Sobre Manuela d’Ávila, Rocky Balboa e a política no século XXI
Publicado em: 26 de maio de 2026
No último sábado, em Porto Alegre, Manuela d’Ávila reuniu milhares de apoiadores e militantes numa tarde de chuva para lançar a plataforma de mobilização da sua pré-campanha ao Senado e apresentar publicamente o que talvez tenha sido o primeiro grande gesto político das eleições de 2026 no Rio Grande do Sul. O encontro reuniu juventude, movimentos sociais, candidaturas proporcionais, lideranças políticas, artistas, voluntários e centenas de pessoas que foram até o 4° Distrito não apenas para assistir um ato político, mas para participar de uma convocação coletiva de engajamento, mobilização e disputa de futuro.
Mas foi uma cena específica daquele ato que acabou atravessando o debate político nacional. A entrada de Manuela ao som da trilha de Rocky Balboa, usando luvas de boxe e caminhando em direção ao palco como quem anunciava publicamente disposição para o combate político. A reação foi imediata.
Perfis gigantes da extrema direita passaram dias tentando ridicularizar a cena. Influenciadores bolsonaristas, páginas conservadoras e políticos de direita transformaram aquilo num dos principais assuntos políticos do final de semana. Ao mesmo tempo, milhares de pessoas começaram a compartilhar o vídeo, comentar a performance, discutir o significado da imagem e acompanhar a candidatura da Manuela e a plataforma lançada naquele dia.
E talvez seja justamente aí que esteja o ponto mais importante de tudo isso. Porque o que aconteceu no sábado não foi apenas uma performance de internet ou uma jogada de marketing político. Foi uma demonstração extremamente consciente de compreensão da linguagem política do século XXI.
Hoje não basta existir politicamente. Não basta ter conteúdo, programa ou boas ideias. A política contemporânea também é disputa de atenção, circulação, imagem, velocidade e emoção coletiva. A internet reorganizou profundamente a forma como as pessoas vivem a política, recebem informação e constroem identificação simbólica. E Manuela é uma das figuras políticas brasileiras que melhor compreendeu isso desde muito cedo.
Não é de hoje que a relação dela com a linguagem da internet produz estranhamento em setores mais tradicionais da política. Desde a campanha de 2004 a vereadora em Porto Alegre, quando apareceu com o famoso “E aí, beleza?”, já existia ali uma ruptura com a estética clássica da política. Aquela frase aparentemente simples condensava uma mudança importante de linguagem: a tentativa de falar de forma direta, popular, afetiva, jovem e circulável. Desde então, a trajetória pública da Manuela sempre esteve atravessada por essa capacidade de compreender como linguagem, estética, circulação e política passaram a se misturar profundamente na vida contemporânea.
E talvez seja exatamente isso que tanta gente ainda tenha dificuldade de entender sobre a cena das luvas de boxe. Rocky Balboa nunca foi apenas um boxeador. Rocky é uma das maiores metáforas populares da cultura de massas sobre persistência, luta desigual, resistência e retorno improvável. É o sujeito desacreditado que apanha, cai, parece derrotado e volta para lutar outra vez. Existe toda uma memória emocional coletiva ligada àquela trilha, àquela estética e àquela imagem. Não é apenas boxe. É linguagem popular condensada em símbolo.
E o que Manuela fez ali foi exatamente isso: condensar numa imagem uma narrativa política inteira.
A extrema direita brasileira passou anos tentando colocar Manuela num lugar muito específico: o lugar da mulher permanentemente atacada, humilhada, acuada e defensiva. Desde a ascensão do bolsonarismo, especialmente depois de 2018, ela se tornou um dos principais alvos da violência política digital organizada no país. Atacaram sua imagem, sua família, sua maternidade, sua trajetória política, sua condição de mulher de esquerda e sua própria existência pública. Tentaram transformá-la numa figura associada apenas à violência sofrida.
E por isso a reação tenha sido tão intensa quando ela aparece justamente no lugar oposto. Não como vítima, como alguém acuada. Não como alguém sobrevivendo. Mas como alguém que retorna para a disputa política em posição ofensiva e de combate.
E aqui existe um detalhe importante: Manuela não hostilizou ninguém. Não atacou adversários. Não produziu humilhação pública. Não transformou a política em espetáculo vulgar de violência simbólica. Ela apareceu sorrindo, numa cena festiva, cercada por milhares de pessoas, convocando participação política, engajamento e mobilização coletiva. Ainda assim, a reação foi imediata. Chamaram de ridículo, inadequado, exagerado.
O curioso é perceber como existe uma tolerância gigantesca com performances masculinas agressivas na política brasileira. Homens podem gritar, humilhar, debochar, encenar violência, usar caricaturas e transformar diariamente a política em guerra simbólica sem grande escândalo moral. Nicolas Ferreira colocou uma peruca loira na tribuna da Câmara para hostilizar mulheres trans e foi tratado pelos seus apoiadores como alguém ousado e corajoso. Influenciadores de extrema direita vivem da lógica permanente da humilhação pública e da caricatura agressiva.
Mas uma mulher entrando de luvas de boxe, sorrindo e afirmando disposição para a luta política, isso passa a ser tratado como inadequação.
Talvez porque exista algo profundamente desconfortável para determinados setores numa mulher que se recusa a ocupar apenas o lugar da vítima. A cena das luvas rompe exatamente com isso. Ela afirma força, combate, retorno à disputa e disposição para enfrentar politicamente um cenário extremamente hostil. E a melhor prova de que aquilo funcionou foi justamente a reação produzida. A extrema direita inteira “mordeu”. Passou os últimos dias falando da cena, compartilhando o vídeo, tentando ridicularizar a imagem e, ao fazer isso, ampliou ainda mais sua circulação.
Porque política hoje também é isso: disputa sobre quem consegue impor assunto, imagem e narrativa no fluxo caótico das redes.
Mas existe ainda uma camada mais importante em tudo isso. A cena das luvas não aparecia isolada. Ela acontecia dentro de um gigantesco ato de mobilização coletiva. O que estava sendo lançado ali era uma plataforma de voluntariado político para as eleições de 2026. Havia milhares de pessoas reunidas para construir campanha, organizar território, fazer política e disputar futuro. A imagem das luvas era também uma convocação coletiva, a ideia de que chegou a hora de voltar para a luta política.
E se tem gente que ainda não entendeu o que ocorreu no sábado, é bom ficar bem claro que não foi apenas uma performance de internet. Foi uma demonstração de força política, capacidade de mobilização, domínio de linguagem contemporânea e compreensão profunda de como a política opera no século XXI.
No fundo, o que mais incomoda não são as luvas de boxe em si. O que incomoda é perceber que uma parte importante da política brasileira ainda fala como se estivesse em 2002, enquanto outras figuras já compreenderam que a disputa contemporânea também acontece no terreno da estética, da emoção, da linguagem e da circulação massiva.
E nesse terreno, gostem ou não, Manuela d’Ávila entrou na disputa para vencer.
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