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Reflexões para uma análise marxista da correlação de forças

Valerio Arcary

Professor titular aposentado do IFSP. Doutor em História pela USP. Militante trotskista desde a Revolução dos Cravos. Autor de diversos livros, entre eles Ninguém disse que seria fácil (2022), pela editora Boitempo.

Por: Valerio Arcary, colunista do Esquerda Online

Isaac Deutscher no terceiro volume da biografia de Leon Trotsky, O profeta banido, sobre a “teoria da ofensiva”, fundamentada na análise da “crise final” – depois do cataclismo de 1929 – no início dos anos trinta do século XX, em oposição à tática da frente única:

“Nem o febril ultra-radicalismo do “terceiro período” testemunha qualquer internacionalismo revolucionário novo de Moscou. O ultra-radicalismo obstruía o crescimento do comunismo no mundo, tal como o oportunismo antigo, e encerrava em si, a mesma cínica indiferença burocrática aos interesses internacionais da classe operaria.

Agora, como antes, Trotski defendeu a opinião de que toda a época que se iniciara com a Primeira Guerra Mundial e a Revolução Russa era de declínio do capitalismo, cujas bases mesmas estavam abaladas. Isso, porém, não significava que o edifício estava na iminência de desabar com estrondo.

A decadência de um sistema social não é um processo isolado de colapso econômico, ou uma sucessão ininterrupta de situações revolucionárias. Nenhuma depressão era, portanto, a priori, a “derradeira e final”. Mesmo em sua decadência, o capitalismo teria altos e baixos (embora os altos se tornassem cada vez mais breves e incertos, e os baixos cada vez mais baixos e ruinosos).

O ciclo econômico, por mais que se tivesse modificado desde a época de Marx, ainda seguia seu curso habitual, não só de surtos de prosperidade para a depressão, mas também desta para o primeiro. Era, portanto, absurdo anunciar que a burguesia chegara “objetivamente” ao seu impasse final: não havia impasse do qual uma classe dominante não tentasse sair, e seu êxito dependia não tanto de fatores puramente econômicos, mas muito mais do equilíbrio das forças políticas, que poderia pender para um ou outro lado, segundo a qualidade da liderança comunista.

Prever uma “maré ininterruptamente montante da revolução”, descobrir “elementos de guerra civil” em quase todas as greves turbulentas, e proclamar que era chegado o momento de passar da defensiva à ofensiva, e à insurreição armada, não era proporcionar liderança, mas sim cortejar a derrota.”DEUTSCHER, Isaac, Trotsky, O Profeta Banido, Rio de Janeiro, Editora Civilização Brasileira, 1984, p.50.

A questão da articulação dos fatores objetivos e subjetivos na análise da relação social de forças entre as classes é mais complicada do que pode parecer. Uma situação revolucionária exige, evidentemente, condições objetivas. Mas elas podem estar maduras há décadas, podem até ter apodrecido, de tão maduras, sem que uma situação revolucionária tenha se aberto.

A passagem de Deutscher, comentando Trotsky, ajuda a esclarecer esta questão:

“Detendo-se na ligação entre os fatores “constante” e “variável” demonstra que a revolução não se explica simplesmente pelo fato de estarem as instituições sociais e políticas, há longo tempo, em decadência e prontas a serem derrubadas, mas pela circunstancia de que muitos milhões de pessoas perceberam tal coisa pela primeira vez.

Na estrutura social, a revolução já estava madura bem antes de 1917; na mente das massas, ela só amadureceu naquele ano. Assim, paradoxalmente, a causa mais profunda da revolução está não na mobilidade da mente dos homens, mas em seu conservantismo inato.

Os homens só se levantam em massa quando percebem, subitamente, como estão mentalmente atrasados em relação aos tempos e desejam reparar esse atraso imediatamente é a lição que nos mostra a “História da Revolução Russa”: as grandes convulsões na sociedade seguem-se, automaticamente, da decadência de uma velha ordem; gerações podem viver em uma ordem decadente, sem terem consciência disso.

Mas quando, sob o impacto de alguma catástrofe como a guerra ou o colapso econômico, adquirem consciência disso, há uma explosão gigantesca de desespero, esperança e atividades.” DEUTSCHER, Isaac, Trotsky, O Profeta Banido, Rio de janeiro, Civilização Brasileira, 1984, p.241.

Um dos aspectos que preocupava Trotsky, era dissociar o conceito de crise revolucionária, das velhas polêmicas sobre a inexorabilidade da “crise final”, e a preocupação em educar as novas gerações marxistas, em torno da experiência russa de que a crise é um processo político e, portanto, guarda sempre uma relativa autonomia, até temporal, em relação aos processos econômicos, mesmo quando esses assumem a forma de um cataclismo: a crise econômica pode ser gravíssima, e no entanto, pode não se abrir uma situação revolucionária.

A crise econômica seria a condição objetiva para a crise, mas não suficiente. O outro alerta, tão ou mais importante que o primeiro, recorda que a análise da relação de forças deve considerar qual é a situação de todas as classes da sociedade. Análises obreiristas, sejam por euforia ou por desalento, não permitem uma compreensão de qual seria a situação. No pequeno texto Que é uma situação revolucionária? Trotsky escreve:

“Para analisar uma situação (…) é necessário distinguir entre as condições econômicas e sociais de uma situação revolucionária e a situação revolucionária mesmo. As condições econômicas e sociais de uma situação revolucionária se dão, falando em geral, quando as forças produtivas de um país estão em decadência, quando diminui sistematicamente o peso do país capitalista no mercado mundial e os rendimentos das classes também se reduzem sistematicamente;quando o desemprego já não é simplesmente a conseqüência de uma flutuação conjuntural, mas um mal social permanente com tendência a aumentar(…). Mas não podemos esquecer que a situação revolucionária a definimos politicamente não só sociologicamente, e aqui entra o fator subjetivo. E este não consiste somente no problema do partido do proletariado, mas é uma questão de consciência de todas as classes.” TROTSKY, Leon, “Que é uma situação revolucionária?” in Escritos, Tomo II, volume 2, p. 513 (de 14/11/1931), Bogotá, Pluma, 1976.

O problema do desencontro e descompasso, entre o amadurecimento desproporcional dos fatores objetivos e subjetivos, está entre as maiores dificuldades de compreensão do que seria uma situação revolucionária ou mesmo pré-revolucionária. Por razões óbvias, as idéias revolucionárias só podem se transformar em força material, isto é, se fundir com a vontade de milhões, no calor de uma situação revolucionária.

Em situações defensivas ou reacionárias, as massas não só não acreditam em propostas revolucionárias, como na maioria das vezes, desconfiam até das propostas de luta mais moderadas e das alternativas mais reformistas, tão baixo é o nível de confiança que depositam em suas próprias forças. A rigor, idéias radicais só podem conquistar a influência sobre a maioria, quando se abre uma crise revolucionária. Mas as crises revolucionárias são raras.

A diáspora dos revolucionários marxistas em relação à classe que pretendem representar é inexorável, portanto, enquanto a sociedade não for convulsionada por lutas de classes agudas. Como se pode facilmente concluir, esse afastamento teve imensos custos políticos para as correntes revolucionárias. Traduziu-se em inúmeros erros “impressionistas” de apreciação sobre as possibilidades, realmente, existentes.

Submeteu sempre as correntes revolucionárias a terríveis pressões que se expressaram ou no adormecimento da vigilância, em um afrouxar da tensão necessária para uma grande espera, quando se subestimou a realidade, ou numa embriaguez em relação às possibilidades reais da situação política, uma espécie de “doping” eufórico que super-dimensiona a urgência dos combates, em um outro extremo.

Nada pode ser mais cruel para uma tendência revolucionária do que não reconhecer uma situação revolucionária quando ela se desenvolve diante dos seus olhos. Mas o erro inverso pode ser ainda mais fatal: o “ufanismo” diante de uma situação ainda imatura prepara o terreno para grandes desilusões e desmoralizações.