O fim da escala 6×1, Marx e o grupo Mateus
Publicado em: 1 de junho de 2026
Divulgação/Redes sociais
Vivemos num período tenebroso e ao mesmo tempo decisivo para o conjunto da classe trabalhadora brasileira. Bilionários construindo fortunas sobre o suor e o sangue das trabalhadoras e dos trabalhadores, utilizando inclusive de meios ilícitos para o Estado democrático de direito, como a sonegação de impostos, interceptação de cargas, cobrança de juros rotativos elevados, lavagem de dinheiro e esquemas de corrupção (como o do banco Master), dentre outras formas. Um exemplo disso é o maranhense Ilson Mateus, que aparece na lista dos bilionários da Forbes dentre as quarenta pessoas mais ricas do país com uma fortuna avaliada em quase R$11 bilhões em 2025. O enriquecimento ilícito de Ilson Mateus, segundo a apublica.org, e de outros bilionários não é uma falha no sistema, é o funcionamento normal dele. Toda grande riqueza dentro do capitalismo já contou com alguma ilicitude, para os parâmetros do Estado democrático de direito. Enquanto Ilson Mateus sonega impostos e conta com a “camaradagem” de governos como o do Maranhão, cuja alíquota do ICMS é de apenas 2%, as trabalhadoras e trabalhadores de sua rede de supermercado (as [os] caixas, trabalhadoras e trabalhadores da limpeza, da reposição de mercadorias, as [os] motoristas, as [os] atendentes, as [os] açougueiros, as [os] padeiras [os] e as [os] vigilantes) são submetidos a uma lógica de trabalho escravizante como é a escala 6×1. Por isso, se erguer contra essa escala de trabalho é papel de todo movimento organizado de luta da classe trabalhadora. Se deslocarmos a lupa de análise das relações de trabalho no interior do grupo Mateus, (terceira rede de supermercado mais rica do país), para todo o setor do varejo e atacado de supermercados, as coisas não são muito distintas das do grupo Assaí, que ocupa a primeira colocação dentre as redes de supermercado mais ricas do país, e o Carrefour, que ocupa a segunda colocação.
Sabemos, desde Marx, que esses setores da economia estão localizados na esfera da circulação das mercadorias, e, por isso estão submetidos à supervalorização dos seus artigos. Esses grupos contam inclusive com ações na bolsa de valores, onde multiplicam seus dividendos com cifras e dígitos que passam da casa dos dez algarismos. Em sua obra O Capital o velho Marx nos demonstra o caminho para a valorização do valor das mercadorias. Utilizando a fórmula D-M-D’, sendo D’ o dinheiro acrescido do valor a mais depois passar pela esfera da circulação nas trocas comerciais. Essa fórmula apresenta uma incógnita desvendada por Marx ainda no século XIX ao calcular o valor de D’ definido por D’ = D + ΔD. Aqui está o avanço do velho mouro em relação aos economistas clássicos de sua época, o ΔD é o adicional que deu mais valor ao dinheiro após a circulação das mercadorias e foi denominado por Marx como mais valia (extraída dos trabalhadores de forma brutal, econômica e subjetivamente desumana). Essa é a fonte de enriquecimento real dos ricos e bilionários, ou utilizando os seus termos, os burgueses. Naquela época a jornada de trabalho era o dobro da atual, ou seja, trabalhava-se entre 14 a 18 horas diárias nas fábricas. Soma-se a isso a ausência de direitos como férias remuneradas, décimo terceiro, licença maternidade, FGTS, licença paternidade, participação nos lucros e rendimentos (PLR para o setor privado), dentre outros. As décadas de lutas da classe trabalhadora entre os séculos XIX e XX garantiram não apenas a redução da jornada de trabalho para algo em torno de 44h semanais no Brasil, como a conquista dos direitos supracitados.
Essa gigante rede de supermercados de nada seria sem o trabalho dessas trabalhadoras e trabalhadores que acordam ainda de madrugada para abrir os estabelecimentos diariamente. Nas cidades em que essa rede de supermercados atua todos sabem que em somente dois dias do ano os supermercados estão de portas fechadas, no natal (25 de dezembro) e no ano novo (1° de janeiro)
O grupo Mateus, por exemplo, conta com uma extensa rede que entre centros de alimentação, eletrodomésticos distribuição e lojas de conveniência somam 710 estabelecimentos atuando em todo o Brasil. Todas contam com centenas de trabalhadores que vendem sua força de trabalho em troca de um salário mínimo em média. Aqui Marx também nos alerta que nervos, músculos e cérebro, ou seja, a força de trabalho, é a única coisa que os trabalhadores podem chamar de sua, tendo em vista que prédios, máquinas e instrumentos do trabalho são de posse dos donos dos meios de produção, constituindo o capital constante. Essa gigante rede de supermercados de nada seria sem o trabalho dessas trabalhadoras e trabalhadores que acordam ainda de madrugada para abrir os estabelecimentos diariamente. Nas cidades em que essa rede de supermercados atua todos sabem que em somente dois dias do ano os supermercados estão de portas fechadas, no natal (25 de dezembro) e no ano novo (1° de janeiro). Essa é apenas uma demonstração da desumanidade do bilionário Ilson Mateus e do sistema que o privilegia, o capitalismo. Enquanto Ilson Mateus anda de jatinho e viaja os quatro cantos do mundo, as trabalhadoras do caixa querem mais tempo para viver, além de passar códigos de barra das mercadorias pelas máquinas de leitura de preço, embalá-las e ao chegar em suas casas ainda realizarem o trabalho doméstico não pago. É por elas que lutamos pelo fim da escala 6×1.
O dia 27 de maio entrará para a história como o dia em que as trabalhadoras e os trabalhadores de todo o país, com suas vozes ecoadas dentro do Congresso por dois parlamentares negros e LGBTs, conquistaram a redução da jornada de trabalho e o fim da nefasta escala 6×1. O dia pode ser histórico, mas a luta segue nas redes e nas ruas e no próprio parlamento para a votação no Senado a fim de repetirmos a conquista obtida na Câmara Federal. Como disse o grande revolucionário russo Vladimir Lênin: “Há décadas em que nada acontece; e há semanas em que décadas acontecem”.
Hugo Rodrigues da Silva é professor da Educação Básica de São Luís do Maranhão









