ENTREVISTA | Estudante cotista é excluída da UFRGS por perseguição política

Da Redação RS

Lorena Castillo, cotista, estudante de Geografia da UFRGS e militante da Federação Anarquista Gaúcha (FAG), foi excluída da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) após revisão de sua análise sócio-econômica. Neste processo, o órgão responsável da UFRGS questionou sobre sua militância e insinuou que ela receberia dinheiro da FAG. Afirmou que a estudante possui uma renda que, na verdade, ela não possui, como pretexto para desligá-la da universidade. Esta não é a primeira ação contra a FAG no Rio Grande do Sul. Confira, abaixo, a entrevista exclusiva com Lorena Castillo.

EO – Lorena, pode nos contar brevemente o que é o processo que te deixou fora da UFRGS? Do que exatamente a UFRGS te acusa? E qual o pretexto que eles usam?

Lorena – Resumidamente. Fui selecionada pelo vestibular da UFRGS em 2016. No segundo semestre, comecei a frequentar as aulas. Me candidatei como cotista (renda baixa e oriunda de escola pública). No ato da matrícula já constava que eu teria pendências no meu ingresso: por motivos de falta de análise, minha condição era “precária”. Para comprovação de renda baixa é preciso entregar para a instituição muitos documentos, extratos, declarações, detalhes de toda nossa vida socioeconômica. Bastante burocracia mesmo. É muito constrangedor ter que ficar provando que tu é pobre. Como meu salário na época, o maior que já tive, era de R$ 1126 “líquido”, eu estava dentro de todos critérios de aluna cotista, sim.

O que acontece é que nas análises da minha renda me acusam passar 200 reais a mais, por conta de “entradas” na minha conta bancária, sendo que já havia declarado que era um auxílio financeiro que o pai do meu filho mandava no período que ele morava comigo. A UFRGS acrescentou o valor porque contabilizaram oito meses anteriores do meu ingresso. Mas, não contabilizaram outra pessoa, uma criança, meu filho, e vivíamos com uma renda bem menor do que a UFRGS me acusa ter. Quando recorri via UFRGS, para que refizessem os cálculos, meu pedido foi negado.

Tirando as injustiças nos cálculos, as burocracias, fui convidada a comparecer em uma entrevista na Pró Reitoria de Graduação (PROGRAD) da universidade. Esperava eu que esta pudesse, enfim, ser um momento para esclarecer para a equipe todas as dúvidas dela e minhas, assim como solucionar toda a documentação, que por várias vezes, me pediram a mesma coisa, mais de uma vez. Esta entrevista foi na própria PROGRAD, com duas mulheres do quadro técnico, uma assistente social.

Começamos pelo meu histórico de vida, de origem bem de baixo mesmo, meus pais são trabalhadores pobres, nunca foram donos de nada e também não conseguiam me ajudar economicamente. Fui acampar no MST, com 17 anos, ainda sem concluir meus estudos. Passei seis anos da minha vida embaixo da lona, ocupando terra e também sendo solidária em outras lutas.

Quando vim pra cidade novamente, vivi como vivo até hoje, do esforço do meu trabalho. Esta entrevista averiguou detalhes bem específicos, mas isso não era um problema, já que o correto seria mesmo fazer um levantamento do meu histórico de vida socioeconômica, etc. Só que, parece que a equipe tinha outros interesses bem peculiares em relação a mim. Bom lembrar que estou falando de uma entrevista que ocorreu logo após as ocupações da UFRGS, onde estive metida.

Foi quando percebi que havia motivações em me “interrogar” sobre minha vinculação política. “Lorena, você milita na FAG, certo? Quando você ingressou na FAG, como funciona a FAG? Qual sua função na FAG? É executiva, ganha por isso?” Uma pergunta atrás da outra foram suficientes pra eu me dar conta de que havia uma investigação indevida. Inclusive enfatizaram “basta colocar seu nome no google”. Perguntei se era rotina delas conferirem os vínculos políticos dos alunos, mas a resposta veio em gestos de desconforto e com o fim da entrevista, o “aguarde nosso parecer”.

O parecer chegou com a notícia de que eu estaria sendo desligada da universidade por “ter uma renda superior”, sendo que já estou no segundo semestre do meu curso de Geografia. Mas, a peculiaridade do processo, além de injusto pelos cálculos, é sim me “investigarem” por “vias online” e registrarem isso no processo escancaradamente. O que significa isso?

A última vez que fui interrogada daquela forma foi dentro de uma delegacia de polícia quando a Yeda Crusius (PSDB) era governadora e mandou invadir nossa sede e apreender nossos materiais de serigrafia, livros, etc. Estamos falando de 2009, ano em que a BM matou um sem-terra com um tiro de 12 pelas costas e a nossa propaganda (da FAG) era de denúncia a este caso. E por isso a FAG foi tornada “ameaça perigosa” para a tal governadora.

EO – No processo, eles citam nominalmente a Federação Anarquista Gaúcha (FAG). O que é a FAG?

lorena – Somos a Federação Anarquista Gaúcha, organização política de viés especifista, com mais de 20 anos de trabalho social, militância de base, de muitas peleias. Orientada por princípios revolucionários do anarquismo, somos de esquerda obviamente. Somos também uma organização com militantes inseridos em diferentes frentes sociais de luta, com orientação tático estratégica de ruptura com o sistema de dominação. Em Porto Alegre, por exemplo, estivemos envolvidos nas principais lutas populares, aportando nosso grão de areia na luta contra a opressões e desde o princípio, a nossa organização se constituiu como iniciativa organizadora dentro do marco coletivo de um projeto libertário para atuar nas lutas sociais do Brasil e nessa região do mundo.

EO – Por que você acha que está ocorrendo esse processo de perseguição política? Qual a relação desse processo com a criminalização dos ativistas do Bloco de Lutas, a condenação de Rafael Braga e as inúmeras prisões ocorridas nos atos Fora Temer?

Lorena – Já em 2013, nossa organização foi atacada política e judicialmente pelo governo petista, na mesma campanha que criminalizou e invadiu casa de outros militantes, companheiros de outras agrupações políticas. Nesta época, a mando do Governador Tarso Genro (PT), nossa sede foi arrombada pela polícia duas vezes. Nenhuma constava para nós mandados judiciais de busca, mas apreenderam novamente livros, materiais nossos e fichas de associados em nossa biblioteca. Se intensificou fortemente uma campanha contra os “radicais”, os “subversivos”, onde nós e todos que compunham o Bloco de Lutas de POA éramos os principais opositores, não só para a máfia do transporte, mas também para os políticos e burocratas de gabinetes. Os nossos livros e materiais nunca foram devolvidos e alguns militantes estão prestes a ter seu primeiro julgamento por fatos criados em meio a uma farsa para incriminar militantes políticos.

Falar e combater a criminalização política é ordem do dia para qualquer militante e organização de cunho revolucionário, ou mesmo que preze pela liberdade de associação e expressão. Ora, acharíamos nós natural estas perguntas feitas dentro da UFRGS? Por que perguntar da FAG? Nossa organização não é nem nunca será uma empresa que paga funcionários e qualquer pessoa pode constatar isso, mesmo que de forma rasa e por vias “online”.

Para nós foi como ligar o sinal de alerta, porque não estamos falando só de um desligamento injusto por um cálculo frio e mal feito, mas estamos falando de um precedente perigoso que não podemos aceitar. Sabemos, e repito isto, que a luta que os cotistas passam para ingressar no ensino superior é descomunal, constrangedora e muitas vezes seletiva. Sabemos também que quem sofre com este “apartheid” é o povo negro e os mais pobres, já que as condições de estudo para os de baixo já é uma luta por si só. São centenas de casos acumulados por desligamentos e indeferimentos injustos. E, por isso mesmo, resolvi falar, questionar, buscar apoio, fazer a denúncia. Não podemos aceitar estas injustiças e muito menos vamos tolerar a mordaça ideológica.

O ódio de classe contra o povo pobre se expressa todos os dias, quando não combatemos ele, este se torna estrutural, se torna corpo nas nossas relações sociais e culturais. Não é à toa o racismo asqueroso disseminado na sociedade brasileira durante séculos, somado ao genocídio do povo negro e dos indígenas. O ódio de classe se expressa no encarceramento do negro e do pobre, na mutilação de nossa gente, se expressa nas humilhações cotidianas, nos direitos nossos que são usurpados para garantir a regalia e os privilégios dos poderosos.

EO – E agora, Lorena, quais os próximos passos?

Lorena – A ideia é seguir difundindo o tema e também buscando contato com os demais cotistas que foram desligados injustamente. E está sendo muito difícil encontrar esses cotistas, até porque são raros os casos que entram na justiça ou levam paro campo político da denúncia e mobilização. E também avançar na luta jurídica: essa semana vamos entrar com uma ação na justiça federal. E então fazer um movimento externo e interno à universidade para pressionar por um processo justo e sócio econômico e não puramente rentista. E seguir erguendo a bandeira de uma UFRGS democrática, autônoma e popular.

Foto: reprodução do Facebook

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