As lições de Erika Hilton e Rick Azevedo


Publicado em: 28 de maio de 2026

Por Sol Costa, do Rio de Janeiro

Esse post foi criado pelo Esquerda Online.

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 “Nossos ídolos ainda são os mesmos
E as aparências não enganam, não
Você diz que depois deles
Não apareceu mais ninguém

Você pode até dizer que eu tô por fora
Ou então que eu tô inventando
Mas é você que ama o passado e que não vê
É você que ama o passado e que não vê
Que o novo sempre vem”

A classe trabalhadora acordou em festa. Os movimentos sociais em êxtase. Finalmente, neste país de larga História escravocrata, a escala 6×1 pode ser derrotada. 

Foi apenas a primeira etapa, mas que batalha! O Facismo tentou por todos os meios impedir nossa alegria: tentaram desacreditar o projeto, falaram de falências e demissões, buscaram retardar a tramitação com manobras parlamentares. Apesar de tudo, vencemos!

Se confirmada no Senado, essa será a maior vitória da classe trabalhadora brasileira desde 1988. Justiça seja feita, a luta pela redução da jornada de trabalho compõe a pauta sindical há décadas. Contudo, há algo novo no ar, e precisamos estar atentos ao vento que traz o cheiro da nova estação. 

Se confirmada no Senado, essa será a maior vitória da classe trabalhadora brasileira desde 1988. Justiça seja feita, a luta pela redução da jornada de trabalho compõe a pauta sindical há décadas. Contudo, há algo novo no ar, e precisamos estar atentos ao vento que traz o cheiro da nova estação. 

Mais do que uma palavra de ordem a luta contra a escala 6×1 ganhou concretude. A vida foi posta no primeiro plano, não a frieza de cartilhas da Economia. No debate, ao longo de meses, veio à tona: as jornadas simultâneas e sobrepostas de mulheres que são obrigadas a realizar o trabalho doméstico não pago para além das 40 horas pagas;  A perversidade a que são submetidas mulheres negras que precisam contar com redes de cuidados informais para criar seus filhos enquanto cumprem jornadas em casas de famílias; A destruição de laços de afeto em famílias que não têm tempo de criar momentos de lazer; As longas horas ociosas e não pagas gastas em transportes públicos nas grandes cidades; Envelhecimento precoce pela exaustão do corpo frente a extensas horas laborais; A humanidade destruída pelo trabalho extenuante para enriquecimento de meia dúzia de empresários. 

É fato que não somos todos iguais. Nós somos diferentemente explorados. Alguns de nós realizam trabalhos mais pesados, por menores salários, do que outros. À alguns de nós cabem trabalhos braçais, e a outros intelectuais. Alguns de nós têm constantemente a competência questionada para desempenhar determinadas funções, com seus respectivos salários, prestígios e privilégios. Alguns de nós sequer acessam o trabalho formal, compulsoriamente jogados no trabalho sexual. 

Pelo trabalho é fácil notar como somos todos diferenciados e desigualmente marginalizados, prejudicados de formas sobrepostas que expressam formas específicas de desvantagens. 

O colonialismo, a escravidão, as imposições de papéis de genero e heterosexualidade compulsória deram origem a formas distintas de vivenciar a classe, que legou aos oprimidos a maldição de reproduzir a sua existência em circunstancias desfavoráveis.

Essa é a razão para uma bicha e uma travesti, ambos negres, serem as porta vozes da mais importante luta do nosso país, até o momento.  

Se engana quem resume a luta das LGBTs pelo direito de dar o c*. Se engana quem acredita que a performance da masculinidade tóxica é a única forma de ser aceito na luta institucional. O que seria de nós se Erika Hilton e Rick Azevedo buscassem se adaptar ao meio à sua volta? e por que deveriam fazer isso? Erika Hilton sempre foi aberta sobre sua trajetória até o congresso, e o trabalho sexual que foi obrigada a realizar antes do Parlamento, como tantas travestis e transsexuais no Brasil. Rick Azevedo é orgulhosamente gay, sem nada a esconder. Nenhuma experiência é individual. Tentar esconder quem somos é apenas mais uma forma de violência. 

Há anos, certo setor da esquerda exige de nós sacrifícios em nome da “classe”. Deveríamos nos negar a viver num mundo que não aceita o glitter, o leque, e o slan como formas de fazer política. As formas de luta são múltiplas e variadas tal qual é diversa a classe trabalhadora. Organizar os oprimidos e explorados com nossa própria cultura, com nossa própria estética vai nos levar mais além. Para arrancar alegria ao futuro é preciso deixar aflorar nossa própria humanidade. Para o fascimo a existência dos oprimidos é uma ameaça. Façamos do orgulho nossa trincheira, só assim podemos vencer. Nós somos a classe, o mundo nos pertence!


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