando as lutas pelas suas demandas concretas, e de forma alguma pelo atalho reacionário do antipetismo. As críticas ao PT devem ser feitas no sentido de reeducar a classe trabalhadora contra a ideologia da conciliação de classes que o PT promoveu, no classismo, revelando o caráter das instituições repressivas do estado e o caráter dos governos. A chapa Boulos/Sônia, com um líder dos sem-teto e uma líder indígena conferiu ao PSOL mais força e enraizamento do que nunca. Por isso, essa aliança, longe de ser um erro, foi uma importante vitória política do PSOL, uma necessidade para que o PSOL pudesse se colocar na linha de frente da luta contra o neofascismo representado pelo governo de Bolsonaro e para que possamos superar o fracassado projeto de conciliação de classes defendido pelo PT.

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