25 de outubro: o Brasil venceu o Brazil
Publicado em: 27 de outubro de 2026
Ricardo Stuckert
¨O Brazil não merece o Brasil
O Brazil está matando o Brasil”
Querelas do Brasil
Aldir Blanc e Maurício Tapajós
O ano era 1978. A ditadura já era enfrentada nas ruas, mas ainda reprimia com brutalidade. Pois foi nesse ano que os geniais Aldir Blanc e Maurício Tapajós compuseram a música “Querelas do Brasil”. Ficou conhecida nacionalmente pela gravação icônica de Elis Regina no disco e show “Transversal do Tempo”. O Brazil com “z” simbolizava o Brasil de uma elite dependente econômica, política e culturalmente dos EUA que queria sufocar o Brasil real do sofrido povo brasileiro. Foi uma premonição metafórica brilhante da dupla de compositores. A arte, muitas vezes, se antecipa à realidade. Naquele período as manifestações estudantis e populares cresceram, as grandes greves de metalúrgicos, professores, petroleiros, bancários e de toda a classe trabalhadora eclodiram por todo o pais e colocaram finalmente fim à ditadura. Mas o Brazil com “z” ficou, meio quieto, escondido, pequeno. Mas ficou.
Décadas se passaram e esse Brazil com “z” se fortaleceu. É o Brazil do agro, do mercado financeiro, dos saudosos da ditadura e de seus torturadores, de uma elite que odeia pobre. Uma elite integrada à ultradireita mundial e ao neofascismo. São racistas, misóginos. Gente da pior espécie que quer entregar o Brasil a Trump e ao império americano. Esse Brazil com “z” ganhou peso na economia, ganhou peso na política. Busca nos impor uma ideologia reacionária e uma cultura medíocre: o sertanejo agro de Gustavo Lima, Zezé de Camargo, entre outros desta laia. Tudo somado, representam o pior do nosso país. Seu porta-voz é a Familícia Bolsonaro e sua gangue. Venceram o 1º turno. Ficamos à beira do inferno.
Então o Brasil com “s” se ergueu. O Brasil de Chiquinha Gonzaga, Cartola, Noel Rosa, Nelson Cavaquinho, Lupicínio, Caetano Veloso, Chico Buarque, Emicida, Mano Brown, Paulinho da Viola, Rita Lee, Luís Gonzaga, Maria Bethânia, Gal Costa, Pena Branca e Xavantinho, Mônica Salmaso, Tom Jobim, Vinícius de Moraes, Gilberto Gil e muito mais, todas e todos representantes da música popular brasileira, uma das melhores do mundo, esse Brasil não poderia ficar parado. O Brasil lá do cinema novo, assim como de “Bacurau”, de “Ainda Estamos Aqui”, de “O Agente Secreto” e tantos outros também se levantou. Temos cultura para dar e vender. O Brasil pentacampeão de futebol falou: aqui não! As torcidas se uniram nas ruas.
Foi um maremoto vermelho contra inimigos poderosos: a extrema direita e seus aliados do centrão, a Faria Lima, Trump, as big techs com seus algorítimos, André Mendonça, Nunes Marques e seus asseclas e a mídia liberal que flertou com o bolsonarismo. Mas o Brasil com “s” os derrotou.
Tudo começou na segunda feira, um dia após o 1º turno. Enquanto o comando da campanha do Lula estava paralisado pela derrota, os estudantes de Niterói saíram espontaneamente às ruas contra o perigo fascista. Rapidamente se alastrou para outras cidades. Virou um levante da juventude e a UNE correta e rapidamente impulsionou e se colocou à frente das mobilizações por todo o país. O levante da juventude tinha que virar um tsunami. Era preciso contaminar a maioria da população trabalhadora. E contaminou. Foram milhões que saíram às ruas defendendo as reivindicações dos explorados, dos oprimidos, dos discriminados e defendendo também nossa frágil democracia contra o fascismo. Uma união de gerações com a juventude na vanguarda formou uma multidão que impactou o país. Essa multidão também se conectou nas redes e ficou em maioria, mesmo com o boicote da Meta. O Exército do Lula comandado por Janones chegou a 10 milhões de participantes. A incorporação dos jovens parlamentares, como Guilherme Cortez e Ana Elisa entre outros, nesta tarefa foi fundamental. Foi um maremoto vermelho contra inimigos poderosos: a extrema direita e seus aliados do centrão, a Faria Lima, Trump, as big techs com seus algorítimos, André Mendonça, Nunes Marques e seus asseclas e a mídia liberal que flertou com o bolsonarismo. Mas o Brasil com “s” os derrotou.
Houve e há um fenômeno no país. Um movimento espontâneo, de milhões, que não só tomou as ruas e as redes, mas também se organizou nas universidades, institutos, escolas, nos locais de trabalho, nos bairros, nas casas, nos prédios de moradores. Uma auto-organização como há décadas não se via. Algo muito maior que a disputa de uma eleição. Na verdade, uma luta pela vida, pela humanidade, pelo futuro. Algo grandioso de emocionar e fazer chorar qualquer velho militante como este escriba. Lula aos 81 anos, a maior liderança operária surgida por aqui, com suas virtudes e defeitos, deu vida, corpo e alma a essa explosão contra o fascismo. A unidade da UNE, das Frentes, dos Artistas com o campanha deu coordenação ao processo. Aldir Blanc, que morreu de covid por falta de vacina no governo de Bolsonaro pai, foi vingado. O seu Brasil derrotou o Brazil deles. Foram derrotados, mas continuam com peso. Vai ser preciso continuarmos atentos e fortes. Lula não pode recuar no que prometeu. Nenhum retrocesso na organização construída. As ruas e redes devem continuar ocupadas. Isso não se encerra numa eleição. A luta segue pelo futuro nosso e da humanidade. Temos aliados em todo o mundo com os mesmos objetivos. Como diz a canção Sonho Impossível: “E assim, seja lá como for, vai ter fim a infinita aflição e o mundo vai ver uma flor brotar do impossível chão”.
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