O futebol, sua relação com a classe trabalhadora e a elitização

Por: Isabel Laurito, de Campinas, SP

O texto a seguir é uma tradução de um capítulo do livro de Owen Jones, Chavs – The Demonization of the Working Class (Chavs – A demonização da classe trabalhadora), que trata de discutir o processo de elitização pelo qual passou o futebol inglês. Em parte da formação da identidade cultural da classe trabalhadora inglesa, o futebol foi roubado de suas mãos para atender a demandas mercadológicas, a partir de um dito combate à violência nos estádios. Nos anos de governo Thatcher, mudanças drásticas foram feitas também no esporte, transformando completamente sua realidade, distanciando-o de suas raízes.

O famoso Desastre de Hillsborough, que matou 96 torcedores em uma partida do Liverpool foi a desculpa perfeita para aplicar as mudanças necessárias nos estádios e abolir a presença de trabalhadores nos campos de futebol. Por muito tempo, a torcida do Liverpool foi considerada culpada pelas 96 mortes, mas no ano passado finalmente um passo foi dado no sentido da Justiça, quando a polícia de Yorkshire foi considerada a verdadeira responsável pelas trágicas 96 mortes. Desde o ocorrido, a torcida do Liverpool virou verdadeira inimiga de Thatcher, entoando cantos contra a Dama de Ferro nos estádios e, quando de sua morte, fazendo uma verdadeira festa pelo Centro da cidade.

A ideia desse texto é dar início a uma série que contará com mais dois textos, discutindo o processo de elitização do futebol, sua relação com a classe trabalhadora inglesa e um paralelo dessa situação com o que vive o futebol no Brasil.

Como a classe operária inglesa perdeu o futebol
O desprezo pela classe trabalhadora forjado pelo thatcherismo alcançou seu ápice com o Desastre de Hillsborough. Hoje o futebol segue oferecendo mostras da drástica mudança de mentalidade durante as últimas três décadas. Examinando o que aconteceu com a paixão esportiva tradicional da classe trabalhadora britânica, podemos ter uma boa noção do impacto cultural do ódio aos “chavs” (los chavs do original seriam os britânicos provenientes de bairros pobres, que não trabalham ou estudam e que dependem de ajudas sociais; equivalente a “los canis” da Espanha, podemos então entender que seriam como os nossos jovens da periferia). O bonito jogo se transformou até ficar irreconhecível.

Embora faça tempo que os principais clubes se afastaram de suas origens – o Manchester United, por exemplo, foi fundado por ferroviários – eles ainda permaneciam profundamente enraizados nas comunidades da classe trabalhadora. Os jogadores de futebol eram jovens recrutados nos bairros dos clubes. Ao contrário dos mimados plutocratas que se transformaram alguns jogadores da Premier League, durante grande parte do século XX “os jogadores muitas vezes viviam uma situação financeira pior que à das massas que os assistiam das grades aos sábados”, como escreveu o filho do jogador Stuart Imlach¹. No início dos anos 50 havia um teto máximo para os jogadores de somente 14 libras semanais durante a temporada -nada muito superior ao salário médio de um operário- e somente um em cada cinco jogadores tinha a sorte de receber esse dinheiro. Os jogadores moravam em casas acopladas, que eram propriedade dos clubes, e de onde poderiam ser desalojadas a qualquer momento. Não é estranho, portanto, que um jogador em uma intervenção no Congresso de Sindicatos em 1955, se queixou dizendo que “as condições trabalhistas de um jogador profissional remetem à escravidão”.

O futebol passou de um extremo ao outro. Os ventos frios da economia de livre mercado se mantiveram distantes do mundo do futebol durante os anos oitenta, mas na década seguinte golpearam o futebol com uma fúria vingativa.

Em 1922, os vinte e dois clubes da antiga First Division se separaram para criar a Premier League, o que os eximia de ter de dividir as receitas com os outros clubes da liga. Parte do novo espírito comercial consistia em excluir as muitas pessoas da classe trabalhadora dos estádios. Em seu Programa para o Futuro do Futebol, a Federação de Futebol afirmou que os estádios deveriam atrair “mais consumidores ricos de classe média”².

Quando as velhas arquibancadas foram abolidas, após o Desastre de Hillsborough, os ingressos dos lugares em que se podia ficar em pé, que eram os mais baratos, desapareceram. Entre 1990 e 2008 o preço médio de um ingresso para um jogo de futebol subiu 600%, mais de sete vezes que todos os outros³. Isso resultou numa verdadeira proibição para muitos da classe trabalhadora. Mas algumas figuras importantes do mundo do futebol não só não eram conscientes disso, como comemoraram. Como disse o ex técnico da seleção inglesa Terry Venables: “Sem querer parecer desleal às minhas origens da classe trabalhadora, é provável que o aumento do preço dos ingressos exclua as pessoas que estão dando má fama ao futebol inglês. Falo dos jovens, em sua maioria da classe trabalhadora, que aterrorizam os campos de futebol, os trens, as barcas e os povos e cidades por toda Inglaterra e Europa”.

A demonização da classe trabalhadora estava sendo utilizada para justificar o aumento do preço dos ingressos e, consequentemente, excluí-la.

Ao mesmo tempo, o futebol se converteu num grande e lucrativo negócio. No início dos anos 90, a BskyB, de Rupert Murdoch, fechou um acordo no valor de 305 milhões de libras pelos direitos exclusivos da nova FA Carling Premiership. Em 1997 firmaram um outro acordo de quatro anos pelo valor de 670 milhões de libras. Não só excluíram muitas pessoas da classe trabalhadora dos estádios, como excluíram também essas pessoas de assistirem aos jogos de seus times pela televisão, já que para tal teriam que gastar muito dinheiro com um canal pago.

Enquanto isso, a enorme quantidade de dinheiro que foi aplicada no futebol foi distanciando as equipes de suas comunidades locais. As grandes transferências fazem com que jogadores que chegam de lugares a milhares de quilômetros de distância dominem as principais equipes. Os clubes se tornaram verdadeiros brinquedos nas mãos de especuladores norte-americanos e oligarcas russos. E agora com os jogadores ganhando 160.000 libras semanais se romperam as ligações com suas origens da classe trabalhadora. O deputado trabalhista Stephen Pound lamenta a perda desse ícone da classe trabalhadora. “Se olhamos para os heróis da classe trabalhadora -gente como Frank Lampard e David Beckham- qual a primeira coisa que fazem? Se mudam dos bairros da classe trabalhadora para Cheshire ou Surrey. Não tem confiança suficiente para serem fiéis à suas raízes”.

Esse é o pior insulto. Um esporte, que durante tanto tempo esteve no centro da identidade da classe trabalhadora, se transformou num bem de consumo para a classe média controlado por milionários carreiristas. Caricaturizar a todos os fãs da classe trabalhadora como ultras, agressivos e obcecados com a violência cega proporcionou uma desculpa para excluí-los.

1. Gary Imblach, My Father and Other Working-Class Football, Londres, 2005.

2. Jason Cowley, The Last Game: Love, Death and Football, Londres, 2009.

3. Ibid.

*Capítulo extraído do livro Chavs – La demonización de la clase obrera. Editorial Capitán Swing 2012. Publicado na Revista Un Caño.

*Tradução de Isabel Fuchs Laurito

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