9 fatos sobre violência em Fortaleza no último ano

Por: Ramó Alcântara, de Fortaleza, CE

Na madrugada desse sábado (17), a Guarda Municipal protagonizou mais uma cena bárbara de violência em Fortaleza. O último ano está sendo marcado por vários episódios relacionados à violência na cidade. Para que nossa memória não nos traia, vale a pena ter em mente os últimos acontecimentos.

1. Acabou a festa
Foi com essa frase, somada a agressão física, spray de pimenta, balas de borracha e bombas de efeito moral, que a Guarda Municipal do Prefeito Roberto Cláudio acabou com a festa da última sexta na Praça dos Leões. A ação da Polícia Militar nessa madrugada também deteve pelo menos duas jovens e obrigou uma delas a assinar um documento sem ler, sob ameaça de ser presa, segundo relato ao O POVO. Horas antes, a poucos quilômetros da Praça dos Leões, a Guarda Municipal estava em ação de violência cotidiana contra a juventude negra e prendeu Kélvin Cavalcante, um jovem do movimento de moradia (MTST) que filmava a ação policial. Kélvin foi solto horas depois com hematomas, fruto da violência da Guarda. Para a noite seguinte, foi chamada o “OCUPA LIONS” e, segundo relatos, a Guarda Municipal incidiu novamente proibindo a instalação do som.

2. Direito de ir e vir? Só para produzir
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As festas em espaço público são muito boas para os jovens que têm pouco dinheiro para pagar ingressos frequentemente, mas são uma pedra no sapato dos grandes empresários do ramo das festas. O direito de ir e vir, colocado em xeque pelo alto preço das passagens, não resiste à maioria dos protestos nos últimos anos, desmanchados pela ação da Polícia Militar. Os governos dificultam a montagem de banheiros químicos e o transporte para as festas em espaço público, cortam ano a ano as verbas para a arte. Já para o policiamento, tem de sobra. Falta política para a juventude ou a política para a juventude é jogá-la nos subempregos e negá-la o direito ao lazer com a ação violenta da polícia?

3. O arrastão na Gentilândia
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Há pouco mais de uma semana houve um arrastão na Gentilândia. Esse é o fato. Mas, o que produziu esse fato? Pelo menos na última década, Fortaleza esteve nos piores índices de desigualdade social, chegando a estar no 5º lugar entre as cidade mais desiguais do mundo. Somado a isso, temos uma das polícias mais violentas, com inúmeras chacinas no histórico, colocando Fortaleza como a capital do sangue no Brasil, a cidade com mais homicídios por número de habitantes. Para completar, Fortaleza aumenta a cada mês os índices de desemprego, passando de 13% da população em março desse ano. O arrastão na Gentilândia no dia 9 de setembroé só o sintoma do problema.

4. Tráfico x assaltos
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O fato do tráfico impedir assaltos em determinadas áreas não é nada novo. Mas, isso se dá de maneira mais ampla e organizada na cidade, sendo divulgada nos muros em frases como “Se roubar na favela vai morrer”, uma novidade dos últimos meses, principalmente por serem assinadas pelo PCC (Primeiro Comando da Capital) e pelo CV (Comando Vermelho). O motivo é mais empresarial do que qualquer outro. O tráfico movimenta milhões de reais no Nordeste e os assaltos rendem muito menos, produzem conflito entre os grupos de áreas diferentes e aumentam a sensação de insegurança pela população.

5. As chagas das chacinas

Seis pessoas foram baleadas no Parque Figueira Grande, zona sul de São Paulo, no final da noite desta terça-feira (4). Fernando de Assis Oliveira, de 23 anos, e Alexandre Valenciano Machado, de 19, morreram. As outras quatro vítimas permaneciam internadas. Os atiradores ocupavam uma moto, que estaria sendo escoltado por um outro veículo. Os criminosos pararam na frente de um bar, na rua Sebastião Dias Fragoso, e atiraram contra um grupo de pessoas. Três vítimas foram atingidas, entre elas uma mulher de 35 anos, que trabalha como cozinheira de creche. Ainda na mesma rua, mas a cerca de 100 metros do bar, os motoqueiros atiraram contra dois homens que estavam na calçada. A cerca de um quilômetro dali, na rua Giosué Carducci, outra homem foi baleado. A polícia suspeita que ele tenha sido alvo dos mesmos atiradores. Foto:Nivaldo Lima/Futura Press

Foto:Nivaldo Lima/Futura Press


Há menos de um ano, Fortaleza foi abalada pela maior chacina registrada na história do Ceará. Onze jovens foram assassinados por policiais militares na noite do dia 11 de novembro. Em menos de um ano, outras chacinas aconteceram, o que nos mostra que esse trato da Polícia Militar não é ação isolada, mas a atividade cotidiana.

6. Onde há sangue, há luta
Nos dias seguintes, a região na qual ocorreu a chacina, Grande Messejana, foi tomada por vários protestos populares com um grito de basta ao genocídio da juventude negra. Com a pressão popular, as investigações avançaram e hoje, 44 policiais estão em prisão preventiva para serem julgados por conta da chacina do dia 11 de novembro. Outro passo significativo são as manifestações permanentes da periferia contra a criminalização e o genocídio da juventude negra, que entram aos poucos para o calendário da cidade, como a Marcha da Maconha que reúne anualmente milhares de jovens das periferias nas ruas da Beira Mar e a Marcha da Periferia, que fará sua 4ª edição em novembro.

7. Ceará Pacífico: a paz dos cemitérios
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A resposta dos governos ao problema da violência, fruto da desigualdade social imposta pelo capitalismo, é de cada vez menos investimento em arte, cultura e mais policiamento. O ativista do Movimento Hip Hop Nós por Nós, Moita Brava, fala ao Esquerda Online sobre o projeto Ceará Pacífico: “Camilo Santana e Roberto Cláudio querem selar um pacto de paz na base da porrada” e continua: “É a paz dos cemitérios”.


8. Nos reggaes da cidade

imagem-8O passinho do reggae está conquistando Fortaleza bairro a bairro. A massificação dos reggaes são a mais recente expressão dos jovens na cidade. Diante disso, o prefeito Roberto Cláudio (PDT) está rivalizando com os reggaes da juventude, organizando os reggaes da Prefeitura para a propaganda eleitoral, e desmanchando os reggaes que não organizam com ação da polícia racista. A postura verticalizada da Prefeitura, que tira o protagonismo juvenil, está também bastante presente nos CUCA da cidade.

9. O que vem por aí?
As periferias brasileiras fazem jus ao histórico do nosso país de 400 anos de revoltas negras contra a escravidão e seguem organizando a resistência cotidiana ao autoritarismo do Estado contra as favelas. Os tempos de desemprego, subemprego, ataque aos direitos, Michel Temer, Moroni, Capitão Wagner são também tempos de rebeldia, protestos, greves, Marcha da Maconha e Fora Temer.

Confira os próximos eventos
– Em várias datas seguem os reggaes da juventude.
– 23 de Setembro – Cortejo Acabou é Porra!
Em repúdio à ação da Guarda na Praça dos Leões e na Praça da Gentilândia. Evento
– 25 de Setembro – Marcha da Maconha pelo Fora Temer. Evento
– Novembro – 4ª Marcha da Periferia. Informações

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