Novo filme de João Moreira Salles: ‘No intenso agora’ nos ensina a desconfiar das imagens


Leandro Olimpio, de Santos

Uma imagem vale mais que mil palavras. Quem nunca ouviu essa expressão popular? Quem nunca concordou com ela em alguma etapa da vida? Novo documentário de João Moreira Salles, ‘No intenso agora’ nos ajuda a olhar com desconfiança não só essa frase, mas tudo que envolve a natureza das imagens. Desde 9 de novembro em exibição nas principais salas de cinema do país, a obra de Salles é lançada uma década após seu último filme, o aclamado Santiago (2007).

Aliás, foi em meio às pesquisas para a montagem de Santiago, que nasce ‘No intenso agora’. O embrião do filme foi a descoberta, ao acaso, de filmagens amadoras que sua mãe fez no ano de 1966, na China, em plena revolução cultural maoísta.

O gatilho para a criação do longa-metragem foi uma inquietação que parece ainda perseguir o diretor: como retomar a vida, se readaptar à normalidade, após uma grande paixão? Após um estado de intensa plenitude, felicidade? Seja estética, como ocorreu com sua mãe na viagem à China; seja política, como ocorreu com os franceses que protagonizaram Maio de 68, ou até mesmo com os brasileiros que foram às ruas em junho de 2013.

É essa reflexão, inclusive, que permite ao filme de Salles superar o âmbito privado. Realizado integralmente com imagens de pesquisa, apenas uma parte é composta por imagens de sua mãe. As demais cenas se debruçam sobre grandes eventos da década de 1960: Primavera de Praga, Maio de 68 e, em menor escala, a ditadura militar no Brasil.

Além da permanente inspiração em Eduardo Coutinho, a quem dedica o filme, Salles também se inspira neste filme em Harun Farock, cineasta alemão cuja obra é tão brilhante quanto desconhecida. Foi ele quem, no cinema documental, buscou com mais obsessão a motivação por trás das câmeras. Uma de suas obras mais celebres, Videogramas de uma revolução (1992), feita em parceria com Andrei Ujica, é um estudo profundo sobre a natureza das imagens. O filme reconstitui por meio de imagens amadoras e estatais a rebelião popular que derrubou, no outono de 1989, a ditadura de Nicolau Ceausescu. Farock, que faleceu em 2014, mesmo ano da morte de Coutinho, disseca neste filme imagem por imagem para revelar o que havia escondido em cada registro.

Na esteira do legado deixado por Farock, Salles nos estimula a questionar o que vemos na tela. Como é filmar feliz? Como é filmar triste? Como se filma num regime democrático? Num regime autoritário? Ele nos indica algumas hipóteses através de sua narrativa em primeira pessoa. Na França, a imagem estável, na rua, ao lado dos manifestantes, está sintonizada a um país democrático, mesmo que haja repressão e violência. Por outro lado, na Tchecoslováquia, após a invasão do exército soviético do regime estalinista, a câmera parece estar sempre escondida, trêmula, numa síntese audiovisual do estado de sítio que toma conta do país após a Primavera de Praga.

Para Salles, não há possibilidade de experimentar sensação igual à catarse oferecida por essas raras janelas históricas – tanto individuais quanto coletivas. Diante disso, há quem consiga se readaptar à velha vida e quem – preso à nostalgia – não consegue encarar a ressaca que é reencontrar a banalidade do cotidiano. Parece ser o caso de sua mãe, parece ser o caso de milhares de ativistas que tomaram as ruas de Paris e nunca mais foram os mesmos.

Neste âmbito, também há referência – mesmo que involuntária – ao pensamento de Farock. Em 1982, já decepcionado com o destino dos estados operários do Leste Europeu e também do continente asiático, todos eles influenciados pelo estalinismo e sua burocratização, o cineasta escreveu um artigo no qual afirmou que “desde que há revolução, há entusiasmo, seguido por decepção”. Neste mesmo texto, disse: “Talvez uma pessoa tenha que estar preparada até para tolerar a morte de uma ideia sem fugir. Ser fiel significa estar presente mesmo na hora da morte”.

Essa reflexão se comunica com a melancolia presente no documentário de Salles. Este não é um detalhe pequeno. Se “No intenso agora” nos ensina a desconfiar das imagens, nos mostrando que elementos como o autor da filmagem e contexto político são determinantes para analisar o seu significado, o mesmo podemos dizer de uma obra cinematográfica.

Por trás deste filme está um cineasta que acredita nas rebeliões, mas não nas revoluções. Um cineasta que, de certa forma, defende a resignação diante das contingências da vida. Que tem simpatia pela derrota ou, mais precisamente, por aqueles que ficam no meio do caminho.

Não por acaso, certa vez disse que “a humanidade é feita de pessoas que chegam em quarto lugar”.

‘No intenso agora’, à sua maneira, é o espelho do seu criador: cético em relação à possibilidade de grandes transformações, concebe como inteligente encontrar sentido na impureza da vida diária. Algo que um marxista dificilmente poderia concordar, pois seria o equivalente a se conformar com as coisas como são. Em outras palavras, com o capitalismo, o fim da história.

Aos revolucionários, militantes de esquerda e progressistas apaixonados por Maio de 68, um aviso: o documentário de João Moreira Salles não poderá ser usado como prova de que aquela experiência  foi imaculada, marcado apenas por vitórias. Há cenas que nos machucam, que gostaríamos de nominar como contradições e não derrotas. Num trecho do filme, uma operária chora por ter que retornar ao trabalho após uma longa greve naquele mês. Os dirigentes sindicais tentam acalma-la. Falam das vitórias econômicas, afirmam que os patrões não terão mais coragem de praticar as atrocidades cometidas antes. Mas é inegável o sentimento de derrota. Ela está destroçada. Não queria ser menos explorada. Queria derrubar De Gaulle, dizer adeus aos patrões, mudar o mundo.

Mas tampouco o filme poderá ser usado por conservadores como prova de que nada mudou após aquelas três semanas, de que lutar não vale a pena. A França não é a mesma desde então. Além disso, a luta por um mundo mais justo continua e novas revoluções explodem. O que se repete tristemente, como indica indiretamente o filme num diálogo entre Sartre e Daniel Cohn-Bendit, líder estudantil daquele Maio francês, é a ausência de um programa. Mas este é outro debate, que acontece fora da tela do cinema, na vida real – palco da luta de classes.
Salles acerta ao rejeitar a sedutora “verdade definitiva”, os discursos triunfalistas e catastróficos. Tal equilíbrio talvez venha de uma opinião que ele compartilha há algum tempo: a de que o cinema não muda o mundo. Para ele, “se o cinema muda alguma coisa é o próprio cinema”.

‘No intenso agora’, neste caso, cumpre o seu objetivo. É uma grande contribuição ao documentário brasileiro.

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