Nem uma a menos: Justiça para Gabriely

Por: Ligia Gomes, do ABC paulista

Há mais de três meses os pais de Gabriely Marcossi, as jovens frequentadoras das batalhas de rap na região do ABC e organizações feministas perguntam: “Quem matou Gabriely?”. Entretanto, ainda parecem longe de ter uma resposta.

Na primeira semana de abril Gabriely saiu de casa para acampar com amigos em Paranapiacaba, distrito da cidade de Santo André. Em 1º de maio seu corpo foi encontrado por outro grupo de pessoas que fazia uma trilha próximo ao local. A família de Gabriely não estranhou a ausência da filha de 19 anos porque confiava nela, em sua autonomia e responsabilidade, bem como em seus amigos. Gabriely sabia viver do próprio trabalho e era responsável por suas ações. As pessoas que a acompanhavam no acampamento disseram à polícia que ela havia se separado do grupo e partido com outros pessoas que eles não conheciam.

Inicialmente as investigações estavam avançando, mas após algum tempo desaceleraram até estagnar. O exame de DNA inicialmente sairia em 20 dias, mas acabou levando 60 dias. O pai, Claudemir Carlos Anselmo, ainda levou informações novas que poderiam ser investigadas, mas lhe solicitaram que levantasse mais detalhes, e somente após isso os policiais poderiam investigar.

12 mulheres assassinadas por dia
Na semana que passou com a lei Maria da Penha, com medidas específicas para punir a violência contra a mulher, completou 12 anos. Infelizmente, não há nada a comemorar. Nosso país é muito perigoso para as mulheres. Elas não encontram proteção às suas vidas. Não encontram justiça após sua morte. Na maior parte das vezes os assassinos seguem suas vidas sem nunca ter sido identificados, sem passar por qualquer medida corretiva. É emblemática, por exemplo, a morosidade das investigações sobre a execução de Marielle Franco, vereadora do PSOL no Rio de Janeiro.

Dados levantados em uma parceria do Núcleo de Estudos da Violência da USP, o Fórum Brasileiro de Segurança Pública e o G1 mostram que em 2017 ocorreram 4.473 homicídios de mulheres no Brasil, um aumento de 6,6% em relação a 2016 e 18% em relação a 2015. Uma triste média de mais de 12 mulheres assassinadas por dia.

A mesma fonte analisou 101 homicídios de mulheres entre 21 e 27 de agosto de 2017 e constatou que, após seis meses, apenas um caso havia ido a julgamento (réu confesso) e apenas 32% dos casos haviam sido convertidos em processo após investigação policial. Em 46% dos casos a autoria era desconhecida mesmo após os seis primeiros meses.

Nem uma a menos
A morte de Gabriely sensibilizou jovens e organizações feministas de todo o ABC paulista. No dia 6 de maio foi realizado um ato com o lema “Nem uma a menos”, pedindo justiça para Gabriely.

Sua vida e morte simbolizam, de maneira dramática, a situação das jovens de nossas grandes cidades. Vulneráveis ao machismo, inseguras entre os próprios amigos, vivendo sob um Estado que não dá valor às suas vidas, nem garante seus direitos. Claudemir relata que tem havido diversas insinuações de que o que ocorreu com Gabriely é devido a ela ter se submetido a situações arriscadas. A culpa não é de Gabriely, de onde ela estava ou do que fazia. Não pode haver nenhuma justificativa para que ela não tenha seu direito à vida e à justiça assegurados. Contra isso as mulheres do ABC se levantaram e por isso perguntamos: “O que aconteceu com Gabriely?”.

Olhamos o exemplo de nossas companheiras argentinas, que desde o movimento “Ni uma a menos” – lançado em 2015 como forma de combater o feminicídio – têm se organizado, combatido o machismo institucional e cultural e nas últimas semanas lideraram manifestações multitudinárias em defesa do aborto legal, seguro e gratuito (veja a cobertura especial do esquerda online sobre o caso aqui). Apesar de o projeto de legalização do aborto não ter sido aprovado pelo Senado argentino, elas não vão recuar, pois sua luta – como a nossa luta – não é apenas por uma lei, mas por uma nova sociedade, onde possamos ser quem somos, livres de opressão e exploração.

FOTO: Jovem Gabriely em batalha de rap da região do ABC. Foto de Paloma Bertissoli Milanez

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