A Copa do Mundo pertence aos povos
Publicado em: 9 de junho de 2026
Coluna Gabriel Santos
Gabriel Santos é nascido no nordeste brasileiro. Alagoano, mora em Porto Alegre. Militante do movimento negro e popular. Vascaíno e filho de Oxóssi
Coluna Gabriel Santos
Gabriel Santos
Gabriel Santos é nascido no nordeste brasileiro. Alagoano, mora em Porto Alegre. Militante do movimento negro e popular. Vascaíno e filho de Oxóssi
A cada quatro voltas no Sol, em algum lugar da Terra, as diferentes Nações se reúnem, com suas línguas, culturas e tradições, para correr durante 90 minutos atrás de um objeto esférico.
É época de Copa do Mundo. Esse evento difícil de explicar, mas capaz de trazer para nós a nostalgia de tempos que se foram, e de formar um sentimento de união em torno da bandeira, das cores nacionais e de um sonho: conquistar o hexa.
Amantes do futebol e torcedores de ocasião, deixam as diferenças de lado e se juntam. Colados na TV, esperneiam, roem as unhas, gritam, comemoram o gol de um atleta que até semana anterior falavam mal, xingam o juiz, a mãe dela e a terceira geração da família do operador do árbitro de vídeo. Está tudo liberado.
O ato de torcer não pode e não deve ser racionalizado. Todos têm o direito ao apoteótico grito de gol, e a maravilha que é a corneta.
Comprar camisas, enfeitar a rua com bandeirolas, pintar a calçada, fazer bolões e churrasco para os jogos. Gritar ser o único pentacampeão, xingar a equipe rival e seu suposto craque, escrever Seleção com letra maiúscula, da mesma forma que se escreve nomes próprios… a magia da Copa está nos detalhes e está em tudo. E sinceramente, pouca importa se nossa rixa com a Argentina foi inventada por Galvão Bueno ou não, ou a presença de jogadores de qualidade duvidosa no time brasileiro.
O futebol, de acordo com os dizeres de historiadores sem coração e de burocratas apaixonados por planilhas, surgiu na Inglaterra. De lá pra cá, muita coisa mudou. Eu sou daqueles que acham que o futebol só existiu como tal quando rompeu os muros das elites e foi apropriado pelo povo.
Hoje, o esporte mais popular do mundo é regido por bilionários e tratado como empresa. Regras robóticas, rigidez tática, linhas de marcação, e toda uma baboseira que enxerga o Jogo não como uma bagunça organizada, mas como uma sequência de fatos definidos previamente.
Os estádios, palcos de dramas, lágrimas, e de um show à parte no duelo entre as torcidas, se tornaram teatros e luxuosas arenas. O grito, as bandeiras, o show, a pirotecnia, foi tudo substituído por silenciosos aplausos, mosaicos e um jeito cada vez mais vendável para a televisão e para o estrangeiro. O futebol para torcer se tornou o espetáculo para olhar. A fantasia de criar jogadas virou a prisão dos esquemas táticos.
O drible, a ginga, o camisa dez, perdem espaço e o nosso esporte fica mais triste, menos colorido. Fica mais parecido com o inventado pelos ingleses.
Talvez isso explique a crise da seleção brasileira. A perda da identidade do futebol nacional, num mundo neoliberal marcado pela divisão internacional do trabalho. Nele, nosso país tem a função de exportar, seja commodities, ou craques. Nessa falsa especialização formamos atletas de perfil semelhante, quase todos pontas, que atuam pela beira do campo, driblam, são rápidos e logo serão vendidos para um clube do exterior.
Assim como as cidades deixaram de ser das pessoas para ser do capital financeiro, o futebol, ao pouco, deixa de ser do jogador e se torna do esquema tático. Ainda existem aqueles que resistem e acreditam que as ruas podem ser lugar de encontro e não só de passagem, assim como o futebol pode ser do povo e não da bolsa de valores.
O futebol que acredito faz parte do mundo sobrenatural, do espiritual, do divino. O mundo, e em especial o mundo do futebol, é esotérico. Os amantes das planilhas e os que preferem o materialismo ateu que me perdoem, mas suas crenças não tem lugar na Copa do Mundo.
Pela lógica e materialidade das coisas o 7×1 não teria acontecido. Mas alguma entidade resolveu que nossos pecados eram grandes demais. Pela lógica dos números Maradona não teria atravessado o campo enquanto erguia a bandeira da Soberania Latino Americana, deixando os ingleses pelo caminho. Pela lógica humana Ronaldo Fenômeno nunca teria se recuperado da lesão em 2002. Mas no Campo o divino fala.
Somente o sobrenatural explica Seu Zé Pilintra incorporar no Mané Garrincha, em pleno Maracanã, e o fazer dançar com a bola. É o divino que fez o então ainda menino Pelé, receber um Erê, fazer furdunço, chapelar um sueco e voltar para casa com nossa primeira taça.
Mas eles, e aqui você sabe de quem eu falo, querem acabar com essa macumba que é Jogo e transformá-lo num negócio para lucrar e encher os bolsos. Porém, ainda há quem resista.
A bola de futebol, esse objeto sacro, pode se materializar em tudo, desde que aja paixão e imaginação. De uma tampa de garrafa pet, a um jornal enrolado com durex. A trave, pode ser um par de sandália. O campo, bom, esse pode ser qualquer lugar que se possa correr livremente. Justamente por isso o futebol resiste às tentativas de silenciá-lo. Aos pés das crianças, que sonham ser craques, vestir a camisa de seu país, jogar uma Copa, tudo é possível. Eduardo Galeano dizia, a definição de alegria é a bola de futebol nos pés infantil.
Em campos de concentração para refugiados palestinos no Líbano, ou nos campos de terra das favelas e periferias do Brasil, esta esfera mágica causa o mesmo efeito. O ritual do Jogo: dividir times, chutar, correr, gritar gol, é praticado diariamente em algum lugar da França, de Camarões ou da Colômbia, por meninas e meninos que a partir do futebol conseguem sonhar com uma vida melhor.
Em campos de concentração para refugiados palestinos no Líbano, ou nos campos de terra das favelas e periferias do Brasil, esta esfera mágica causa o mesmo efeito. O ritual do Jogo: dividir times, chutar, correr, gritar gol, é praticado diariamente em algum lugar da França, de Camarões ou da Colômbia, por meninas e meninos que a partir do futebol conseguem sonhar com uma vida melhor.
Talvez, também por isso o futebol encanta tanto. Ele nos conecta a sonhos antigos. Eu, por exemplo, tive minha curta carreira, que não foi acompanhada pela grande mídia especializada. Descalço, fiz centenas de gols com a bola de meia pelas ruas de Maceió, outras centenas nas areias da orla, e mais algumas centenas chutando a pelota nos intervalos da escola. Faltou pouco para alcançar o milésimo gol ainda em minha juventude. Costumo culpar as dores no joelho e problemas respiratórios por não ter ido mais longe. É nestas anedotas, mentiras e exageros que o futebol também vive.
É na época de Copa do Mundo que o povo toma para si o futebol. Nossa Seleção (maiúscula como o talento de Neymar) representa o povo, por mais que nossos craques antipáticos, cercados por seguranças, baba ovos, bets, e publis do Instagram se esforcem para se distanciar da população.
A nossa Seleção é aquela que pode ser definida como a Seleção dos Condenados da Terra. A cada 4 anos, indianos, paquistaneses, haitianos, líbios, e pessoas de muitas outras nacionalidades vestem o histórico manto amarelo, pois nele se sentem representados.
A nossa Seleção é aquela que pode ser definida como a Seleção dos Condenados da Terra. A cada 4 anos, indianos, paquistaneses, haitianos, líbios, e pessoas de muitas outras nacionalidades vestem o histórico manto amarelo, pois nele se sentem representados.
Pretos, amarelos, marrons, da periferia do planeta, os cidadãos excluídos do Terceiro Mundo enxergam na camisa verde amarela sua redenção, sua capacidade de sonhar, de lutar contra os poderosos e de vencer. É como se fosse um sinal de afirmação: nós existimos, somos bons, temos talento e vamos vencer.
Acredito e defendo que o gol de Pelé em 58 além de inventar o futebol como amamos, também foi fundamental para essa invenção do Brasil moderno diante do mundo e diante de si.
A nossa camisa amarelinha, tão profanada nos últimos anos, é a expressão daquilo que é sagrado, daquilo que é místico, em um objeto material. É semelhante ao estandarte da escola de samba, ao terno do malandro. Ela representa mais que a si. É a subversão. O drible inusitado que derruba o marcador. A ginga e a capacidade de se reinventar.
Como homem de Fé, acredito que o futebol e a Seleção ainda tem salvação. O futebol respira. Por aparelhos. Mas respira. Os rachas de domingo, os campos de várzea, a classificação do Haiti, o gol de Endrick, são provas disso.
O famoso ditado que diz que: “das coisas que menos importam, futebol é a mais importante delas”, faz muito sentido. Triste aqueles que não se permitem e não se deixam levar pela irracionalidade do torcer e de sentir o Jogo. A Copa não se explica, como se tenta explicar o VAR, a regra do impedimento, a dívida pública e a manutenção da taxa de juros nas alturas. A Copa se sente.
É hora de deixar de lado problemas sérios e se preocupar com a banalidade de quem será o camisa 9 de nossa Seleção.
Rumo ao Hexa. Viva a Copa do Mundo. Viva a Seleção brasileira e que se foda a Fifa!!
Obs: Para falar a verdade, a verdade mesmo, eu não gosto de acompanhar futebol. Gosto mesmo é do Vasca da Gama, a flecha civilizatória de nosso esporte.
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