PSOL e a disputa do futuro
Unidade democrática contra a extrema direita, autonomia programática da esquerda e os desafios de um mundo atravessado por guerras geopolíticas e tecnológicas
Publicado em: 9 de março de 2026
Há momentos em que a política precisa ser pensada para além das disputas imediatas. Momentos em que decisões organizativas ou partidárias aparentemente pontuais revelam, na verdade, algo mais profundo sobre a forma como um campo político se prepara para enfrentar o tempo histórico em que está inserido. A decisão recente do PSOL sobre a federação precisa ser compreendida nesse registro mais amplo. Não como um gesto de retração ou fechamento, mas como parte de um debate sobre como a esquerda brasileira se posiciona diante de um período que será, muito provavelmente, um dos mais duros das últimas décadas para o campo democrático e popular.
O cenário internacional já oferece sinais claros dessa transição. O mundo atravessa uma fase de reordenamento geopolítico marcada pela intensificação de conflitos regionais, pela disputa aberta entre potências e pelo uso crescente de instrumentos híbridos de guerra – econômicos, tecnológicos e informacionais. As guerras contemporâneas já não se travam apenas nos campos de batalha tradicionais. Elas se estendem às cadeias de energia, aos sistemas financeiros, às redes digitais e às narrativas que moldam a percepção pública dos acontecimentos. Nesse ambiente, imagens, informações e versões de um mesmo evento podem circular simultaneamente, disputando o imaginário coletivo antes mesmo que os fatos sejam plenamente conhecidos.
Essa transformação é visível nas guerras em curso no mundo. No conflito no Oriente Médio, por exemplo, já se tornou comum que vídeos e imagens altamente realistas circulem nas redes antes mesmo que se possa confirmar sua autenticidade. A inteligência artificial passou a produzir conteúdos visuais capazes de simular ataques, destruições e operações militares com um grau de verossimilhança que torna cada vez mais difícil distinguir o registro factual da fabricação digital. O impacto político dessas imagens, porém, é imediato. Elas moldam percepções, criam climas de opinião e influenciam decisões antes mesmo que os acontecimentos possam ser verificados.
Essa nova dimensão da disputa política já alcançou também as democracias contemporâneas. A eleição norte-americana que levou Donald Trump à presidência novamente foi um marco nesse processo, ao revelar a força das campanhas de desinformação, das redes de fake news e da manipulação algorítmica de percepções políticas em larga escala. Desde então, essas ferramentas não apenas se sofisticaram como passaram a se combinar com novas tecnologias de inteligência artificial capazes de ampliar exponencialmente sua capacidade de influência.
É nesse ambiente que ocorrerá a eleição brasileira de 2026.
Tudo indica que será a primeira eleição no país em que campanhas de desinformação estruturadas e ferramentas de inteligência artificial poderão operar de forma combinada, produzindo conteúdos falsos em escala massiva, simulando declarações, imagens e acontecimentos e alimentando ciclos contínuos de mobilização política nas redes digitais. Trata-se de uma forma de guerra política permanente, silenciosa, difusa e altamente assimétrica, na qual as forças progressistas entram em evidente desvantagem estrutural, seja pela menor capacidade de financiamento dessas tecnologias, seja pela própria lógica ética que orienta sua atuação política.
Ao mesmo tempo, essa disputa tecnológica se articula a um cenário geopolítico mais amplo, no qual grandes potências voltam a exercer influência direta sobre processos políticos nacionais. A América Latina sempre foi um espaço sensível dessas disputas. Episódios recentes demonstram que pressões econômicas, intervenções diplomáticas e operações de desestabilização continuam sendo instrumentos recorrentes na disputa por influência sobre governos da região.
a eleição de 2026 ocorrerá em um contexto de enorme pressão internacional, de intensa disputa informacional e de reorganização das forças da extrema direita global, que já demonstraram capacidade de articulação transnacional e de mobilização política baseada no ressentimento social, no negacionismo e na exploração sistemática de crises econômicas e culturais.
O Brasil, pela sua dimensão econômica, territorial e política, dificilmente ficará fora dessa dinâmica. Isso significa que a eleição de 2026 ocorrerá em um contexto de enorme pressão internacional, de intensa disputa informacional e de reorganização das forças da extrema direita global, que já demonstraram capacidade de articulação transnacional e de mobilização política baseada no ressentimento social, no negacionismo e na exploração sistemática de crises econômicas e culturais.
Nesse cenário, a reeleição do presidente Lula assume um significado estratégico para a democracia brasileira e para o conjunto do campo democrático e popular.
Mas reconhecer a centralidade dessa disputa não significa ignorar as complexidades do campo progressista. A unidade da esquerda será indispensável para enfrentar a extrema direita. No entanto, a história política mostra que unidade não é sinônimo de homogeneização. Nenhum campo político amplo se fortalece pela dissolução de suas identidades internas ou pela diluição programática de suas forças constitutivas.
Ao contrário: alianças duradouras se constroem quando diferentes organizações mantêm sua vitalidade política, sua capacidade de formular projetos e sua conexão com setores específicos da sociedade.
No Brasil, esse equilíbrio entre convergência estratégica e pluralidade organizativa é particularmente importante. O PT, como principal partido da esquerda e força dirigente do governo federal, tem uma responsabilidade decisiva na construção de um arco democrático amplíssimo, capaz de dialogar com diferentes setores da sociedade e de isolar politicamente a extrema direita.
Essa tarefa exige amplitude.
Em momentos de crise, o capitalismo tende a reorganizar suas contradições pressionando ainda mais as condições de vida da classe trabalhadora. A precarização do trabalho, a desindustrialização, o enfraquecimento de direitos sociais e a intensificação da exploração ambiental são fenômenos que atravessam o capitalismo contemporâneo em escala global.
Mas também exige a existência de forças políticas capazes de manter viva uma agenda de transformação social mais profunda. Em momentos de crise, o capitalismo tende a reorganizar suas contradições pressionando ainda mais as condições de vida da classe trabalhadora. A precarização do trabalho, a desindustrialização, o enfraquecimento de direitos sociais e a intensificação da exploração ambiental são fenômenos que atravessam o capitalismo contemporâneo em escala global.
O Brasil conhece bem essas tensões.
A defesa da soberania nacional, a reconstrução da capacidade industrial do país, a proteção dos direitos trabalhistas e o enfrentamento da crise climática constituem alguns dos eixos estruturais da disputa política brasileira nos próximos anos. A esses temas se somam outros igualmente decisivos: a defesa da educação pública, da saúde universal, do transporte e do direito à cidade e à terra e das políticas que garantam dignidade e igualdade para os diversos sujeitos sociais que compõem a sociedade brasileira – mulheres, população negra, povos indígenas, comunidade LGBT+, pessoas com deficiência, juventudes e todos aqueles que historicamente foram empurrados para as margens da cidadania. Longe de se tratar de agendas fragmentadas ou setoriais, essas lutas expressam diferentes dimensões de um mesmo conflito histórico: a disputa pelo próprio sentido de desenvolvimento, democracia e justiça social no Brasil contemporâneo.
É nesse terreno que a esquerda precisa atuar com clareza programática.
Debater unidade é necessário. Construir convergências políticas é indispensável. Mas nada disso pode significar a diluição programática das forças democráticas e populares, nem a descaracterização de partidos que surgiram precisamente para ampliar o horizonte das transformações sociais no país.
O PSOL nasceu com esse espírito.
Desde sua fundação, o partido se consolidou como uma força capaz de combinar presença institucional com enraizamento social, atuação parlamentar com mobilização popular, crítica estrutural ao capitalismo com defesa intransigente da democracia. Sua existência ampliou o espaço da esquerda brasileira, trouxe novos temas para o debate público e ajudou a renovar o imaginário político de uma geração inteira.
O debate recente dentro do partido revelou algo fundamental para qualquer organização política que pretende durar: vitalidade interna. Partidos vivos discutem seu destino. Confrontam visões distintas. Produzem sínteses políticas que orientam sua atuação histórica.
Foi exatamente isso que o PSOL demonstrou ser capaz de fazer.
Em um momento de grande pressão política, o partido realizou um debate profundo e tomou uma decisão coletiva sobre seu caminho. Esse processo revelou pluralidade, maturidade e compromisso com a construção de um projeto político para o futuro.
>> Leia também: O PSOL tem o molho
Num tempo de guerras híbridas, disputas tecnológicas e crises democráticas, a esquerda brasileira precisará de inteligência estratégica, capacidade de articulação e coragem política.
Mas precisará também de algo igualmente importante: partidos vivos.
Partidos capazes de pensar o mundo que está emergindo e de imaginar caminhos de transformação para além das urgências imediatas da política.
O PSOL segue sendo uma dessas forças. Um partido que compreende a importância da unidade democrática para enfrentar a extrema direita, mas que também sabe que nenhuma unidade duradoura se constrói apagando identidades, programas e projetos históricos.
O PSOL segue sendo uma dessas forças. Um partido que compreende a importância da unidade democrática para enfrentar a extrema direita, mas que também sabe que nenhuma unidade duradoura se constrói apagando identidades, programas e projetos históricos.
Porque, em última instância, a política não se faz apenas para administrar o presente.
Ela se faz para disputar o futuro.
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