Trump será um novo populismo de extrema-direita?

Por: Henrique Carneiro, colunista do Esquerda Online

O populismo é um fenômeno que surgiu na sua forma política explícita no final do século XIX nos EUA, quando surgiu um dos primeiros partidos populistas do mundo, que expressava interesses de setores agrários endividados atacando as “elites” governantes e professava uma política econômica protecionista e uma ideologia puritana exacerbada. Mas, esse populismo antigo era de fato voltado a estes setores populares.

O nazismo e o fascismo, no entanto, também tiveram um aspecto ‘populista’, no sentido de terem um discurso fortemente dirigido contra as ‘elites’ dominantes, embora fossem financiados simultaneamente pelos maiores grupos capitalistas.

Trump é um populista de direita que chegou ao poder como um ‘outsider’ (vindo de fora) do sistema político. Mas, sua tendência é de extrema-direita. O seu populismo se manifesta num ataque às ‘elites’ como alguém que nunca foi político, mas teve sucesso como gestor empresarial (já vimos este filme por aqui também).

Triste a época em que se elegem milionários por acreditar que sua condição os torna capazes de lutar contra as ‘elites’ dominantes e se vê em seus discursos desbocados, rudes, mal-educados, agressivos, machistas e homofóbicos um traço ‘popular’ e contra as elites.

Seu eleitorado teve um recorte muito forte de gênero, bem menor entre mulheres, e por regiões, se concentrando no interior e perdendo na Califórnia e Nova Iorque. Também é, em parte, do que se chamou nos EUA de forma irônica e pejorativa como ‘white trash’ (lixo branco), ou seja, brancos pobres e sem formação educacional. Um terço do voto latino também foi para ele, uma parte do qual deve representar os bem sucedidos imigrantes que não querem nova concorrência e se sentem mais parte de onde chegaram do que de onde vieram.

A esquerda (ou os liberais, nos EUA antes de Bernie Sanders não havia exatamente o que se possa chamar de esquerda com apoio de massas) teria destacado tanto os direitos das minorias, dos negros, mulheres, homossexuais, dos universitários, que os homens brancos, heterossexuais, pobres e sem formação universitária, hoje desempregados e povoando a zona desindustrializada do chamado ‘rust belt’ (faixa da ferrugem), teriam votado em massa no candidato que identificaram como mais ‘anti-sistema’.

O recorte liberal multicultural e politicamente estratificado em camadas de opressões sobrepostas levou a uma dissolução do antigo ideal operário do proletariado industrial, que perdeu o seu ‘orgulho’ diante das recessões, da desindustrialização, da perda de força dos sindicatos e da economia globalizada. Na ausência de qualquer força operária com um ideal de esquerda em defesa do operariado e contra o belicismo imperialista externo, como já existiu no passado, ou como teria podido ocorrer com Bernie Sanders como candidato, o mundo do trabalho, não só no ‘rust belt’, ficou órfão e desamparado.

De fato, os bancos, a mídia, o complexo industrial-militar, ao que tudo indica, preferiam Hillary, justamente por saber do risco que a imprevisibilidade e a conflitividade podem trazer a um cenário político interno de polarização social.

O risco maior é o governo Trump conseguir cristalizar esse apelo carismático que o torna apoiado exatamente por tudo o que demonstra de pior e mantenha essa popularidade ideológica reacionária em toda a linha e, com um vice ainda pior, da extrema-direita evangélica. Se suas políticas econômicas protecionistas ou isolacionistas forem espetacularizadas mesmo que não sirvam pra recuperar a economia lhe darão outro trunfo em termos de apelo popular.

Como o que de fato será o seu governo ainda é uma incógnita, o que mais deve se ressaltar na análise é o quão ruim foi ele ter conseguido catalisar um setor empobrecido e desempregado do proletariado e das classes médias baixas.

Se o entusiasmo pela candidatura Sanders, o único que poderia ter dado uma vazão pela esquerda dessa insatisfação, se expressar novamente como oposição política de mobilização de ruas haverá, por outro lado, uma situação de conflitividade que tornará a política estadunidense muito mais influenciada pela atividade extra-parlamentar do que tem sido nas últimas décadas.

A oposição popular a Trump, especialmente nos dois estados mais urbanos e mais ricos, também se manifestou paradoxalmente nos resultados dos plebiscitos que ocorreram concomitantemente às eleições.

Os plebiscitos populares tiveram resultados majoritariamente progressistas e contrapostos ao que defendem Trump e o Partido Republicano:

Quatro estados legalizaram totalmente a maconha, incluindo o mais populoso e rico, a Califórnia.
Um recusou (Arizona)
Quatro aprovaram maconha medicinal
Um aprovou o suicídio assistido de pacientes terminais (o 6º no país)
Três aprovaram restrições a armas, inclusive para acusados de violência doméstica.
Cinco aprovaram aumento do salário mínimo.
No entanto, três aprovaram retorno da pena de morte.
E, embora não tenha tido o maior número absoluto de votos populares, Trump foi eleito pelo colégio eleitoral.
Não se sabe como o seu governo vai enfrentar o desafio que estes plebiscitos colocam na manutenção da proibição federal da maconha.

Na verdade, não se sabe exatamente como será o governo Trump, saudado imediatamente após as eleições como um restaurador da unidade nacional, cuja moderação do discurso pós-vitória indicaria uma tendência ao pragmatismo do ‘business as usual’ (negócios como de costume).

O certo é que a estabilidade não parece ser uma característica nem da psicologia no novo presidente nem da disposição de ânimo de grande parte da população.

Como diz o Carlos Zacarias, ‘de tédio não morreremos’.

Foto: Donald Trump | by Gage Skidmore Donald Trump | by Gage Skidmore | Flickr

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