A crise política e medo da intervenção militar

Fabiano Faria, de Niterói (RJ)

A deposição do governo Dilma por seus próprios correligionários (um tipo de motim de ratos) foi um golpe. Os objetivos foram claros: derrubar a engenharia de poder da conciliação de classes e implementar o programa do capital. Nem havia necessidade de maiores agressividades. O diálogo vazado entre Jucá e Fernando Machado deixava claro que a continuidade da Operação Lavajato sequer era desejada. Era demover do poder os antigos aliados, implementar violentamente e sem mediações o projeto de Estado mínimo e ganhar as próximas eleições, simples assim!

Todavia, aqueles que abriram a caixa de Pandora e deram vida a nossos piores pesadelos estão longe de controlar as forças que saíram de lá. Temer, Aécio, Alckmin e Cia estão também enredados na mesma teia de denúncias que eles próprios criaram. Nem a boa vontade de Moro e seus lacaios tem sido capaz de blindá-los.

Nenhum candidato ligado à coalização golpista consegue decolar. E isso é apenas a expressão mais objetiva da amplíssima rejeição não apenas aos nomes, mas também ao programa de governo que professam. Conseguiram barrar a candidatura de seu principal adversário e mesmo colocá-lo na prisão, mas não impedi-lo de consolidar cada vez mais a sua liderança nas pesquisas de opinião. A crise de liderança hegemônica se tornou tão forte que mesmo a Copa do Mundo, apesar de toda a insistente cobertura, não conseguiu nem de longe empolgar, a maioria até assiste aos jogos, mas não esconde seu baixo interesse. Todos se lembram muito bem a que papel serviram as camisas da seleção, e ninguém está disposto a esquecer com facilidade.

Vivemos uma situação inédita. Os dois principais partidos que polarizaram as eleições nas duas últimas décadas não ocupam seus lugares no páreo: um porque tem seu principal nome impedido de concorrer, o outro porque rejeitado por seus vínculos com o golpismo e por seu programa político. Mais de uma dezena de outsiders se apresentam, mas nenhum é levado a sério. O que será do futuro daqui a poucos meses? Ninguém é capaz de responder.

Vivemos sob um governo ilegítimo e sob muitos aspectos de exceção há somente dois anos, e já parece que se passaram décadas. Já não ouvimos faz um bom tempo os comentaristas do pensamento hegemônico encherem nossos ouvidos com aquela ladainha de que o Brasil é uma democracia consolidada, com instituições firmes, com as regras do jogo respeitadas e blá, blá, blá! Nem a Rede Globo tem a ousadia de dizer isso.

Pelo contrário, passamos a conviver com frequência cada vez maior com a colocação de outro problema: a ditadura militar, a reelaboração da sua memória (inclusive por prestigiados artistas e intelectuais) e a outrora impensável possibilidade de seu retorno. Como ignorar a presença cada vez maior de militares em nossa vida cotidiana, os apelos dramáticos de setores protofascistas da sociedade civil, os chamados à intervenção militar pichados no asfalto durante a greve dos caminhoneiros, a imagem dantesca de um presidenciável apologista da tortura e da ditadura em segundo lugar nas intenções de votos e porque não, de um golpista no poder que promove intervenção militar na segurança pública do Rio de Janeiro e nos mantém a todo tempo sob a sombra de baionetas?

Um Estado de exceção é sempre instável. E em grande medida, a insegurança e as ameaças que então vivemos decorrem diretamente da perda de poder político e hegemônico de setores da sociedade civil que historicamente desfrutaram de liderança incontrastável. O futuro é incerto para todos, e é precisamente esse vácuo de hegemonia, esse cenário de incertezas, o que leva a que atores desta trama conspirem de maneira descarada contra as regras do jogo.

Os receios de muitos quanto a uma possível intervenção militar não devem ser subestimados. Hoje, organizações de extrema direita, parte dos meios de comunicação e algumas figuras públicas tentam vender a ideia de que a ditadura não foi tão ruim assim, e que certamente era melhor que o que temos hoje. Que só foi perseguido quem “mereceu”, e que os militares são ainda uma espécie de “reserva moral” da civilização brasileira.

A nossa enorme incapacidade em dialogar com a maioria da população cobra seu preço. Afinal, para a maioria da população, nossa leitura teórica e histórica dos anos de chumbo é absolutamente estranha e até incompreensível. A massa não tem a mesma memória que temos desse período histórico, mesmo porque a ditadura militar nunca acabou para quem vive sob jugo das operações policiais nas grandes cidades. Nunca fomos uma referência importante para o setor mais precarizado da classe trabalhadora, e a perda de hegemonia da conciliação de classes não se faz em nosso favor e sim da direita cristã fervorosamente direitosa e reacionária. A incômoda verdade é que diante de uma hipotética quebra da atual ordem constitucional burguesa, não teríamos praticamente nenhum poder de resistência, nem mesmo capacidade de nos defender.

Contudo, em que pesem todas as advertências feitas acima, é preciso avaliar com distanciamento e racionalidade as diversas manifestações e possibilidades. Que canalhas como Temer e Aécio possam ir às ultimas consequências para não pararem atrás das grades, não restam dúvidas. Mas até que ponto a vontade desses indivíduos é capaz de atrair o capital e mesmo as Forças Armadas? Mas não é possível ignorar que na realidade contemporânea uma quebra de ordem nesse nível teria impacto imprevisível na classificação dos papéis brasileiros, podendo gerar desvalorizações especulativas monstruosas e trazer imensos prejuízos financeiros, certamente muito maiores que um hipotético retorno da conciliação de classes.

No âmbito das forças armadas, os posicionamentos foram até agora nebulosos, mas nada indica um caminho convicto em direção ao golpe. Os principais que se posicionaram de forma simpática ao engajamento político militar estão na reserva. A intervenção militar na segurança pública no Rio de Janeiro está sendo patética, e mesmo o general Villas Boas, comandante do Exército, manifestou preocupação com a instalação de uma nova “comissão da verdade” a partir da nova aventura militar em terras fluminenses. É também de se levar em conta que há poucos anos atrás a lei da anistia foi pautada no STF. Os golpistas de 1964 conseguiram permanecer impunes diversamente de seus pares em vários países da América Latina, mas não há qualquer garantia que essa moleza se repita diante de uma nova quartelada. A decisão de um golpe, não é fácil para ninguém.

Vivemos sim um dos momentos conjunturais mais difíceis de toda a história do Brasil, e exatamente por isso temos a obrigação de nos portarmos à altura do que a história exige de nós. É preciso evitar a leitura demasiado simplista de algumas organizações, que afirmam que não vai haver golpe militar simplesmente “porque não”. De outro lado, a postura oportunista e covarde da conciliação, que se recusa a mobilizar contra o governo com a desculpa que nada deve ser feito porque a situação exige cautela, deve sim ser denunciada pelo que que realmente é: o oportunismo em moderar o discurso, se abster da luta contra os ataques de Temer e novamente apostar tudo na frente ampla e no cenário eleitoral.

Não queremos nesse pequeno texto, finalizar com nenhuma conclusão para um debate complexo como este. Talvez a melhor forma de se chegar a um fim, seja justamente advertindo para a complicação deste tema, a necessidade de avaliações desapaixonadas e ponderadas, da necessidade de retomar o trabalho de base e especialmente de construir pontes de diálogo estratégico com todos os setores da classe trabalhadora. Disputar a consciência da classe trabalhadora sempre foi objetivo central dos revolucionários, fomentar boatos de derrota total e iminente, não. É bom não esquecermos disso.

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Foto: José Cruz/Agência Brasil

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