O lugar da literatura entre a ‘abertura’ e o ‘fechamento’ do espaço político



Por: Paulo César de Carvalho*, de São Paulo, SP

Juntamente com a oposição “velho”/”novo, “fixo”/”móvel”, no sistema da cultura dá-se uma outra oposição radical: a da “unidade” e “pluralidade”. Já assinalamos como a heterogeneidade da organização interna constitui a lei de existência de uma cultura. A presença de estruturas distintamente organizadas e de diversos graus de organização é condição indispensável para que o mecanismo da cultura seja operante (Iúri Lótman e Boris Uspenski, “Sobre o mecanismo semiótico da cultura”, Ensaio de Semiótica Soviética, p.57).

Nos outros dois artigos desta série, vimos que os textos resultam de determinadas condições de produção (e circulação). Recorrendo a noções de Foucault em A Ordem do Discurso (a obra é sua aula inaugural no Collège de France, em 2 de dezembro de 1970), explicamos que eles se submetem a um “sistema de coerções”, que define “procedimentos de exclusão”, isto é, “o que pode e o que não pode ser dito”. Por isso, para entender o “lugar” da literatura no “espaço” da revolução, apontamos a necessidade de analisar primeiro o “modo de funcionamento” do “universo de discurso” revolucionário.

Para esclarecer a operacionalidade desses conceitos, aplicando-o ao nosso objeto, mostramos que o realismo socialista e a estética trotskista operam com diferentes formas de “interdição”: nesta perspectiva, o critério de “exclusão” é o conteúdo contrário aos valores políticos da “revolução”; naquela, a regra é eliminar tudo o que não tenha conteúdo expressamente político. Nas duas ordens, as “coerções” são distintas; os valores interditados não são os mesmos: no trotskismo, por exemplo, só se nega a arte que nega a revolução; no stalinismo, nega-se toda arte que não afirma a “revolução”.

Retomando as “categorias espaciais” (nos termos da Linguística) de “abertura” e “fechamento” (utilizadas nos outros dois artigos), o regime do stalinismo, hermeticamente “fechado”, caracteriza-se pelos “valores da exclusividade”; o regime do trotskismo, bem menos “fechado”, mas ainda não “aberto”, pelos “valores da não exclusividade” (ressalte-se que no contexto das formulações publicadas na obra Literatura e Revolução, ainda em 1924: portanto, 14 anos antes da “abertura” representada pelas posições expressas no manifesto Por uma arte revolucionária e independente, redigido com o poeta surrealista André Breton, no México, no ano da fundação da IV Internacional – esse “salto estético” de Trotsky merecerá um artigo específico).

Para refinar um pouco mais essas categorias operatórias, explicando em que consiste a sutil distinção entre o “modo de funcionamento” da ordem da “exclusividade” e o da “não exclusividade”, qual é a diferença entre “fechamento” e “não fechamento”, vem bem a calhar o método da Semiótica Francesa (teoria sobre o processo de construção do sentido, formulada pelo linguista lituano Algirdas Greimas). Particularmente, o conceito central de percurso gerativo de sentido: em linhas bem gerais, ele mostra que o deslocamento de um termo A nunca se dá diretamente ao seu “contrário”, isto é, ao termo B.

Em outras palavras, segundo o raciocínio lógico, primeiro é preciso negar A, para então poder afirmar B. Esquematizando, o percurso é o seguinte: A→NÃO A→B (ou, na outra direção: B→NÃO B→A). Consideremos, agora, que represente o “fechamento”; e B, a “abertura”. A sequência, nesse caso, será esta: Fechamento→Não Fechamento→Abertura. Ou, se tomarmos como “exclusividade” e como “diversidade”: Exclusividade→Não Exclusividade→Diversidade. Sobrepondo os dois esquemas, a posição do “fechamento” no percurso de sentido corresponde à da “exclusividade”; a do “não fechamento”, à da “não exclusividade”.

A partir dessas noções, fica mais fácil compreender, por exemplo, como o realismo socialista funciona como expressão particular da ordem de discurso stalinista: a estética reflete exatamente os mesmos valores de “fechamento” e “exclusividade” da política. Só para exemplificar, lembremos sua restrição temática (do “plano do conteúdo”) e formal (do “plano da expressão”): os temas se limitam à “exaltação do trabalho coletivo” e ao “culto à personalidade”. Sintomaticamente, num processo de fechamento dentro do “fechamento”, do plano geral na massa anônima, chega-se ao close no líder: a personalização do poder revelada “fotograficamente” como propaganda política sob o disfarce de arte (a revolução cultural do Mao, com a ajuda do trocadilho, é outro exemplo dessa ordem).

Aliás, abrindo parênteses, já que falamos em “arte fotográfica”, “propaganda” e “disfarce”, podemos constatar como os mesmos “procedimentos de exclusão” se manifestam em todos os elementos deste conjunto fechado: vale lembrar que a eliminação da imagem de Trotsky na “documentação iconográfica” da Revolução Russa resulta das regras de funcionamento do mesmo universo de valores. Esse mesmo processo de “apagamento” é o que levou à eliminação dos seus livros (e de seu pensamento) da URSS; é o que conduziu à sua eliminação física (e de toda a oposição de esquerda).

Retomando as ideias do linguista soviético Iúri Lótman em epígrafe, para sistematizar, esta ordem do “fechamento” se caracteriza pelos traços de sentido de “tradição”, “fixidez” e “unidade”. Esse código cultural, segundo ele, é estruturado a partir da oposição entre o “correto” e o “errôneo”. Seu mecanismo de “preservação”, conclui, é não sair do seu próprio âmbito, para entrincheirar-se contra tudo aquilo que lhe é oposto, para fechar-se em si própria (conforme a epígrafe do artigo anterior). Em síntese, nesse tipo de cultura, a “tradição” significa proteger-se de “tudo aquilo que lhe é oposto”; a “fixidez” se traduz como “não sair do seu próprio âmbito”; a “unidade” é “fechar-se em si própria”.

código cultural que estrutura o discurso stalinista (recorrendo ainda a Lótman) é típico do sistema que manifesta “a tendência para a conservação”: isso explica a sua aversão ao “novo”, ao “diferente”, à “pluralidade”. Em tal ordem, os “procedimentos de exclusão” (incorporando Foucault à análise) atuam com toda a rigidez e inflexibilidade: só se “pode dizer” o que comunica diretamente os valores do sistema. Assim, como a “parte” é sempre expressão do “todo”, a “interdição” incide sobre tudo o que não for reconhecido como reflexo desse conteúdo de “verdade”.

No realismo socialista, isso significa que uma estátua edificando Lenin, um quadro retratando Stalin, um romance sobre operários, um poema sobre camponeses, enfim, tudo funciona como expressão “material” do conteúdo “ideal” desse conceito de socialismo. Em outros termos, não há “pluralidade” tanto ao “que dizer” quanto ao “como dizer”: a exclusividade é temática e formal; a unidade é política e estética. A propósito, uma série de denominações do “campo lexical” dessa cultura explicita esse traço de sentido, como “partido único” e “socialismo em um só país”.

Enfim, para finalizar, cabe uma justificativa: não explicamos neste artigo o que significa “não fechamento” e “não exclusividade” na concepção estética de Trotsky, no contexto da obra Literatura e Revolução, porque ainda precisamos descrever melhor o código cultural que caracteriza a estética da contrarrevolução. É este o nosso próximo desafio!

*Paulo César de Carvalho é mestre em Linguística pela USP e professor de Língua Portuguesa. Publicou seis livros de poesia (o último, em 2016, “O som da cor da letra” – Editora Patuá). Foi militante da Convergência Socialista.

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