Mais que uma eleição: o Brasil em disputa
Publicado em: 8 de setembro de 2026
Paulo Pinto/Agência Brasil
Não estamos em uma rota normal e previsível, navegando sob águas tranquilas e em tempos de calmaria. O cenário é de disputa, incerteza e enfrentamento. Esta não será apenas uma eleição. Ainda que pareça exagero, há um fundo de verdade incontornável: as eleições nacionais de 2026 terão importância decisiva para toda a América Latina, dada a centralidade (geo)política e conjuntural do Brasil. O que está em disputa não é apenas o futuro do país.
Sabe-se que uma eleição não se resume a uma disputa por votos. Trata-se, fundamentalmente, de uma disputa pelo poder político e pela capacidade de definir os rumos do país nos anos seguintes. No caso das eleições de 2026, estarão em jogo tanto os cargos do Executivo, nas esferas federal e estadual, quanto a composição do Legislativo, incluindo o Senado Federal, a Câmara dos Deputados e as Assembleias Legislativas. Está em disputa, portanto, quem terá condições de determinar os caminhos do Brasil nos próximos anos. Mas essa disputa ultrapassa as fronteiras nacionais. O que está em jogo vai além do Brasil.
A abrangência continental das eleições
O resultado eleitoral no Brasil deverá influenciar sobremaneira os rumos políticos da América Latina e, em particular, a correlação de forças em torno da disputa entre os projetos de soberania nacional (ainda que submetida aos ditames do capital financeiro) e a ofensiva imperialista e ultraconservadora na região nos próximos anos.
Esse cenário se torna ainda mais relevante diante da crescente ofensiva do governo Donald Trump sobre a América Latina. Os Estados Unidos vêm ampliando sua pressão política, econômica e militar sobre países da região, como demonstram as ações de bloqueio contra Cuba e a intervenção na Venezuela, onde Washington passou a exercer influência direta sobre o novo governo após a retirada (e sequestro) de Nicolás Maduro do poder em janeiro de 2026. Ao mesmo tempo, observa-se o fortalecimento de governos e forças políticas de direita e extrema-direita em diferentes países sul-americanos, entre eles Argentina, sob Javier Milei; Chile, sob José Antonio Kast; Equador, sob Daniel Noboa; Paraguai, sob Santiago Peña; Bolívia, sob Rodrigo Paz; e Colômbia, após a eleição de Abelardo de la Espriella. O sinal amarelo foi aceso.
O próprio Trump explicitou essa leitura do cenário regional. Em declaração realizada em 2 de setembro de 2026, afirmou que os países da América do Sul “deixaram a esquerda e foram para a direita” e que “estão todos indo para a direita”. Na mesma ocasião, reivindicou influência sobre eleições recentes na região e destacou sua proximidade com governos e lideranças de direita. Tudo isso há um mês das eleições brasileiras. A declaração ocorreu em um contexto de forte tensão entre Washington e Brasília, marcado pela imposição de novas tarifas sobre produtos brasileiros. Em julho, os Estados Unidos estabeleceram uma sobretaxa de 25% sobre determinados produtos brasileiros, no âmbito da Seção 301 da legislação comercial norte-americana, sob apoio bolsonarista e oposição do governo Lula.
É nesse contexto que a eleição brasileira adquire uma dimensão que ultrapassa as fronteiras nacionais. Pela posição estratégica, pelo peso econômico e demográfico e pela capacidade de projeção política do Brasil no continente e no mercado mundial, o resultado eleitoral de 2026 poderá alterar significativamente a correlação de forças na América Latina. Mais do que definir os rumos internos do país, a eleição poderá incidir sobre o avanço ou o enfrentamento da ofensiva norte-americana na região, sobre as possibilidades de articulação latino-americana e sobre a defesa da soberania nacional, cada vez mais tensionada pelas disputas geopolíticas contemporâneas.
O Brasil está em disputa
Em âmbito nacional, o que está em jogo não é apenas quem ocupará o Palácio do Planalto. Está em disputa o modelo de Estado, o papel das instituições democráticas, do trabalho, o futuro dos serviços públicos, da ciência, da educação, da democracia e a própria capacidade de organização dos trabalhadores – isto é, se teremos uma conjuntura mais favorável ou plenamente reacionária. A pergunta é: que Brasil chega à eleição? E que Brasil cada campo político quer entregar depois dela?
O Brasil que chega à eleição é um país fraturado socialmente e politicamente polarizado. Os neofascistas mantêm uma posição de liderança junto a uma parcela significativa da burguesia e contam com forte respaldo dos meios de comunicação corporativos, especialmente no que se refere à defesa e ao aprofundamento do ajuste fiscal. Apoiam-se, ainda, em setores expressivos de uma classe média acomodada e marcadamente antipetista, ao mesmo tempo em que exercem forte influência sobre parcelas da classe trabalhadora que se deslocaram politicamente à direita e sobre segmentos do campo cristão, sobretudo neopentecostais, alinhados ao neoconservadorismo.
Temos aqui uma contradição importante. Se, por um lado, os principais indicadores econômicos do governo Lula apontam para uma melhora significativa da atividade econômica e do mercado de trabalho, por outro, esses resultados ainda não se traduzem, na mesma proporção, em uma percepção positiva por parte do eleitorado. O PIB cresceu 0,5% no segundo trimestre de 2026, depois de avançar 1,1% no primeiro trimestre; a taxa de desemprego recuou para 5,3%; a renda média real atingiu, em 2025, R$ 3.560, o maior valor anual da série histórica do IBGE; e o número de trabalhadores com carteira assinada chegou a 13,8 milhões, com a incorporação de 477 mil novos trabalhadores no trimestre. A melhora dos indicadores macroeconômicos não necessariamente produz, de forma imediata, uma percepção de melhora nas condições de vida. ssa distância entre os indicadores econômicos e a experiência concreta da população constitui hoje um dos principais desafios políticos do governo Lula. Não basta que a economia esteja melhor em termos agregados; é necessário que essa melhora seja sentida no cotidiano da classe trabalhadora. Por outro lado, a taxa de juros está em 14%, e a inflação continua acima da meta (0,4% no segundo trimestre), além do consumo das famílias ter caído 0,4% no segundo trimestre.
Contudo, é possível afirmar que, nos últimos dias, abriu-se uma nova conjuntura, mais adversa, no interior da situação política nacional. A realidade nos demonstra que a correlação de forças políticas mudou para pior. A ofensiva do ministro do STF André Mendonça contra Alexandre de Moraes — até aqui um dos principais alvos políticos do bolsonarismo —, ao levantar suspeitas sobre possíveis relações entre o ministro e o banqueiro Daniel Vorcaro, contribuiu para alterar o terreno da disputa e ampliar a blindagem política em torno de Flávio Bolsonaro. É preciso lembrar, ainda, que sua campanha já vinha enfrentando uma forte crise diante da ausência de explicações públicas satisfatórias sobre o destino de mais de R$ 100 milhões que, segundo as denúncias divulgadas, teriam sido recebidos do próprio Vorcaro.
O resultado é uma conjuntura mais favorável à ofensiva da direita e mais adversa para a esquerda. Não se trata, portanto, de uma simples oscilação nas pesquisas, mas de uma mudança no terreno político em que a disputa eleitoral está sendo travada.
Duas pesquisas recentes apontam para uma mudança importante no cenário de segundo turno
Se, até então, Lula vinha se mantendo à frente no primeiro turno e com ligeira vantagem nas simulações de segundo turno, as pesquisas eleitorais mais recentes, após os escândalos institucionais do STF, acendem um sinal de alerta: há um possível empate técnico entre Lula e Flávio Bolsonaro em uma eventual disputa pela Presidência. Uma das pesquisas, inclusive, já aponta vantagem numérica para o candidato neofascista.
Também o Agregador de Pesquisas da BBC News Brasil divulgou nesta terça-feira (08/setembro) que Flávio Bolsonaro está à frente de Lula no 2º turno. Segundo o tratamento de dados de médias de pesquisas do agregador, Lula teria 38% de intenções de votos e Flávio Bolsonaro 33%, ao passo que nas simulações para segundo turno, Flávio aparece com 45% e Lula com 44%.
Não se trata de tomar uma pesquisa isolada como retrato definitivo da conjuntura, mas de observar o movimento das séries históricas: enquanto Lula apresenta uma pequena tendência de queda, Flávio Bolsonaro vem registrando crescimento nas simulações de segundo turno.
Segundo as pesquisas de intenção de voto, cerca de 10% do eleitorado pretende apostar em uma candidatura que se apresenta como “terceira via” de novo tipo: o estreante e escritor de livros de autoajuda e coaching, Augusto Cury. Contudo, entre suas soluções apresentadas para problemas sociais complexos, como o feminicídio, está a proposta de que o Estado equipe delegacias estaduais e municipais com “drones inteligentes” para auxiliar no combate aos crimes contra as mulheres. Ou seja, o candidato não apresenta qualquer preparo para a presidência. Ao mesmo tempo, outros 10% do eleitorado ainda estão indecisos ou não sabem em quem votar. Somados aos pouco mais de 5% que pretendem votar em branco ou nulo e aos votos destinados ao candidato coaching, temos cerca de 25% do eleitorado fora do núcleo consolidado das principais candidaturas.
É nesse terreno que a eleição poderá ser decidida. Em última instância, uma parcela pouco superior a 10% do eleitorado poderá definir quem (e como) chegará ao segundo turno e, sobretudo, quem terá condições de vencê-lo. É importante lembrar, ainda, que tanto Lula quanto Flávio Bolsonaro apresentam índices de rejeição superiores a 50%. Esse dado torna ainda mais relevante a disputa pelo eleitorado que permanece indeciso ou que, neste momento, não se identifica com nenhuma das principais candidaturas.
Mas não caiamos no “politiquês” do jornalismo e das pesquisas eleitorais. Esta não é apenas uma eleição em que se disputam votos, cargos e espaços de poder. É uma disputa entre projetos de sociedade. A questão central, portanto, não é apenas quem vencerá as eleições, mas quais interesses sociais estão se organizando em torno de cada alternativa?
Quem acha que a eleição está ganha pode perder a eleição. E quem acha que a eleição está perdida também pode deixar de disputar.
E há algo vital no emaranhado dessa conjuntura: a eleição presidencial não será decidida isoladamente. Não estará em jogo apenas quem ocupará o Palácio do Planalto. Estaremos elegendo também deputados, senadores e governadores — e, com eles, a correlação de forças que definirá boa parte das disputas políticas dos próximos anos. Por isso, a pergunta que exige nossa máxima atenção é direta: quem estará no Congresso Nacional a partir de 2027?
O trabalho volta ao centro
Uma das chaves para entender a conjuntura está na proposta de redução da escala de trabalho 6 x 1. Quando uma pauta concreta da classe trabalhadora consegue ocupar o centro do debate nacional a política deixa de ser abstrata. A discussão em torno desse tema conseguiu transformar uma reivindicação histórica do movimento dos trabalhadores, a saber, a redução da jornada de trabalho, em debate nacional.
Isso nos ensina uma coisa muito importante: a pauta sindical só se torna politicamente poderosa quando consegue falar para além do sindicato, quando extrapola o debate corporativo. Em outras palavras, quando um trabalhador pergunta se terá dois dias de descanso na semana; quando uma mãe pergunta quanto tempo terá para estar com os filhos; quando um jovem pergunta se sua vida será apenas trabalhar e sobreviver, estamos falando de algo que vai muito além da jornada de trabalho. Estamos falando de que tipo de vida queremos viver.
A discussão sobre a jornada 6×1 contribuiu para deslocar a pauta trabalhista de uma dimensão estritamente corporativa para o centro do debate da sociedade. A redução da jornada de trabalho deixou de ser uma reivindicação restrita aos trabalhadores organizados e passou a ser reconhecida como uma questão que diz respeito às condições de vida da maioria da população.
Nestas eleições engana-se quem pergunta “quem vence?”. Precisamos perguntar: “qual programa vence, quem ganha com ele e quais serão as consequências para o mundo do trabalho?
Ainda que com algum exagero, podemos dizer que parte importante do futuro político das eleições passa pela disputa em torno da escala 6×1. A eventual aprovação de sua redução pelo Senado teria enorme impacto sobre o debate eleitoral, justamente porque toca uma questão concreta da vida dos trabalhadores. Lula apoia, Flávio Bolsonaro a rejeita. Ao que tudo indica, porém, a votação ficará para depois do pleito, diante da articulação de setores da direita no Senado — entre eles Flávio Bolsonaro e seus apoiadores — para postergar ou barrar a medida.
O desafio do sindicalismo não é apenas defender a categoria a qual representa. É fazer com que o trabalhador volte a enxergar o sindicato como instrumento para mudar a própria vida. E os sindicatos devem servir, como instrumentos uteis de luta. Será melhor lutar e mobilizar a classe diante de quais candidaturas em disputa?
Temos acordo com Arcary de que teremos semanas dramáticas, quando aponta que a principal estratégia da direita, neste momento, parece ser produzir uma sucessão política, e não apenas defender a permanência de Bolsonaro como liderança. Para isso, trava-se uma intensa disputa de narrativas: anunciam-se guerras civis contra o narcotráfico, fazem-se promessas de armamento nuclear, multiplicam-se os ataques e insultos à esquerda e, nas próximas semanas, deverá se intensificar a tentativa de “satanizar” ainda mais a figura de Lula, em uma verdadeira ofensiva contra sua reeleição.
Nesse movimento, porém, há um elemento que merece particular atenção: as candidaturas de centro, centro-direita e extrema-direita disponíveis — especialmente aquelas que apresentam desempenho relevante nas pesquisas de opinião pública — parecem compartilhar um eixo comum, associado a oposição à reeleição de Lula: a defesa do aprofundamento do ajuste fiscal e da redução dos direitos da classe trabalhadora.
O perigo em superestimar a extrema-direita
Há, portanto, o perigo em superestimar as forças da extrema-direita. Nesta semana, ela retomou as ruas em torno de manifestações reacionárias. Em São Paulo, com a presença de Flávio Bolsonaro e apoiadores, a Av Paulista foi palco de quase 30 mil pessoas , com pessoas de verde-amarelo e bandeiras do Brasil e dos EUA, contra o Supremo Tribunal Federal (STF), principalmente contra o ministro Alexandre de Moraes. A palavra de ordem foi: “Fora Lula, Fora Moraes”. Em meio a multidão, Flavio Bolsonaro declarou:
“Por providência divina, a missão que Bolsonaro passou para o filho primogênito, eu estou encarando mesmo que a minha vida esteja em risco e fazendo campanha com colete à prova de bala porque sei do que a esquerda é capaz. Eu faço campanha com colete à prova de bala porque sei que o povo brasileiro é o colete do Brasil, que defende nossa democracia. Vão tentar uma terceira facada, não só em mim, mas nos meus aliados, eu estou avisando.”
Não se enganem. O projeto não se limita a apoiar Flávio Bolsonaro e desgastar Lula. A disputa em curso é mais ampla e envolve a construção de uma nova correlação de forças políticas e institucionais para os próximos anos.
Atentemo-nos em acompanhar a recente crise institucional do STF. O ministro André Mendonça acionou a Polícia Federal para aprofundar, inicialmente sob sigilo, a investigação sobre as relações entre Daniel Vorcaro e Alexandre de Moraes. Dias depois, determinou o levantamento do sigilo e tornou públicas mensagens e informações potencialmente comprometedoras para o ministro. A decisão não ocorre em um vazio político: vem às vésperas das eleições e em meio à crescente disputa em torno da sucessão presidencial, quando Flávio Bolsonaro tenta se consolidar como principal alternativa do campo bolsonarista.
Não é possível ignorar, portanto, a dimensão política desse movimento. Ao expor Moraes e colocar o STF no centro de uma nova crise institucional, a operação produz efeitos eleitorais evidentes e oferece ao bolsonarismo uma narrativa poderosa contra o campo petista e contra o próprio Supremo. Trata-se, a nosso ver, de uma manobra político-jurídica com forte conteúdo eleitoral e inequívoco caráter antipetista. Tudo isso torna o desfecho de um eventual segundo turno hoje imprevisível. A disputa está aberta e qualquer subestimação da força da extrema-direita poderá ser politicamente desastrosa.
Do mesmo modo, mais recentemente, a decisão de um ministro do STF identificado com o campo conservador, que determinou o recente afastamento do diretor-geral da Polícia Federal, não pode ser tratada como um episódio secundário. As relações que cercam essa decisão também merecem atenção . Apurações revelam que Andrade manteve encontros com o banqueiro Daniel Vorcaro (preso nos escândalos do Banco Master) fora das dependências do STF. Nunes, que apoiou a decisão, tem um filho que teria estabelecido contrato com o próprio Vorcaro. Fux, por sua vez, também foi alvo de questionamentos em razão de seu filho ter participado de um encontro com o banqueiro do Banco Master nos Estados Unidos, com direito à uísque.
Mais do que estabelecer conclusões antecipadas a partir dessas relações, trata-se de questionar a existência de vínculos que, pela sua natureza, exigem transparência, esclarecimento público e escrutínio sobre eventuais conflitos de interesse. Mas a extrema direita não está interessada nisso. Em termos estratégicos, o que pretende a extrema-direita não é outra coisa senão conquistar a Presidência da República, ampliar sua maioria no Senado Federal e assegurar condições para exercer maior controle e influência sobre o STF. Trata-se, portanto, de uma estratégia de ocupação simultânea do Executivo e do Legislativo, combinada à disputa pelo controle das instituições do Judiciário. Como não conseguiram consumar o golpe de Estado, a extrema-direita busca agora construir, pela via eleitoral, a maioria necessária para implementar seu projeto autoritário e antidemocrático — e está disposta a fazer isso a qualquer custo.
Vale observar que Mendonça ocupa hoje uma posição política próxima do campo bolsonarista na disputa em torno da anistia de Jair Bolsonaro, enquanto Alexandre de Moraes se tornou um dos principais algozes políticos do bolsonarismo. Não por acaso, os atos bolsonaristas de 7 de Setembro combinaram ataques a Moraes (com direito a uma campanha de impeachment no Senado) com manifestações explícitas de apoio a Mendonça.
Em um eventual cenário de vitória de Flávio Bolsonaro, é importante registrar, ainda, que o presidente poderá indicar até quatro novos ministros do STF ao longo de seu mandato, considerando a vaga atualmente aberta e as aposentadorias previstas para os próximos anos. Isso poderia fazer com que seis dos 11 ministros do Supremo fossem indicados por presidentes do campo bolsonarista, alterando significativamente a correlação de forças na mais alta Corte do país.
O que fazer?
No filme O senhor dos Anéis, o personagem Frodo diz: “eu gostaria que isso não tivesse acontecendo no meu tempo”. E logo o sábio Gandalf lhe responde: “tudo o que temos que decidir é o que fazer com o tempo que nos é dado”.
Talvez seja justamente essa a questão que a conjuntura nos coloca. Não escolhemos o tempo histórico em que vivemos, nem as condições em que travamos nossas lutas. Não escolhemos a força dos nossos adversários, tampouco as dificuldades do caminho. Mas podemos decidir o que fazer com o tempo que nos foi dado. E, diante de uma eleição em que o Brasil, a democracia, os direitos dos trabalhadores e o próprio futuro do país estão em disputa, não basta assistir aos acontecimentos. É preciso tomar posição, organizar forças e disputar os rumos do nosso tempo.
Cerca de três semanas nos separam das eleições. O desfecho da eleição presidencial permanece imprevisível diante da polarização política. Diante dessa nova conjuntura, quais são as tarefas que se colocam para a esquerda e para os setores populares? Quais são as tarefas urgentes?
– Unidade para enfrentar o avanço da extrema-direita e do neofascismo. Para tanto, é preciso reelegermos Lula presidente;
– Ampliar a representação da esquerda no Legislativo. Fazermos campanha para candidaturas que não sejam vinculadas a partidos de direita ou extrema-direita, mas partidos de esquerda e candidaturas ligadas aos interesses populares e dos trabalhadores. O resultado das eleições legislativas será decisivo para a correlação de forças políticas dos próximos anos.
– Construir uma ampla unidade pela redução da jornada de trabalho e pelo fim da escala 6×1.
– Acumular forças contra o ajuste fiscal e o neoliberalismo. É preciso disputar o sentido das políticas econômicas e sociais, enfrentando as iniciativas de redução de direitos e de transferência dos custos das crises para os trabalhadores, ao mesmo tempo em que se constrói uma alternativa de projeto para o país.
– Organizar a classe trabalhadora em sua nova morfologia. Essa talvez seja a tarefa estratégica mais profunda
No próximo período, a esquerda brasileira não poderá permanecer refém da reação às políticas dos governos e às iniciativas do campo da direita. Precisará apresentar e construir um projeto próprio, um projeto dos trabalhadores para o Brasil. Para isso, será necessário acumular forças, organizar a resistência e construir as condições para uma correlação de forças mais favorável à luta.
Estamos, hoje, em uma posição defensiva. Precisamos saber contra quem lutamos, compreender a correlação de forças em cada momento e reconhecer os diferentes tempos da luta, para definir, em cada embate, quem são nossos adversários e quem poderá estar ao nosso lado.
Em meio a tanta adversidade, seguimos nossas batalhas. E, para isso, precisamos ter bom senso. Temos muitos inimigos de classe, mas eles não são iguais. Há diferenças entre eles, e essas diferenças importam. Alguns são mais brutais, mais perigosos e representam ameaças mais imediatas. É preciso, portanto, saber hierarquizar os enfrentamentos, identificar onde está o perigo maior em cada conjuntura e concentrar nossas forças naquilo que é decisivo. Não é possível lutar contra todos e ao mesmo tempo.
Reelegermos Lula é imperioso
Lembremos, por fim, que, até a eleição, ouviremos muitas promessas, muitas calúnias e muitas fake news. Estamos em campo minado. Assistiremos a pequenas oscilações nas pesquisas, a novas disputas, ataques e batalhas nas redes sociais. O Brasil está em disputa. A democracia está em disputa. O terreno em que travaremos as próximas batalhas está em disputa. Os serviços públicos estão em disputa.
E nós não viemos aqui para assistir à disputa. Viemos para disputá-la.
Sabemos que ainda não encontramos, no governo Lula, uma resposta política à altura dos anseios da classe trabalhadora e dos desafios colocados pela superação dos problemas sociais estruturais do país. Há limites, contradições e escolhas que precisam ser enfrentados e criticados. Mas não podemos confundir nossos desejos com a realidade do aqui e agora. A política não se faz apenas a partir do que gostaríamos que fosse, mas também da compreensão concreta das forças em disputa e das condições em que travamos nossas lutas.
É justamente por isso que precisamos ter clareza sobre a tarefa imediata. A disputa eleitoral de 2026 não pode ser reduzida a uma avaliação do governo Lula. O que está em jogo é uma correlação de forças muito mais ampla. Diante do avanço da extrema-direita e da possibilidade concreta de que ela ocupe a Presidência da República, a derrota eleitoral desse campo se coloca como uma tarefa central para os setores democráticos e populares.
É por isso que precisamos concentrar nossas forças. Nossa tarefa é reeleger Lula para derrotar eleitoralmente o neofascismo — porque, nas condições atuais, é Lula quem reúne as condições para derrotar esse perigo — e construir, no Congresso Nacional e nas Assembleias Legislativas, uma representação de esquerda, popular e comprometida com os interesses dos trabalhadores.
A eleição não encerra a luta. Ela define, em grande medida, o terreno em que travaremos as próximas batalhas.
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