Bandido bom é bandido morto? Três argumentos contra o discurso do ódio

EDITORIAL 22 DE NOVEMBRO | A hasstag #EuEscolhoSalvarOPolicial se alastrou pelas redes sociais nos últimos dias e chegou aos Trend Topics do Twitter, ou seja, essa ideia foi repetida nas redes dezenas de milhares de vezes.

A polêmica foi motivada pelo programa Encontro com Fátima Bernardes, que debateu sobre o filme Sob Pressão. A trama retrata os dramas da saúde pública brasileira. Os dilemas são muitos: faltam equipamentos, estrutura adequada e profissionais. A violência urbana está presente todos os dias. Neste ponto, a ficção imita a vida: é a medicina de guerra.

Mas, o tema que chamou atenção nas redes foi o dilema retratado no filme de um médico que tem que escolher entre o traficante gravemente ferido e um policial em estado de saúde estável. Não existe dilema e nem escolha: a obrigação de qualquer profissional de saúde é atender o mais grave. Mas, o debate ganhou outro viés nas redes sociais.

A extrema direita usou este fato para propagar um discurso de ódio, ancorado na visão reacionária de que “bandido bom é bandido morto”. O Deputado Jair Bolsonaro alcançou 1,1 milhões de visualizações em seu vídeo no Facebook sobre o tema. Apresentou um programa radical: combater o politicamente correto, acabar com os direitos humanos, armar a população, defender os policiais que deveriam ser tratados como heróis da nação.

Neste editorial, apresentamos três argumentos contra o discurso do ódio:

1) A violência policial não traz mais segurança para a população
A extrema direita se apoia na justa raiva que qualquer pessoa que já foi assaltada ou sofreu algum tipo de violência já sentiu. É evidente que o problema da segurança pública é latente e quem o sente de forma mais dura são os trabalhadores, as mulheres, as LGBTs e os negros, que muitas vezes são agredidos, violentados e até assassinados.

Quem pensa que uma polícia mais violenta é saída para melhorar a segurança pública está enganado. O discurso do ódio “bandido bom é bandido morto” não traz mais segurança para ninguém. A PM brasileira é uma das mais violentas do mundo e isso não nos torna mais seguros. Todo jovem e negro da periferia sabe disso. A ação da PM traz mais morte, mais violência, mais preconceito.

O Anuário Brasileiro da Segurança Pública também mostra em números o drama da violência policial. São 3.022 óbitos oficialmente registrados por ações policiais no Brasil apenas no ano de 2014. São, em média, oito mortos por dia. A PM brasileira mata, todo ano, o equivalente ao número de mortes do atentado de 11 de setembro. Estima-se que este número seja ainda maior, já que é notório que muitas mortes não são notificadas.

Se compararmos os números de 2004 a 2014, veremos que a cada ano a polícia mata mais, e a cada ano a violência aumenta mais, os homicídios aumentam mais. O Brasil atingiu a marca recorde de 59.627 homicídios em 2014. Portanto, os números mostram que mais violência policial não é o caminho para ter mais segurança. É o caminho para ter mais violência social, mais terror, mais ódio.

2) Traficantes e policiais: uma guerra sem vencedores
Todo ano morrem milhares de pessoas vítimas da guerra às drogas. A juventude negra tem o seu futuro roubado por um sistema absurdo e injusto.  Morrem traficantes, morrem policiais, morre gente que não estava envolvido com nada e passou na rua na hora errada. “Amarildos” desaparecem. Os índices mostram que a polícia do Rio de Janeiro é a que mais mata e a que mais morre. A população carcerária cresce a cada ano.

Mas, o tráfico não diminuiu,  ao contrário, aumentou. As drogas não são mais raras, ao contrário, são mais acessíveis. O consumo não diminuiu, ao contrário, aumentou. A criminalização das drogas é um caminho desastroso.

É bom lembrar que existem drogas legais, como o álcool e o tabaco, que também afetam a saúde e ninguém, com o mínimo de bom senso, defenderia que o melhor caminho para combater o alcoolismo ou o tabagismo seria a criminalização da bebida alcoólica e do cigarro.

3) Quem morre é a juventude negra e pobre
Os sistema não é justo. Os bons não estão soltos e os maus presos. A Justiça não é cega. Os mortos da guerra às drogas são jovens, negros e pobres. 77% dos mortos por homicídio no Brasil são negros. É a pobreza que está sendo criminalizada.

O Brasil tem a quarta maior população carcerária do mundo. Entre 2004 e 2014, o número de presos no Brasil aumentou 80%. Cerca de 60% dos presos são negros, mais da metade são jovens e a grande maioria não concluiu o Ensino Médio.  Os presos são jovens, negros pobres e com baixa escolaridade.

Os números indicam que a questão é muito mais profunda e complexa do que as explicações da extrema direita. Como explicar esses números sem entender que a questão da violência, do crime, do encarceramento é uma questão social, que está relacionada ao racismo e às desigualdades latentes da sociedade capitalista?

O programa de Bolsonaro não é capaz de resolver nenhum dos problemas sociais brasileiros. A violência urbana não vai diminuir com mais polícia, mais grupos de operações especiais e mais criminalização das drogas. O discurso do ódio é vazio e superficial. Mas, é perigoso, está crescendo e precisa ser combatido.

Foto: UJS

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