Pernbambuco: até quando a chuva vai decidir quem vive e quem morre?

Entre 2022 e 2026, o que mudou nas periferias do Recife foi a organização popular. O poder público, não.


Publicado em: 4 de maio de 2026

Por Alessandro Silva, de Jaboatão (PE)

Esse post foi criado pelo Esquerda Online.

Por Alessandro Silva, de Jaboatão (PE)

Esquerda Online

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Crédito Divulgação/Prefeitura de Timbaúba
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Entristece repetir notícias passadas, mas sobre esse tema é o que de fato acontece. O ano era 2022 quando a crise climática atingiu com força as comunidades periféricas da Região Metropolitana do Recife e da Zona da Mata. Deslizamentos, inundações, mortes.

Mas não estamos mais em 2022. Estamos em 2026. E o caos se repete. Surge das lamas e das águas que não param de cair, alimentado pela falta de planejamento e pelo “querer político”. Porque estamos falando de áreas pobres e periféricas. Sempre as primeiras a sucumbir.

1º de maio sob água

O Dia do Trabalhador e da Trabalhadora, 1º de maio de 2026, foi marcado pelo mesmo roteiro trágico. Crise climática muito debatida, pouco enfrentada. Recife, Olinda, Jaboatão e cidades da Zona da Mata registraram na noite desta sexta: 4 mortes, 422 desabrigados e mais de 1.068 desalojados.

O racismo ambiental não é metáfora

Até quando as periferias serão laboratórios de experimentos sociais e ambientais das gestões públicas? Enquanto se fala em crise climática, libera-se desmatamento e aterramento de rios. Muribeca é engolida por grandes construções em Jaboatão. A comunidade da Linha, no Ibura de Baixo, sofre com a expansão urbana por cima do rio.

É ali que o racismo ambiental deixa de ser conceito e vira estatística de morte.

O que mudou? A base, não o topo

Na gestão pública, nada. Os debates não saem do papel. Na população, mudou tudo. Mudou a força de articulação. Assim como em 2022, foi a sociedade civil que se colocou à disposição.

Movimentos sociais montaram cozinhas comunitárias, centros de acolhimento e redes de donativos em plena pandemia. A solidariedade virou política pública de fato, feita por quem vive o desastre na pele.

2026: resistência como protocolo

E não está sendo diferente agora. A sociedade se mobiliza de novo com cozinhas, acolhimentos e centrais de donativos. Mas com um avanço: criaram protocolo de desastre. Orientam quem mora em área de risco a deixar uma mochila pronta com documentos, remédios, roupas.

O Estado não planeja. A periferia se antecipa.

O aprendizado veio de baixo

Entre 2022 e 2026, o que se aprendeu não veio do poder público. Veio da base. Das periferias que, abandonadas, aprenderam a se proteger sozinhas.

A pergunta que fica não é técnica. É ética: até quando o planejamento vai ignorar quem mais sofre? Até quando a chuva vai levar vidas que poderiam ser salvas com decisão política real?


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